Coluna

Dois jogos da Copa do Brasil e duas lições da MLS para o futebol brasileiro

Como mecanismos de governança influenciam o comportamento em campo

15 de dezembro de 2025

5 minutos de Leitura

Luiz Muzzi
Luiz Muzzi
Executivo sênior, com mais de 25 anos de experiência em gestão esportiva, direção de futebol, modelos de alto rendimento e estratégia global.

Assistindo aos dois jogos de ida da Copa do Brasil nesta semana, fiquei com uma sensação conhecida e incômoda. A cada disputa, havia um jogador se jogando para tentar cavar uma falta, outro exagerando o contato, e sempre um grupo correndo para cima do árbitro para reclamar. Em vários momentos, parecia menos futebol e mais um concurso de teatralidade. Jogadores, reservas e membros da comissão técnica pulavam para reclamar de tudo. Jogo parado a todo momento. É cansativo e desnecessário.

Esse contraste me fez lembrar de duas práticas que a MLS implementa há muitos anos e que, se adotadas no Brasil, poderiam melhorar muito o ambiente do jogo. São mecanismos simples, modernos e eficazes, e funcionam porque vão além do que acontece dentro dos 90 minutos.

1. Comitê Disciplinar: punição pós-jogo, menos teatro e mais jogo.

Na MLS, o Disciplinary Committee analisa lances de forma independente após cada rodada. O órgão tem acesso a todas as imagens oficiais da transmissão e às câmeras utilizadas pela liga, o que permite revisar jogadas com detalhes, mesmo quando o árbitro não viu ou não aplicou a punição adequada durante a partida.

Um dos focos do comitê é combater dois comportamentos muito comuns no Brasil, e aqui vale explicar a diferença com clareza.

Simulation ocorre quando o jogador inventa um contato ou queda que não aconteceu. É a simulação pura, quando não há falta e o atleta tenta criar a ilusão de que foi atingido. Já embellishment acontece quando existe um contato real, mas o jogador exagera deliberadamente sua intensidade para obter vantagem. Ou seja, no simulation o jogador cria algo que não houve, enquanto no embellishment o contato existe, mas é transformado em algo muito maior do que realmente foi.

Quando o comitê identifica intenção clara de enganar a arbitragem, seja inventando, seja exagerando, ele pode aplicar multa financeira, advertência formal ou suspensão em casos reincidentes.

O efeito é imediato. Os jogadores sabem que não adianta enganar no momento, pois o lance será revisado depois. Isso reduz o teatro, melhora o ritmo da partida e diminui a pressão sobre a arbitragem. No Brasil, onde simulação e exagero viraram quase parte da cultura competitiva, um mecanismo assim traria benefícios claros.

2. Mass Confrontation: quando a reclamação coletiva vira infração

Outro mecanismo extremamente efetivo da MLS é o conceito de mass confrontation. Ele foi criado para coibir uma cena que se repete a todo momento no futebol brasileiro: qualquer decisão do árbitro e vários jogadores avançam ao mesmo tempo para cercá-lo, pressionando, gritando e gesticulando. A arbitragem vira alvo de cerco e o jogo perde o controle, além de criar um clima hostil nas arquibancadas que muitas vezes leva a incidentes mais graves.

Na MLS, o enquadramento funciona assim:

  • A análise começa quando três ou mais jogadores cercam o árbitro de forma agressiva ou intimidatória.
  • Jogadores que chegam depois e reforçam a pressão também são identificados.
  • Reservas que deixam o banco entram automaticamente no relatório.

E há um ponto central que é determinante para o sucesso do mecanismo: O técnico recebe multa pesada independentemente de participar ou não da mass confrontation!

A responsabilidade é institucional. A liga entende que o comportamento coletivo do time passa necessariamente pela liderança do treinador. Se o elenco perde o controle, o técnico responde. Isso altera por completo a dinâmica das reações em campo.

Os efeitos práticos são claros:

  1. Treinadores passam a coibir esse comportamento internamente, porque sabem que serão punidos mesmo se ficarem parados na área técnica.
  2. Clubes desenvolvem cultura de disciplina, entendendo que a responsabilidade é compartilhada entre jogadores, comando técnico e instituição.

As punições incluem multas individuais aos jogadores, multa automática ao técnico, multa ao clube, além de advertências e suspensões para reincidentes.

O resultado é simples e consistente, com menos tumulto, mais respeito ao árbitro, ritmo de jogo mais fluido e ambiente mais profissional.

Por que isso seria tão útil no Brasil?

O futebol brasileiro é apaixonante, mas sofre com comportamentos que prejudicam o espetáculo. Simulação, exagero, tumulto e pressão coletiva sobre a arbitragem não fazem parte do que torna o nosso futebol especial, são distorções que afastam o jogo da sua essência.

A adoção de mecanismos como o Comitê Disciplinar e o Mass Confrontation (entre outros, que posso detalhar em outra ocasião) pode reduzir o comportamento antidesportivo, melhorar o fluxo e a qualidade do jogo, proteger o árbitro, profissionalizar o ambiente e aproximar o futebol brasileiro de padrões modernos internacionais.

Não são medidas caras ou complexas, apenas ferramentas de gestão disciplinar que valorizam o jogo em si.

Senão vamos seguir nesse ambiente incontrolável….

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