Coluna

A nova corrida da Fórmula 1: quando o esporte acelera rumo à cultura e à tecnologia

Renata Galiotti, publicitária com mais de 10 anos de experiência em comunicação e marketing, é a nova colunista do MKTEsportivo

Renata Galiotti

04 de novembro de 2025

4 minutos de Leitura

Renata Galiotti
Renata Galiotti
Publicitária com mais de 10 anos de experiência em comunicação e marketing, com passagens por Meta, Warner Bros. Discovery e ESPN Brasil. Atuou com clubes, ligas, federações, Creators e grandes marcas em projetos que conectam esporte, conteúdo e cultura.

A Fórmula 1 já não é apenas um campeonato de velocidade. É um dos ecossistemas de mídia e entretenimento mais sofisticados do planeta — onde negócio, tecnologia e cultura correm lado a lado, em alta velocidade. Em mais de sete décadas, o esporte deixou de ser um nicho europeu e elitista para se tornar uma narrativa global, movida por dados, emoção e um storytelling poderoso.

Nos anos 1950, a identidade da F1 refletia o orgulho nacional: o vermelho da Ferrari, o verde da Lotus, o azul da Williams. A competição era financiada pela paixão e pela busca da excelência em engenharia. Mas em 1968, tudo mudou com a icônica parceria entre a Lotus e a Gold Leaf Tobacco, o primeiro grande patrocínio comercial do automobilismo. A partir dali, o esporte passou a ser financiado por branding, e a performance na pista começou a dividir espaço com a performance de marketing.

A transformação ganhou tração nos anos 1980, com a ascensão do modelo de negócio de Bernie Ecclestone, que centralizou os direitos de transmissão e transformou a categoria em um império de TV global. O público cresceu, o dinheiro injetado pelas marcas aumentou, e o patrocínio se tornou o verdadeiro motor da competição. Na chamada “era do tabaco”, marcas como Marlboro, Mild Seven e Camel dominaram o grid, criando algumas das imagens mais icônicas da história do esporte — até que as restrições à publicidade de cigarro, no início dos anos 2000, forçaram uma reinvenção e abriram espaço para novos setores, como bancos, telecomunicações e, principalmente, tecnologia.

A Revolução da Liberty Media: A F1 na Era do Fã

Em 2017, a aquisição da Fórmula 1 pela Liberty Media por US$ 4,4 bilhões inaugurou uma nova era: o esporte entrou de vez no mundo do entretenimento digital e do direct-to-consumer. A nova gestão percebeu que o produto não era apenas a corrida, mas o conteúdo em si. Com o lançamento do F1 TV Pro e, principalmente, com o sucesso estrondoso da série Drive to Survive da Netflix, a Fórmula 1 virou um fenômeno de cultura pop.

A série humanizou os pilotos, expôs as rivalidades e os bastidores, transformando atletas em personagens e equipes em protagonistas de um drama real. O resultado foi um crescimento massivo de audiência, especialmente nos Estados Unidos — um mercado até então pouco explorado —, onde a audiência média cresceu cerca de 40% nos primeiros anos de Liberty Media. A F1 deixou de vender apenas velocidade. Passou a vender narrativa.

A Curva da Apple: O Ecossistema como Produto

Hoje, a F1 é também uma potência tecnológica. Cada carro é um centro de dados ambulante, gerando milhões de pontos de informação por corrida, analisados em tempo real por equipes de engenheiros. Essa complexidade virou produto: a parceria com a Amazon Web Services (AWS), por exemplo, permitiu a criação de gráficos e estatísticas avançadas para os fãs, como a probabilidade de ultrapassagem, enriquecendo a experiência de quem assiste.

E agora, uma nova curva se aproxima: a era Apple. Depois do sucesso de F1: O Filme, produção estrelada por Brad Pitt que arrecadou cerca de US$ 630 milhões e se tornou o filme esportivo de maior bilheteria da história, a Apple firmou um contrato recém-anunciado de US$ 750 milhões para transmitir a Fórmula 1 com exclusividade nos Estados Unidos a partir de 2026.

O acordo vai muito além da transmissão: o ecossistema da marca integrará o conteúdo da F1 a serviços como Apple News, Music, Maps, Sports e Fitness+, criando uma experiência imersiva e multiplataforma. A Apple não comprou apenas um esporte; comprou uma propriedade de entretenimento para alimentar seu ecossistema.

Pole Position no Mercado da Atenção

A Fórmula 1 entendeu algo que muitas ligas e federações ainda custam a perceber: relevância cultural é a mais poderosa estratégia de crescimento. Hoje, o esporte compete não apenas por pódios, mas pela atenção do público. Seus rivais não são apenas outras categorias do automobilismo, mas as plataformas de streaming, os games e as redes sociais. A disputa acontece tanto nas curvas de Mônaco quanto nas telas dos feeds.O futuro desse esporte não será medido apenas em tempo de volta, mas em engajamento, emoção e impacto cultural. E nisso, a Fórmula 1, com sua capacidade única de unir espetáculo, tecnologia de ponta e drama humano, segue na pole position.

Compartilhe
ver modal

Assine a newsletter do MKT