Nos últimos anos, os clubes da Premier League têm registrado gastos históricos no mercado de transferências. Na última janela, os clubes ingleses desembolsaram cerca de £3 bilhões (aproximadamente R$22,5 bilhões) em novas contratações, com alguns atletas custando mais de £100 milhões (R$750 milhões). Esse investimento reflete não apenas a valorização dos jogadores, mas também a pressão por resultados imediatos na liga mais competitiva do mundo e em competições europeias.
No entanto, o cenário de gastos astronômicos tem um preço. Muitos clubes recorrem a empréstimos e financiamentos para equilibrar os orçamentos. Segundo dados da Premier League, em 2022, os clubes acumulavam mais de £4 bilhões (R$30 bilhões) em dívidas, sendo cerca de 37% provenientes de empréstimos dos próprios proprietários. Para a temporada 2023/24, os passivos relacionados a pagamentos futuros por jogadores chegaram a £3,18 bilhões (R$23,85 bilhões), concentrados principalmente em metade dos clubes, que detêm 77% da dívida total da liga.
Entre os fatores que impulsionam esse endividamento estão:
- Transferências milionárias e salários elevados, muitas vezes pagos em parcelas;
- Investimentos em infraestrutura, como novos estádios e centros de treinamento;
- Modelo de receitas que, apesar de alto, não elimina riscos, já que custos operacionais e financeiros crescem continuamente;
- Dependência de investidores e proprietários, cuja liquidez e disposição para injetar capital determinam o equilíbrio financeiro do clube.
Alguns clubes exemplificam bem os desafios desse modelo. O Everton, em 2023/24, tinha empréstimos externos de cerca de £594 milhões (R$4,45 bilhões) e uma dívida líquida de £330,6 milhões (R$2,48 bilhões), pagando aproximadamente £30 milhões (R$225 milhões) em juros apenas pelo financiamento do estádio. O Tottenham Hotspur acumulava £1,10 bilhão (R$8,25 bilhões) de dívida bruta, grande parte ligada à construção de seu novo estádio. Já o Chelsea contava com cerca de £491 milhões (R$3,68 bilhões) em parcelas futuras de transferências, além de outros empréstimos.
Os financiamentos vêm de um grupo diversificado de credores, incluindo grandes bancos europeus, como HSBC, Barclays e Santander, instituições especializadas, como Close Brothers e Aldermore, e bancos de Wall Street, como Citibank. Empresas de crédito privado, como Ares e Apollo Global Management, também se tornam players importantes, oferecendo empréstimos vultosos a clubes como Chelsea e Nottingham Forest, muitas vezes com taxas de juros elevadas.
O risco de endividamento elevado é real. Caso os clubes falhem em atingir metas esportivas ou de receita, o peso da dívida aumenta, tornando o equilíbrio financeiro vulnerável. Violações das regras de “Rentabilidade e Sustentabilidade” da Premier League podem resultar em sanções, dedução de pontos ou restrições em transferências.
Apesar dos desafios, o sucesso financeiro e esportivo da Premier League continua impressionante. O campeonato gera receitas bilionárias com direitos de transmissão, patrocínios e bilheteria. Porém, o cenário atual evidencia que a questão não é apenas “ganhar agora”, mas garantir a viabilidade financeira dos clubes no longo prazo.
Dívidas brutas dos clubes da Premier League – temporada 2023/24
- Everton – £1.000 milhões (R$7,5 bilhões)
- Tottenham Hotspur – £851 milhões (R$6,38 bilhões)
- Manchester United – £547 milhões (R$4,10 bilhões)
- Arsenal – £342 milhões (R$2,57 bilhões)
- Liverpool – £314 milhões (R$2,36 bilhões)
- Chelsea – £303 milhões (R$2,27 bilhões)
- Brighton – £300 milhões (R$2,25 bilhões)
- Crystal Palace – £15 milhões (R$112,5 milhões)
O motivo dos altos gastos é claro: a Premier League gera receitas bilionárias, permitindo investimentos vultosos em jogadores. A pressão por resultados imediatos e a competitividade intensa da liga fazem com que clubes médios e grandes gastem pesado para não ficarem para trás. Contratar estrelas também fortalece a marca, atrai torcedores e patrocinadores, criando um ciclo contínuo de investimentos elevados.
Investimentos das principais ligas europeias – temporada 2025/26
- Premier League: £3,19 bilhões (R$23,9 bilhões)
- Serie A (Itália): £844 milhões (R$6,33 bilhões)
- Bundesliga (Alemanha): £503 milhões (R$3,77 bilhões)
- La Liga (Espanha): £468 milhões (R$3,51 bilhões)
Ranking dos clubes que mais investiram em 2025/26
- Liverpool – €482 milhões (R$3,18 bilhões)
- Chelsea – €328 milhões (R$2,16 bilhões)
- Arsenal – €294 milhões (R$1,94 bilhão)
- Newcastle United – €289 milhões (R$1,91 bilhão)
- Manchester United – €251 milhões (R$1,66 bilhão)
- Nottingham Forest – €237 milhões (R$1,56 bilhão)
- Tottenham Hotspur – €211 milhões (R$1,39 bilhão)
- Manchester City – €207 milhões (R$1,36 bilhão)
- Bayer Leverkusen – €198 milhões (R$1,30 bilhão)
- Sunderland – €188 milhões (R$1,24 bilhão)
O domínio britânico é evidente: oito dos dez clubes que mais investiram na última janela pertencem à Premier League. Com gastos recordes, a liga reforça sua posição como a mais competitiva e lucrativa do continente, mas também mostra os riscos de um modelo baseado em investimentos altos e endividamento crescente.





