Atletas

Atletas como marcas: carreira, reputação e caminhos pós-esporte

Invite recebe Eduardo Musa e Ilsinho para um profundo papo sobre como formação, imagem e gestão moldam a trajetória do atleta dentro e fora do esporte

Eduardo Musa e Ilsinho em participação no Invite

01 de dezembro de 2025

7 minutos de Leitura

A relação entre quem planeja o esporte e quem o executa no campo raramente é explorada com profundidade, mas é justamente nesse encontro que muitas respostas importantes se revelam.

No Invite, programa oficial do MKTEsportivo, essa ponte ganha forma com a presença de Eduardo Musa, ex-presidente da Confederação Brasileira de Skate e gestor da carreira de Neymar por seis anos, e de Ilsinho, ex-jogador com passagens por Seleção Brasileira, Palmeiras, São Paulo, Inter, Shakhtar Donetsk e Philadelphia Union.

Em mais de 1h30 de conversa, os dois analisam os bastidores da formação, da carreira e das decisões que moldam a trajetória de um atleta, revelando pontos de atenção que vão muito além do desempenho técnico.

Realidade financeira

Durante a entrevista, Eduardo Musa destacou um dos dilemas mais recorrentes na trajetória dos jovens jogadores brasileiros: a dificuldade de conciliar a formação esportiva com a educacional. Segundo ele, essa desconexão ainda é um dos fatores que mais fragiliza o desenvolvimento dos atletas no país, abrindo espaço para relações de dependência e decisões precipitadas ao longo da carreira.

“O atleta do Brasil quando começa a despontar, infelizmente em algum momento ele tem que escolher entre escola ou futebol. E isso, obviamente que traz um prejuízo pra carreira dele. Aí você abre um espaço para empresários e agentes que podem ser bons ou ruins. Alguns prezam pelo paternalismo, dizendo “você só precisa jogar futebol, e o resto eu penso”. Só que esse cara que tá jogando futebol ali com 18, 20 anos, a carreira dele vai acabar em algum momento e o atleta precisa ter essa noção, o controle da própria vida”, destacou.

Ilsinho reforçou esse ponto ao relembrar casos vividos nos Estados Unidos, onde colegas brasileiros não sabiam nem ao menos da existência de impostos retidos. Em alguns episódios, jogadores recém-chegados à MLS acreditavam estar recebendo salários menores do que o acordado simplesmente porque nunca tinham sido orientados sobre tributação, declaração ou deduções obrigatórias.

“O jogador, pode ganhar 100 mil ou 10 milhões, precisa se interessar pelo financeiro, procurar saber o porque das coisas, sabe? Saber de imposto, como funciona. O básico, não precisa ser especialista. Vai saber como funciona no país que você tá jogando. É seu dinheiro, seu patrimônio. Muitos deles, quando terminam a carreira, o dinheiro já foi. E o americano é completamente diferente”, detalhou.

O atleta como marca

A construção de imagem foi outro ponto de destaque. Duda relembrou sua atuação com Neymar, desde os momentos de crise no Santos até a internacionalização da imagem do atleta no Barcelona. Segundo ele, é preciso transformar o jogador em uma marca, algo que vai muito além de likes ou parcerias casuais e relembrou o case Nextel com Neymar.

“Tínhamos uma proposta maior de outra operadora na época e nós optamos pelo valor menor com a Nextel, pois a ideia da campanha era mostrar o Neymar real, um caminho de reconstrução da imagem que na época passava por alguns momentos ruins. O comercial da Nextel deu uma reposicionada na imagem e mostrou quem era o Neymar de verdade”, detalhou.

Ilsinho, por sua vez, compartilhou como só percebeu o tamanho de sua imagem quando viu sua foto nas placas publicitárias ao lado de Rogério Ceni.

Para ambos, o erro mais comum é deixar a gestão da imagem nas mãos de pessoas não qualificadas, o que pode comprometer contratos e reputações.

Choque cultural e saúde mental

A ida para o exterior, principalmente para mercados menos populares como Ucrânia, foi retratada com riqueza de detalhes por Ilsinho. Ele contou sobre as dificuldades climáticas, a solidão, os desafios de adaptação e a importância de ter um propósito claro para suportar tudo isso. O apoio familiar e a estrutura ao redor foram decisivos para sua estabilidade emocional.

“Ir pra Ucrânia foi um choque. O frio, a língua, ficar longe da família. Tudo era difícil. Tinha mês que minha conta de telefone passava de 10 mil dólares, e mesmo assim me sentia sozinho. Se você não tiver um propósito claro e uma estrutura por trás, você desmorona. Só consegui aguentar porque sabia onde queria chegar e tinha o apoio certo ao meu redor” contou Ilsinho.

Duda complementou com um ponto essencial: o entorno do atleta precisa ser pensado estrategicamente. Desde a escolha da moradia até a contratação de equipe pessoal, tudo deve contribuir para que o jogador continue entregando performance mesmo diante de mudanças culturais e logísticas profundas.

Redes sociais: o poder da comunicação autêntica

A presença digital tornou-se parte da rotina profissional dos atletas, que agora precisam desenvolver critérios claros sobre o que comunicam. Segundo os entrevistados, a forma como utilizam as redes sociais influencia diretamente a percepção pública: quando expõem apenas momentos de lazer, são associados ao universo das celebridades; quando adotam posicionamentos consistentes, são reconhecidos como profissionais.

A orientação é tratar a comunicação como componente da carreira, estabelecer limites entre vida pessoal e imagem pública e recorrer a profissionais especializados quando necessário.

“Rede social é comunicação. Quando e uma crítica que eu faço a grande maioria dos atletas é quando você olha a rede social do cara, tem foto na praia, tem foto não sei o quê, tem foto na balada, ele é atleta, cara. Se ele quiser ser visto como atleta, ele tem que se comunicar com o atleta. Todo mundo, qualquer profissão, você tem o tempo livre, você tem a sua família, você tem que aproveitar, tá tudo certo. Mas quando você se comunica como celebridade, vão te tratar como celebridade pro bom e pro mal. E como você se comunica pro atleta, vão te tratar como atleta”, salientou Duda.

O papel do ex-atleta na nova gestão esportiva

Ilsinho também abordou o dilema do pós-carreira. Após rejeitar caminhos como treinador, ele estudou, fez mestrado e buscou capacitação para atuar como gestor esportivo. Para ele, os clubes precisam de ex-atletas qualificados, que entendam o ambiente de dentro e combinem vivência com preparo técnico.

“O ex-atleta tem que se preparar, tem que estudar. Não dá pra só colocar ex-jogador lá dentro e falar ‘ele jogou bola, sabe como funciona’. Porque aí vira uma bagunça. Eu não quis ser treinador, mas quis estudar. Fui fazer mestrado, fui atrás, porque quero estar no esporte, mas de outra forma. Os clubes precisam de ex-jogadores que conhecem o ambiente, mas que também estudaram, sabem se comunicar, sabem se posicionar”, cravou Ilsinho

Skate, olimpíadas e o valor da imagem

O universo do skate também foi abordado, modalidade na qual Duda atuou diretamente no processo de profissionalização. Ele destacou que a entrada do esporte no programa olímpico ampliou o mercado, rejuveneceu o público e atraiu grandes marcas.

Apesar dos avanços, o setor ainda enfrenta desafios estruturais, que vão desde a consolidação da carreira dos atletas até a atuação de empresas oportunistas que comercializam produtos de baixa qualidade.

O exemplo de Rayssa Leal foi citado como um caso de destaque, tanto pelo talento quanto pela maturidade na gestão de imagem. Duda mencionou o equilíbrio entre desempenho esportivo e construção de marca, ressaltando como ela se tornou referência internacional aos 17 anos.

“A entrada do skate nas Olimpíadas trouxe uma audiência completamente diferente. A gente conseguiu rejuvenescê-la. Antes, quem assistia skate era a galera que andava de skate. Hoje, a gente tem menina de 9, 10 anos que não anda, mas que consome o conteúdo, segue os atletas, segue a Rayssa. Isso mudou o perfil. O que precisa agora é cada vez mais profissionalizar. A gente precisa organizar esse ecossistema pra que a galera que está no skate ganhe com isso”, finalizou Eduardo Musa.

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