A relação do fã brasileiro com a NBA passou por uma transformação profunda. O que começou como um interesse pontual, voltado ao espetáculo e ao estilo de vida associado ao basquete norte-americano, se consolidou em uma conexão emocional e informada. O público que antes via o jogo como pano de fundo para uma experiência de entretenimento agora enxerga o esporte em sua essência, técnica, emoção e pertencimento.
“Na primeira edição da NBA House, em 2017, o público ia para ver o evento, o jogo era só um pano de fundo. Hoje é o contrário. Quando o jogo começa, todo mundo para pra ver. O público amadureceu. Entende o jogo, o momento, o contexto. Antes ele ia pela festa; hoje ele vai pelo esporte”, disse Sérgio Perrella, vice-presidente de Licenciamento e Varejo da NBA na América Latina, em sua participação no Invite.
A observação do executivo reflete um movimento mais amplo: a consolidação da NBA no imaginário esportivo nacional. O evento que antes atraía curiosos virou um ponto de encontro de torcedores reais, que se identificam com times, ídolos e histórias.
“Durante as finais, a NBA House parecia um estádio. Tinha bandeirão da torcida do Celtics, gente gritando, emoção de verdade. A galera vibrando a cada cesta, xingando quando errava. Antes era muito lifestyle; agora é paixão genuína”, destacou Fê Medeiros.
Esse sentimento de pertencimento, segundo ele, é um sinal de que o público brasileiro consome o produto NBA e se sente parte do ecossistema da bola laranja.
“Tem gente ficando acordada até 3h da manhã pra ver jogo do Oeste e indo trabalhar comentando o jogo. O fã brasileiro se apropriou da NBA. Ele entendeu que é dele também”, acrescentou.
O vetor digital
Por trás dessa transformação está a revolução digital, que mudou a forma de consumir esporte e aproximou gerações. As transmissões lineares deram espaço a um universo de possibilidades instantâneas: cortes, análises, bastidores, memes e estatísticas em tempo real. O acesso, antes restrito a poucos, virou cotidiano.
“Eu vivi os dois mundos. Sou da época da fita VHS. Ou você via na Bandeirantes de madrugada, ou não via. Depois veio o videogame, e a gente conhecia os times mais por causa do jogo do que da TV. Hoje é completamente diferente”, lembrou Fê.
“Hoje o garoto de 12 anos sabe as médias do LeBron, comenta o draft, entende estatísticas, sabe quem é rookie e quem é veterano. A internet democratizou o acesso. Antes era pra quem era muito fã; hoje é pra todo mundo. A NBA virou cultura pop”, completou.
Essa nova dinâmica também alterou o perfil etário do público. A base de fãs, que antes era formada majoritariamente por adultos nostálgicos da geração Luciano do Valle, passou a ser dominada por nativos digitais.
“Lá atrás, há 10, 15 anos, o público era mais velho, da geração do Luciano do Valle, da Band. Hoje, o fã é muito mais jovem, adolescente, cara de 20 e poucos anos que está no TikTok, no Instagram, no YouTube. Ele consome de outro jeito. Não tem paciência pra ver um jogo de três horas, mas acompanha cortes, bastidores, reações”, observou Sérgio.
Esse comportamento multitela redefiniu a forma como a própria NBA se comunica com o público. A liga entendeu que o fã de hoje também quer participar e, principalmente, quer viver o esporte na cadência do digital.
“Por isso a NBA investe tanto em plataformas diferentes, porque o fã de hoje é multi-tela. Ele tá com o celular na mão enquanto vê o jogo. Isso é muito diferente do fã tradicional”, finalizou Perrella.





