Coluna

O jogo cresce, mas o salário não acompanha: a conta injusta do basquete feminino

Mesmo com audiência recorde e impacto econômico crescente, atletas seguem recebendo muito menos do que geram.

Foto: Felipe Joseph

17 de dezembro de 2025

6 minutos de Leitura

Felipe Joseph
Felipe Joseph
Felipe Joseph é Coordenador de Relações Esportivas da Penalty e possui mais de 19 anos de experiência em marketing, publicidade e promoção.

O basquete feminino ainda recebe menos do que merece e isso não é novidade para ninguém que acompanha o esporte.

Há décadas, mulheres que brilham nas quadras, com técnica, inteligência de jogo e consistência competitiva, ampliam o alcance do basquete para muito além das arenas. Elas influenciam cultura, inspiram novas gerações, movimentam mercados e constroem legados. Jogam, encantam e transformam. E, para nossa sorte, muitas dessas lendas vestiram a camisa verde e amarela, trazendo medalhas mundiais e olímpicas para o Brasil.

Ainda assim, a disparidade salarial entre gêneros segue escancarada. No futebol, o cenário é semelhante. No vôlei, há casos de atletas mulheres ganhando mais que seus pares masculinos. Mas no basquete, a equação parece congelada no tempo.

Um exemplo recente ajuda a dimensionar o problema. Caitlin Clark, estrela do Indiana Fever e principal nome da WNBA em 2025, encerrou o ano com US$ 16,1 milhões em receitas totais. Desse valor, apenas US$ 114 mil vieram de salário na liga. Menos de 1%. O restante foi conquistado via patrocínios, licenciamento e direitos de imagem.

E aqui está o paradoxo. Clark, que impulsiona audiência, bilheteria e engajamento digital como nenhuma outra atleta, ainda recebe menos que o teto salarial da própria liga. Economistas afirmam que ela mudou a dinâmica econômica da WNBA, desde ingressos a direitos de mídia. Mesmo assim, sua remuneração direta não acompanha o impacto real que ela gera.

E esse debate não é apenas financeiro. É simbólico. Durante a negociação do acordo coletivo, as jogadoras reivindicaram participação maior na receita do produto que elas mesmas constroem. E com razão.

No basquete feminino, é comum ver atletas de elite jogando temporadas consecutivas em países diferentes para complementar renda. Trabalham o dobro para ganhar o que poderia ser justo em uma única competição. No Brasil, o cenário é ainda mais duro: contratos curtos, salários modestos e pouca segurança financeira. Há avanços, sim, mas ainda muito distantes do ideal. Valorizar financeiramente o basquete feminino não é caridade, é estratégia de mercado.

A WNBA, por exemplo, poderia ampliar o percentual destinado aos salários. Seria uma decisão administrativa que reconhece que as atletas são o centro do negócio. Outro caminho seria fortalecer a relação entre times e suas comunidades locais. Jogadoras têm enorme potencial para gerar conteúdo, ativar torcedores e aproximar marcas. Agências especializadas em acordos publicitários e ativações para atletas poderiam acelerar esse processo. E a própria liga poderia estruturar um time comercial dedicado a captar campanhas que usem a imagem das jogadoras, especialmente nos mercados onde elas atuam.

Há ainda outro debate que volta e meia ressurge e que merece ser tratado com seriedade: a altura da tabela no basquete feminino. Já não está na hora de revisitar esse padrão?

No Brasil, segundo a Superinteressante (17/12/24), a altura média dos homens é de 1,75m e das mulheres, 1,62m. Uma redução do aro para algo entre 2,90m e 2,95m poderia aproximar o jogo das características físicas médias femininas, assim como já acontece em outros esportes.

No vôlei, por exemplo, a rede masculina fica a 2,43m; a feminina, a 2,24m.
No tênis, mulheres jogam menos sets. No próprio basquete feminino, a bola é menor.

Até Shaquille O’Neal reacendeu o debate recentemente, defendendo que um aro mais baixo poderia gerar mais enterradas e aumentar o engajamento do público.

Particularmente, adoro assistir ao basquete feminino. É um jogo técnico, inteligente, com ataques bem construídos e defesas intensas. Temos jogadoras extraordinárias e uma seleção brasileira muito promissora. Quando menciono a possibilidade de ajustar a altura da tabela, não é por qualquer limitação das atletas, que já entregam um nível altíssimo de performance, mas por uma reflexão sobre como adaptações estruturais podem potencializar ainda mais o espetáculo. A discussão não tem relação com capacidade técnica, e sim com diferenças físicas médias entre os sexos, que podem influenciar o tipo de jogada possível dentro das regras atuais.

Historicamente, a padronização da altura da tabela se justificava por questões práticas: ajustar o aro a cada troca de gênero em quadra era inviável, e muitos ginásios utilizavam estruturas fixas, sem possibilidade de adaptação. Mas hoje, com mais tecnologia, melhor infraestrutura e um nível de profissionalização muito maior, o esporte tem condições de testar novas ideias, inclusive aquelas que podem potencializar ainda mais o jogo feminino.

Qualquer mudança, claro, exigiria adaptações em equipamentos, ginásios e competições. Não se trata de uma simples alteração de regra, mas de uma transformação estrutural. E o cenário ideal seria que essa discussão fosse liderada pela FIBA, garantindo alinhamento global e evitando discrepâncias em competições internacionais.

Mesmo reconhecendo que isso não corrige décadas de desigualdade e que haveria críticas, comparações e resistência, é um debate que merece ser iniciado. Ajustar a altura do aro não diminuiria as atletas; ao contrário, poderia ampliar a equidade de condições e enriquecer o espetáculo, valorizando ainda mais o que elas já entregam em quadra.

Com um aro mais baixo, é provável que veríamos maior produção ofensiva, mais enterradas, mais jogadas plásticas e, consequentemente, mais espaço na mídia, mais replays e mais destaque individual. O produto mudaria e com ele surgiriam novas oportunidades de contratos, salários e visibilidade.

Mesmo enfrentando desafios estruturais e discrepâncias salariais, o basquete feminino já conquistou o mais difícil: talento, relevância e crescimento consistente de audiência. A evolução não precisa e não deve estagnar. Justiça salarial no esporte não é custo: é investimento em crescimento sustentável.

Dados oficiais de mercado mostram a realidade salarial da WNBA em 2025:

  • Salário médio dos jogadores gira em torno de US$ 102 mil por ano. SI
  • Os mais bem pagos, como Kelsey Mitchell e Arike Ogunbowale, recebem cerca de US$ 249 mil na temporada. NBC 5 Dallas-Fort Worth
  • A estrutura salarial do acordo coletivo define que os salários variam de US$ 66 mil (mínimo) a US$ ~249 mil (máximo tradicional) para atletas com mais tempo de liga. Yardbarker
Compartilhe
ver modal

Assine a newsletter do MKT