Coluna

Finais em jogo único não endereçam o maior problema do futebol sul-americano

CONMEBOL toma suas decisões pelos motivos errados, e a perda de identidade do futebol no continente continua não endereçada

Foto: Luis Acosta / AFP

02 de dezembro de 2025

8 minutos de Leitura

Marcelo Loureiro
Marcelo Loureiro
Doutorando e professor de Marketing Esportivo na Florida State University

Ao longo dos últimos dois finais de semana, pelo sétimo ano consecutivo, a Libertadores e a Sul-Americana tiveram suas finais decididas em jogo único disputado em campo neutro. No dia 22 de novembro, em Assunção, o argentino Lanús derrotou o Atlético/MG nos pênaltis para conquistar sua segunda Sul-Americana na história; uma semana mais tarde, no dia 29, em Lima, o Flamengo conquistou sua quarta Libertadores ao derrotar o Palmeiras no tempo normal.

Ainda que as duas partidas tenham contado com bom público, a discussão iniciada em 2018 ainda não parece ter atingido um consenso, e diversos torcedores parecem esperar a volta das finais ao formato tradicional.

A ideia de uma final única em campo neutro me agrada, mesmo com os problemas logísticos enfrentados em nosso continente. No entanto, considero que a execução da ideia tem sido problemática ano após ano, o que parece ser explicado por um racional equivocado por parte da CONMEBOL. Em entrevista à revista Placar na última semana, Alejandro Domínguez, presidente da entidade máxima do futebol sul-americano, justificou a adoção da final única a partir de 2019: “O que nós estudamos é que, nos últimos 10 anos em que se jogou com final ida e volta, em 7 oportunidades o campeão foi local no segundo jogo.”

A justificativa é péssima, e eu gosto de acreditar que o racional para a mudança de formato envolveu um estudo mais elaborado do que a simples análise das dez finais anteriores. Isso porque a amostra é minúscula para uma análise como essa, sendo praticamente impossível chegar a qualquer conclusão com base em dez confrontos, já que há uma variação natural ao tratar de amostras pequenas. Se jogarmos uma moeda para o alto dez vezes, por exemplo, a probabilidade de tirarmos cinco “caras” e cinco “coroas” é de menos de 25%, o que de forma alguma indica que a chance de vermos cada uma das faces não seja 50%.

Diversos pesquisadores já estudaram essa questão, usando normalmente a Champions League como objeto de estudo, e os resultados são bem menos claros do que Domínguez fez parecer em sua declaração. Mesmo as pesquisas que mostraram as maiores distorções em favor do mandante da partida de volta, no entanto, não encontraram percentuais muito acima de 50% de sucesso para o lado favorecido. Ainda assim, é importante lembrar que o mando de campo na Libertadores, ao contrário da Champions League, nunca foi aleatório; pelo contrário, era uma vantagem conquistada a partir do bom desempenho na fase de grupos. Dessa forma, ainda que se considere uma ligeira vantagem do mandante da segunda partida (o que, como disse, sequer é um consenso), essa diferença jamais poderia ser considerada injusta.

As próprias ligas americanas trazem um bom exemplo de que uma vantagem de mando nas fases finais da temporada não representa, de forma alguma, uma injustiça. Na MLB, por exemplo, a primeira fase dos playoffs é disputada em formato melhor de três, com todas as partidas ocorrendo no estádio da equipe melhor ranqueada. Nos playoffs da NBA, desde a primeira rodada até as finais, as equipes de melhor campanha na primeira fase também possuem a vantagem de jogar uma partida a mais em casa, enquanto nos playoffs da NFL, com exceção do Super Bowl, as disputas ocorrem em partida única, com mando da equipe de melhor ranking.

Ainda assim, por mais que a principal justificativa apresentada pela CONMEBOL não pare em pé, continuo não achando finais em jogo único e campo neutro uma péssima ideia. A questão, para mim, é que essa decisão deve estar alinhada com o que se planeja em termos de posicionamento de marca; vendo de fora, a entidade máxima do futebol sul-americano sequer parece saber o que quer quanto à marca de sua principal competição. Pare para pensar: qual é a marca da Libertadores hoje? Ou, ainda mais importante, o que torna a Libertadores diferente de todas as outras competições de futebol mundo afora?

No final das contas, a CONMEBOL parece insistir em uma estratégia equivocada de tornar a Libertadores uma cópia barata da Champions League, da mesma forma com que a CBF insiste em transformar o Brasileirão em uma cópia barata da Premier League. As duas entidades, na minha visão, insistem em um equívoco muito claro de rechaçar suas principais forças e abraçar suas principais fraquezas. Da forma como vejo a gestão esportiva, é tudo uma questão de vantagens competitivas: o futebol europeu e o sul-americano são diferentes, cada um com suas forças e fraquezas, e o grande problema do futebol brasileiro me parece justamente a insistência em jogar o jogo dos europeus.

Cresci frequentando estádios, e minhas memórias favoritas são todas na condição de torcedor visitante. Poucas experiências no futebol são capazes de trazer um senso de união maior do que a ideia de estar cercado por milhares de pessoas que, assim como você, abandonaram tudo por alguns dias para viajar e viver uma paixão em comum longe de casa. Entre as melhores histórias do futebol brasileiro, na minha opinião, está a Invasão Corintiana de 1976; a final em jogo único, nesse sentido, me parece uma ótima oportunidade para que se criem mais dessas histórias, com as principais torcidas do continente projetando sua força em estádios que não os seus.

Por óbvio, a chegada de times como o Red Bull Bragantino e o Independiente del Valle a finais continentais impõe desafios quanto à lotação de estádios neutros. Ainda assim, esse me parece um problema secundário, uma vez que o que se observa é uma constante chegada dos principais clubes da América do Sul às finais da Libertadores e da Sul-Americana. As imagens de estádios vazios nas finais já não parecem mais assombrar a CONMEBOL, ainda que me pareça claro que a entidade poderia (e deveria) fazer um trabalho melhor escolhendo suas sedes. A escolha de Barranquilla para a final da Sul-Americana no próximo ano, por exemplo, tem tudo para se tornar um pesadelo logístico, assim como foi a final da Libertadores em Guayaquil há três anos.

Porém, como disse, não tem sido comum a apresentação de arquibancadas vazias nas finais das duas competições, principalmente da Libertadores, indicando que as questões logísticas não têm sido, de fato, um problema. O argumento de que as torcidas acompanham o time ao longo de toda a campanha para que, chegando à final, o time se torne inacessível não se sustenta, uma vez que as torcidas claramente têm acompanhado. De fato, essa experiência acaba se tornando um privilégio de uma classe com maior poder financeiro, mas me parece muito claro que o futebol, como um todo, já tomou esse rumo há muito tempo. Ninguém acha que Palmeiras e Flamengo, no seu dia a dia, estão de fato jogando para todo o seu povo, e não para uma pequena parcela privilegiada de seus torcedores.

De qualquer forma, como disse, o grande problema do rumo tomado pelas principais competições do continente é justamente ignorar suas forças. Me parece absolutamente claro que o futebol europeu detém os contratos de praticamente toda a elite de jogadores. No último Ballon d’Or, por exemplo, todos os 30 jogadores indicados atuavam na Europa. O futebol sul-americano, por outro lado, possui historicamente algumas das melhores torcidas do mundo, uma força que vem sendo, cada vez mais, tolhida por uma burocracia burra e preguiçosa por parte das entidades máximas do continente.

O que deveria tornar a final da Libertadores interessante aos olhos do público local e de uma audiência internacional não é a qualidade do espetáculo dentro de campo, mas a força dos clubes sul-americanos nas arquibancadas. Não se veem, no entanto, bandeiras de mastro, bandeirões ou sinalizadores nas arquibancadas. Pelo contrário, quando torcidas como as de Racing e River Plate ousam driblar as ridículas regulamentações, são enfrentadas com multas e perdas de mando de campo; não sem que antes as imagens sejam recebidas com fascínio por fãs de futebol no mundo inteiro, é claro.

Vendo o pré-jogo, não pude deixar de notar a tentativa do DJ de dar palco a cada uma das torcidas. É uma artificialização do processo de torcer que chega a dar pena, considerando a rica história do futebol sul-americano. Muito mais inteligente seria sumir com o DJ e deixar as equipes entrarem separadas, dando a cada torcida o seu momento de receber seu time – como sempre foi feito, gerando algumas das imagens mais incríveis do continente, como a histórica recepção da torcida do Peñarol na final de 2011. Ao insistir em debater o campo neutro nas finais sul-americanas, perdemos de vista a discussão mais importante, que é o contínuo processo de artificialização de um cenário que foi sempre muito autêntico. Muito mais do que brigar para que a partida do último sábado ocorresse no Rio ou em São Paulo, torcedores de Flamengo e Palmeiras deveriam lutar para que voltassem a ter liberdade para torcer, seja em território brasileiro ou peruano.

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