Coluna

Mirassol faz ótimo trabalho de marketing porque entende seu lugar

Clube do Noroeste Paulista aceita a condição de segundo clube da população local, ao mesmo tempo em que busca aumentar sua área de influência

01 de outubro de 2025

9 minutos de Leitura

Marcelo Loureiro
Marcelo Loureiro
Doutorando e professor de Marketing Esportivo na Florida State University

Poucos problemas me parecem tão importantes no futebol brasileiro quanto a concentração de clubes da elite em não mais do que seis ou sete grandes metrópoles. Mesmo uma edição como a atual, que concentra cinco clubes nordestinos na primeira divisão do futebol nacional, não apresenta um caminho estável para uma melhor distribuição geográfica da elite do esporte mais popular do país: adicionam-se times de Salvador, Recife e Fortaleza, mas tiram-se times de Curitiba, Goiânia e Cuiabá, e o futebol brasileira continua com seus clubes de primeira divisão concentrados em pouco mais de um punhado das cidades mais populosas do país.

É uma questão matemática, e de fato não há muito a se fazer: a cada ano, somente vinte clubes disputam a primeira divisão. Um país que possui doze clubes considerados grandes distribuídos em apenas quatro cidades, realisticamente, não abre espaço para que mais de dez cidades sejam representadas no seu mais alto nível de competição. Essa concentração resulta em um fenômeno muito claro para quem acompanha o futebol brasileiro com um mínimo de atenção: os brasileiros não são criados nos estádios. Boa parte da população nacional vive uma realidade de acompanhar partidas pela televisão, em que os estádios da elite do futebol nacional parecem distantes – em termos psicológicos, geográficos e financeiros.

Sendo justo, essa situação de concentração esportiva não é nem de longe exclusividade do nosso futebol. Argentinos e ingleses, por exemplo, veem clubes de suas respectivas capitais ocuparem parcela significativa de suas principais competições, enquanto a Alemanha vê quase a totalidade de suas vagas na elite serem ocupadas por equipes da antiga Alemanha Ocidental. É um problema diretamente relacionado à grande importância dada ao futebol nesses países, dado que é inviável manter mais do que poucas dezenas de clubes na primeira divisão nacional. Ainda assim, todos esses países contam não apenas com populações muito inferiores ao Brasil, mas principalmente com territórios muito mais enxutos, de forma que suas populações se encontram, em média, muito mais próximas de algum estádio de primeira divisão do que a população brasileira.

O país que mais se aproxima do Brasil em termos de tamanho populacional e extensão territorial são os Estados Unidos e, aí sim, vejo uma diferença gritante. Considerando que o país possui quatro das maiores ligas do mundo (NFL, NBA, MLB e NHL), além de ligas esportivas menores e um sistema de esportes universitários bastante relevante em todo o território, me arrisco a dizer que todas as 50 maiores cidades do país possuem alguma relação com esportes competitivos de alto nível. Não só isso, mas com sistemas de esportes relevantes relacionados também a high schools, me parece claro que a imensa maioria da população americana, apesar de suas dimensões continentais, possui acesso a estádios.

Ao contrário da população brasileira, americanos são criados próximos ao esporte (ao menos enquanto espectadores), em um sistema muito mais robusto e rico do que o brasileiro. Cabe destacar que a diferença não reside apenas na quantidade de esportes praticados, mas na importância que se dá a cada nível esportivo: mesmo com a NFL dominando o mercado, partidas de futebol americano no high school conseguem se manter importantes e carregar milhares de pessoas aos estádios do país.

Trazendo essa discussão novamente ao cenário brasileiro, me preocupa que as lideranças do esporte nacional, há décadas, encontrem tanta dificuldade em interiorizar o acesso a competições esportivas. Saindo das poucas grandes metrópoles que o país possui, existe pouquíssimo acesso a competições esportivas de bom nível, e as decisões estruturantes tomadas por dirigentes no país não contribuem em nada para uma mudança de cenário. A eterna discussão sobre estaduais e divisões inferiores dificilmente se volta para a valorização dessas competições de forma que equipes ao redor de todo o país possam se viabilizar sem quaisquer ambições de acessar o mais alto nível do futebol nacional. Mesmo SAFs como as da Portuguesa (SP) e do Ferroviário (CE), por exemplo, se estruturam pensando na elite; e não estão erradas, afinal, é praticamente impossível se sustentar nas camadas inferiores do nosso esporte.

Essa reflexão, que desenvolvo há bastante tempo e que nos próximos anos resultará em minha dissertação de doutorado, me faz acompanhar com bastante curiosidade a ascensão do Mirassol. Não exatamente dentro de campo, como a maior parte das pessoas que costumam acompanhar o caçula da elite nacional – afinal, como discuti anteriormente, sequer há espaço para que centenas de equipes espalhadas por nosso território cheguem um dia à Série A –, mas fora de campo. Se o Leão do Interior faz um trabalho praticamente irretocável dentro das quatro linhas, fora delas também apresenta soluções para as classes mais baixas do futebol nacional, e deveríamos todos estar prestando atenção ao que vem sendo feito no Noroeste Paulista.

Há algumas semanas, o Globo Esporte publicou uma matéria endereçando algumas das estratégias de marketing do clube, e existem dois pontos que gostaria de discutir aqui. Como disse anteriormente, muitas das decisões estratégicas das lideranças do futebol brasileiro dificultam a relevância de clubes menores no país, mas considero que esses clubes não conseguem se consolidar muito em virtude de suas próprias incompetências também. O case do Mirassol apresenta soluções que podem ser aplicadas país afora, colocando centenas de clubes brasileiros em um patamar de alta relevância regional. Isso porque o clube paulista, mesmo com todos os holofotes que tem atraído nos últimos meses, entende muito bem o seu lugar e se recusa a dar passos maiores que sua perna.

O primeiro aspecto que gostaria de tratar aqui é a aceitação da condição de segundo time dos torcedores locais. O Mirassol tem ativamente evitado quaisquer tipos de provocações em suas vitórias como forma de evitar atritos com torcedores de outros clubes que porventura morem na cidade ou na região. O racional por trás, completamente justificado, é que torcedores não mudam de time tão facilmente, e um atrito com os maiores clubes do país representaria, necessariamente, um afastamento de enorme parte do público potencial das partidas do clube auriverde.

Tenho visto, ao longo da última década, um crescente número de casos de clubes regionais proibindo a entrada de torcedores com camisetas de potências nacionais sob a justificativa de que a prática não apenas gera conflitos, mas também descaracteriza o ambiente. O sinal que se passa com esse tipo de decisão, ainda que de forma involuntária, é muito claro: torcedores que não tratem esses times regionais como prioridade não são bem-vindos. A verdade é que, por mais contraintuitivo que isso possa parecer, visto que praticam o mesmo esporte, as grandes potências nacionais e as equipes regionais – mesmo em casos em que se enfrentem em estaduais, por exemplo – não representam uma competição direta. Os torcedores brasileiros compartimentalizam suas relações com potências nacionais e clubes locais de forma bastante distinta, de forma que a criação artificial de um conflito entre as partes prejudica somente os clubes menores, que destroem seu relacionamento com torcedores locais.

É claro que, no longo prazo, o Mirassol tem o potencial de se posicionar como primeiro time de boa parte da população local, principalmente com as novas gerações. Ainda assim, esse é um processo que leva décadas para acontecer e que só acontece caso o clube se permita a oportunidade de construir um relacionamento mais duradouro e relevante com seus potenciais torcedores. A briga artificial – e essa palavra é importante, visto que, como mencionei no parágrafo anterior, os torcedores não enxergam potências nacionais e clubes regionais como competidores diretos – criada por clubes menores ao redor do país é um combustível fundamental para o processo de manutenção do domínio exercido por pouco mais de dez clubes sobre a quase totalidade do território.

Em segundo lugar, o Mirassol busca reposicionar sua marca como representante de uma região maior do que sua cidade. Como a própria matéria do GE mostra, o reposicionamento já se mostra eficaz, com a maior parte do público presente nos estádios do Leão vindo de cidades vizinhas a Mirassol, como São José do Rio Preto. Essas duas estratégias, se combinadas, apresentam o caminho mais viável para a autossustentação de um número maior de clubes brasileiros: clubes regionais devem, com raríssimas exceções, aceitar sua posição de segundo clube da população local, focando seus esforços em aumentar localmente suas áreas de influência.

Os quase mil clubes profissionais ativos no país são certamente mais do que o mercado brasileiro consegue sustentar, mas o país também se beneficia muito pouco de um cenário em que pouco mais de dez clubes dominem quase que completamente a torcida nacional. O trabalho de interiorização da relevância futebolística no país deve aceitar, em primeiro lugar, que o processo leva tempo e que demanda, em seus estágios iniciais, uma posição subalterna de clubes regionais na hierarquia do futebol nacional. Em paralelo a isso, é importante que clubes locais trabalhem ativamente a expansão (controlada) de suas áreas de atuação, buscando estabelecer sua influência em áreas com tamanho suficiente para a manutenção de projetos esportivos relevantes. O Mirassol tem trabalhado muito bem esses dois fatores, e clubes menores deveriam se preocupar menos em copiar seu sucesso dentro de campo e mais em se estruturar de forma semelhante nos bastidores.

Compartilhe
ver modal

Assine a newsletter do MKT