Coluna

Fora de campo, somos sócios: por que brigas públicas enfraquecem o futebol brasileiro?

Rivalidade deve existir no jogo; fora dele, o futebol precisa de governança, coordenação e visão de indústria.

18 de dezembro de 2025

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Alex Bourgeois
Alex Bourgeois
Sócio-investidor e presidente da Portuguesa SAF. Tem experiência em clubes como São Paulo, Santos e Figueirense, além de já ter atuado no futebol europeu.

O recente embate público entre dirigentes do futebol brasileiro em torno do uso de gramados sintéticos traz à tona um ponto central que precisa ser enfrentado com mais maturidade institucional. A questão não é escolher lados, mas compreender que, quando divergências operacionais ganham contornos de disputa pública, o prejuízo é coletivo.

Do ponto de vista da indústria do esporte, esse tipo de confronto pouco contribui para o fortalecimento do produto futebol brasileiro. Não melhora a qualidade do espetáculo, não amplia audiência, não atrai investimento e não fortalece marcas. Ao contrário: gera ruído, fragmenta o discurso e enfraquece a percepção de governança.

No futebol moderno, clubes são adversários apenas dentro de campo. Fora dele, são sócios involuntários de um mesmo ecossistema. Compartilham patrocinadores, plataformas de mídia, investidores, fornecedores, atletas e, sobretudo, reputação. Quando lideranças escolhem o embate público, o mercado não enxerga posicionamento, enxerga instabilidade.

Para o marketing, esse ponto é decisivo. Marcas buscam ambientes organizados, previsíveis e com visão de longo prazo. Investem em propriedades esportivas que ofereçam coordenação institucional, regras claras e capacidade de diálogo. Um ecossistema marcado por conflitos públicos recorrentes reduz o valor percebido e aumenta o risco para quem investe.

Isso não significa suprimir divergências. Significa qualificar o debate. Temas técnicos exigem fóruns técnicos. Decisões estruturais precisam de dados, critérios objetivos e escuta ampla de atletas, especialistas, clubes de diferentes realidades. Além disso, conflitos estratégicos precisam de mecanismos institucionais de mediação, evitando que diferenças legítimas se transformem em disputas de narrativa.

O futebol brasileiro possui ativos únicos: talento, paixão, alcance global e relevância cultural. O desafio está menos na rivalidade esportiva e mais na capacidade de agir de forma coordenada fora das quatro linhas. União institucional não enfraquece a competição, ela a fortalece, elevando o produto e tornando o mercado mais atrativo.

Se o futebol brasileiro quiser ser tratado como indústria global, precisa começar a agir como tal. Isso exige menos disputas públicas e mais construção institucional. A pergunta que fica não é quem venceu o debate, mas se o futebol brasileiro avançou. Rivalidade é espetáculo. Governança é valor. E o mercado sabe diferenciar muito bem os dois.

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