O projeto SAFiel, idealizado por um grupo de torcedores do Corinthians, foi apresentado nesta terça-feira (28) com a proposta de criar uma Sociedade Anônima do Futebol financiada pelos próprios corintianos. A iniciativa pretende oferecer um modelo de gestão alternativo para o clube, colocando a torcida como principal investidora e detentora das ações. A expectativa era de que o presidente Osmar Stabile participasse do evento, mas o dirigente cancelou sua presença pouco antes do início.
A proposta foi detalhada à imprensa em evento no Museu do Futebol, no Pacaembu, que contou com a presença de ex-dirigentes, conselheiros e representantes de torcidas organizadas. O grupo responsável pelo projeto ainda planeja entregar uma minuta do Memorando de Entendimento à diretoria, em reunião prevista para a tarde, na sede do Parque São Jorge, com o objetivo de formalizar os próximos passos.
O SAFiel surge em meio ao cenário financeiro mais delicado da história corintiana. O clube acumula uma dívida de aproximadamente R$ 2,7 bilhões, de acordo com o balancete de julho. Desse total, cerca de R$ 655 milhões estão ligados ao financiamento da Neo Química Arena, o que representa parte significativa do passivo. Além disso, o Alvinegro enfrenta restrições impostas pela Fifa por débitos com atletas, que já resultaram em punições e podem gerar novas limitações.
“É um projeto construído a várias mãos com o compromisso de não perder a alma popular que o construiu. Nós, os idealizadores, temos apenas um propósito: ajudar o Corinthians. Não temos nenhum outro propósito”, afirmou o empresário Carlos Teixeira, um dos criadores do projeto.
“O projeto SAFiel veio para resolver as dívidas, mas o objetivo final é botar todos os corintianos, pretos, brancos e pobres, no centro de tudo. Colocando o modelo corporativo, mas protegendo a nossa história. Não estamos falando algo aspiracional, mas algo real. A torcida de fato vai ser dona do time no papel e será tratada e respeitada como dona”, acrescentou.
Para os idealizadores, o movimento representa um convite para que o time paulista adote um novo caminho de gestão, no qual o poder se distribua entre os torcedores e o foco volte a ser o crescimento coletivo do clube e não decisões individuais.
Inspirando-se em experiências de equipes europeias como Atlético de Madrid e Bayern de Munique, que reformularam suas estruturas de governança nos anos 2000, os criadores da SAFiel defendem que a mudança de modelo é um passo natural no futebol moderno. O grupo entende que o Corinthians, com administração eficiente, tem potencial para gerar lucros que retornem à torcida, que seria beneficiada diretamente pelos resultados do time.
Entre as novidades apresentadas está o desenvolvimento de um aplicativo por meio do qual cada torcedor poderá acompanhar o número de ações adquiridas, o valor de mercado e a participação nos direitos dos jogadores, além da estrutura de governança. O projeto também prevê a criação de um modelo de parceria com o clube associativo, que passaria a receber royalties mensais e direcionaria sua atuação aos esportes olímpicos.
“Queremos restaurar o equilíbrio para o Parque São Jorge voltar a ser um lugar de família, com autonomia, dignidade e futuro. A SAFiel é o elo entre evolução e tradição… Nossa proposta tem ambições grandiosas, assim como é o Corinthians”, comentou Maurício Chamati, criador do Mercado Bitcoin e um dos idealizadores do projeto.
“A proposta consiste na construção de uma nova empresa que receberia todos os ativos do futebol e uma outra empresa que chamamos de Invasão Fiel que receberá o aporte financeiro dos torcedores. Assim teríamos recursos para captar dinheiro, pagar as dívidas e voltar à linha de frente nas competições”, explicou Eduardo Salusse, especialista em Direito e também criador da SAFiel.
De acordo com o grupo, para compras de ações acima de determinado valor será exigida comprovação de origem dos recursos, a fim de evitar intermediações irregulares. Cada torcedor terá direito a apenas um voto por CPF, e o conselho de administração será composto exclusivamente por membros independentes. As decisões da SAF serão realizadas via reconhecimento facial no aplicativo, tecnologia semelhante à usada por bancos, com o sistema incluindo ainda uma ferramenta de transmissão ao vivo para esclarecer dúvidas dos investidores.
Movimento SAFiel surge após Corinthians avançar com anteprojeto de reforma estatutária
O lançamento da SAFiel ocorre um dia após o Corinthians divulgar o anteprojeto da reforma de seu estatuto, que prevê a criação de uma SAF. O texto precisa passar por auditoria independente e ser aprovado pelo Conselho Deliberativo e pela Assembleia Geral de Associados.
A proposta atual impede que investidores externos detenham o controle majoritário e autoriza o clube a formar uma empresa para gerir o futebol, desde que mantenha ao menos 51% das ações e repasse no mínimo 10% da receita líquida anual ao associativo, conforme informou o Estadão.
“Estou muito triste porque o presidente não está aqui. Quem critica, deve apresentar uma proposta melhor. Se for para entregar minha carteira pelo bem do Corinthians, eu faço isso”, afirmou a conselheira Miriam Athié.
Carlos Teixeira completou dizendo que, se o clube insistir em manter maioria acionária, acabará restringindo a entrada de novos investidores, o que pode limitar a capacidade de captação de recursos e comprometer o crescimento do projeto.
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