Coluna

Como as novas formas de transmissão de futebol no Brasil engajam a Geração Z

Streaming, creators e plataformas próprias reconfiguram o consumo esportivo e impulsionam novos modelos de valor no futebol nacional

28 de outubro de 2025

6 minutos de Leitura

OutField
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Grupo focado em investimentos, inteligência e estratégia para esporte e entretenimento.

Por Pedro Paranahyba – Analista de Strategies da Outfield


A transformação do consumo esportivo no Brasil passa, hoje, por uma mudança estrutural nas formas de transmissão.

Com a ascensão do streaming, o fortalecimento dos criadores de conteúdo e o avanço de plataformas próprias de clubes, o futebol brasileiro entrou em uma nova fase — marcada pela descentralização da audiência, personalização da experiência e integração entre mídia e engajamento digital.
Nesse cenário, a Geração Z — formada por jovens nascidos entre 1995 e 2010 — emerge como o público que mais redefine a relação entre torcedor, clube e transmissão.

Imersos em um ambiente digital e conectivo, esses torcedores valorizam autenticidade, interatividade e participação ativa nas narrativas esportivas, o que obriga o setor a repensar formatos, métricas e estratégias de comunicação.

Do monopólio televisivo à lógica multiplataforma

Durante boa parte do século XX, o futebol foi estruturado sob o domínio das emissoras de rádio e TV, que transformaram o jogo em um dos principais produtos do entretenimento global. O valor estava concentrado na audiência massiva e na venda de direitos de transmissão, pilares de um modelo que unia publicidade, programação e visibilidade nacional.

Com o avanço da digitalização e a expansão da internet, esse paradigma se fragmentou. O que antes dependia de um único canal de comunicação tornou-se um ecossistema de múltiplas plataformas, com destaque para CazéTV, GOAT, Amazon Prime Video, Disney+ e os canais digitais dos próprios clubes.

Esses novos agentes não apenas diversificaram o acesso, mas alteraram a lógica do consumo: o torcedor passou a escolher como, onde e com quem assistir. O impacto é direto sobre o modelo de negócios. O futebol deixou de depender apenas de contratos de TV para se apoiar também em métricas de engajamento, dados de audiência digital e formatos híbridos de monetização.

O papel dos criadores de conteúdo e a nova mediação com o torcedor

O sucesso de iniciativas como a CazéTV ilustra o poder de um modelo baseado na chamada creator economy — termo que designa o ecossistema econômico formado por criadores de conteúdo independentes que produzem, distribuem e monetizam seus próprios conteúdos e comunidades por meio de plataformas digitais.

A transmissão da Copa do Mundo de 2022 e, depois, de diversas competições de magnitudes, estaduais, nacionais e internacionais, mostrou que há um público disposto a acompanhar o futebol em formatos mais leves, interativos e próximos da linguagem cotidiana.

Nesse contexto, o criador de conteúdo assume o papel de mediador cultural entre o jogo e o público jovem. Em vez de uma narração formal e distante, o torcedor encontra um ambiente de conversa, humor e identificação — características que favorecem o engajamento e a permanência.

Para os clubes e marcas, essa nova dinâmica amplia a exposição, mas também exige planejamento por parte de todos os stakeholders dessa nova cadeia para que as oportunidades sejam bem aproveitadas. A narrativa espontânea precisa ser acompanhada de gestão de imagem, mensuração de resultados e controle de dados.

O futebol como produto contínuo e interativo

O jogo deixou de ser um evento isolado. Hoje, ele faz parte de uma cadeia de conteúdo que se estende antes, durante e depois da partida. Cortes, bastidores, estatísticas em tempo real e vídeos de reação alimentam uma rotina de consumo permanente — especialmente nas redes sociais e nos dispositivos móveis, principais interfaces da Geração Z.

A chamada Cultura da Convergência (Jenkins, 2006) tornou o torcedor um co-produtor ativo da narrativa esportiva. Ele comenta, compartilha e reinterpreta o jogo, expandindo o alcance da transmissão e influenciando sua própria comunidade digital. Essa coparticipação redefine o papel do espectador, que passa de consumidor para agente de difusão e construção simbólica do espetáculo esportivo.

O resultado é um ciclo de engajamento mais longo e diversificado, que reforça a visibilidade de clubes e patrocinadores.

A Geração Z e o consumo esportivo fragmentado

A Geração Z é o primeiro público que cresceu em um ambiente de estímulos simultâneos e comunicação instantânea.

Estudos recentes (MindMiners, 2024) mostram que as redes sociais já superaram a televisão como principal meio de acompanhamento esportivo entre os jovens brasileiros, com destaque para TikTok, YouTube e Instagram.

Essa mudança reflete uma atenção fragmentada e uma preferência por conteúdos mais curtos, dinâmicos e de fácil compartilhamento. Em vez de acompanhar 90 minutos de uma partida, esse público prioriza momentos de intensidade — gols, reações, bastidores e narrativas paralelas que mantêm o vínculo emocional mesmo fora do jogo.

Além disso, a lealdade da Geração Z é mais fluida. Ela acompanha diferentes clubes, ligas e modalidades, como NBA e eSports, o que amplia a competição pelo tempo e pela atenção do torcedor. Nesse cenário, os clubes e empresas de transmissão que desejam manter relevância precisam desenvolver estratégias baseadas em personalização, interatividade e senso de comunidade.

Conclusão: O futebol como ecossistema de mídia e dados

O futebol brasileiro vive um momento de transição.

O modelo de transmissão baseado apenas em grandes audiências cede espaço a uma estrutura orientada por dados, conteúdo e engajamento contínuo.

O desafio para clubes, ligas e marcas é equilibrar inovação e governança: explorar as oportunidades do ambiente digital sem perder controle sobre o ativo mais valioso — o torcedor. Engajar a Geração Z não é apenas adaptar formatos, mas compreender uma nova lógica de consumo, que valoriza participação, diálogo e autenticidade.

Mais do que um produto de entretenimento, o futebol torna-se um sistema de mídia interconectado, capaz de gerar valor econômico e simbólico a partir da atenção — o novo campo onde o jogo realmente acontece.

Referências

JENKINS, Henry. Convergence Culture: Where Old and New Media Collide. New York University Press, 2006.
MINDMINERS. Pesquisa Consumo de Conteúdo Esportivo no Brasil. São Paulo, 2024.

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