Coluna

O novo jogo da atenção no esporte

Como o novo consumo esportivo está redesenhando criadores, Propriedade Intelectual e experiências

Foto: Mike Hewitt/Getty Images

23 de dezembro de 2025

7 minutos de Leitura

Renata Galiotti
Renata Galiotti
Publicitária com mais de 10 anos em comunicação e marketing, com passagens por Meta, LiveMode (CazéTv), Warner (TNT Sports Brasil) e ESPN Brasil. Construiu sua trajetória na intersecção entre esporte, entretenimento, conteúdo, creators e plataformas, atuando em posições de liderança e no desenvolvimento de estratégias que conectam marcas, propriedades esportivas e fãs.

Um dos estudos internacionais mais completos sobre comportamento e engajamento de fãs, o 2025/26 WSC Sports Fan Engagement Study, ouviu mais de 1.050 fãs nos Estados Unidos para mapear como Gen X, Millennials e Gen Z consomem esporte em mercados digitais maduros. O relatório aponta tendências claras: fragmentação da atenção, crescimento do consumo via mobile, influência crescente de criadores e uma migração estrutural para experiências personalizadas.

Mas aplicar essa leitura ao Brasil exige um ajuste de fuso horário.

Enquanto o estudo projeta que o mobile será a principal tela do fã americano até 2030, o torcedor brasileiro já vive essa realidade hoje. O Brasil não é apenas digital first. É social first e mobile first em um nível que mercados como o norte-americano ainda estão alcançando. Aqui, o smartphone não é complemento da experiência esportiva: ele é o centro dela.

Essa diferença cultural é fundamental. O esporte brasileiro se desenvolveu em um ambiente de salto tecnológico, no qual grande parte da população pulou a etapa do desktop e construiu sua relação com conteúdo diretamente no celular, mediada por redes sociais, mensageria e criadores. Traduzir dados globais para essa realidade local é o primeiro passo para entender como conteúdo, talento e marca precisam se reorganizar no Brasil.

No Brasil, o jogo já é mobile, social, e a linguagem virou estratégia

O crescimento do consumo esportivo no YouTube e nas plataformas sociais evidencia uma virada que, no Brasil, já está em curso. A TV deixou de ser a tela principal para se tornar pano de fundo. A atenção real está na palma da mão, alternando entre a transmissão, o feed e as conversas paralelas que acontecem em tempo real.

Grande parte dessa experiência acontece no dark social, grupos privados, mensagens e compartilhamentos invisíveis às métricas tradicionais. Isso muda a lógica da distribuição: se o conteúdo não nasce preparado para ser rapidamente compartilhado, comentado e apropriado pelo público, ele simplesmente não circula. Estar presente já não é suficiente.

Segundo o estudo da WSC, mais de 60% dos Millennials e da Gen Z nos Estados Unidos já consideram o streaming sua principal forma de consumo esportivo. O dado é relevante não pelo meio em si, mas pelo comportamento que ele revela: o fã espera flexibilidade, personalização e controle sobre como, quando e com quem consome o esporte.

No Brasil, esse cenário é ainda mais intenso. A distribuição se tornou commodity. O diferencial passou a ser linguagem. Em um ambiente onde a produção de conteúdo cresce de forma exponencial e o tempo disponível para consumir mídia permanece estável, o esporte deixou de competir apenas com outras competições e passou a disputar atenção com todo o ecossistema cultural: entretenimento, criadores, música, séries, games e redes sociais.

Nesse contexto, o jogo ao vivo deixa de ser o produto completo e passa a funcionar como âncora de uma narrativa mais ampla, fragmentada e contínua, cujo valor está no que acontece antes, durante e depois do apito final.

Criadores não amplificam o esporte. Eles o traduzem.

Nesse novo ecossistema, os criadores deixaram de ocupar um papel acessório. O estudo da WSC mostra que mais da metade dos fãs jovens afirmam que os criadores influenciam diretamente a forma como consomem esporte, seja na escolha do que assistir, seja na maneira como se relacionam com o conteúdo.

No contexto brasileiro, essa lógica é potencializada por uma cultura historicamente orientada a pessoas, não a instituições. Aqui, o criador não apenas amplia o alcance de uma transmissão, ele traduz o esporte para a linguagem do cotidiano, constrói confiança e sustenta vínculo.

Em um ambiente de feeds personalizados, os criadores ajudam o esporte a existir dentro da lógica da For You Economy. Ao conectar o jogo a gêneros culturais mais amplos, como humor, lifestyle, opinião e bastidores, permitem que o esporte circule fora da bolha tradicional do fã hardcore e se torne parte da conversa diária.

Quando todo mundo parece igual, o diferencial passa a ser quem fala

À medida que o consumo esportivo se digitaliza e os formatos se multiplicam, o mercado entra em uma fase previsível: todos aprendem rápido. Layouts se aproximam, abordagens se repetem e a estética passa a obedecer a uma lógica de eficiência algorítmica. O resultado é uma sensação crescente de uniformidade.

Nesse cenário, o diferencial deixa de estar no formato e passa a residir em quem está à frente da experiência. Talentos, vozes e personalidades tornam-se ativos estratégicos não apenas por atrair audiência, mas por construírem familiaridade, confiança e afeto ao longo do tempo.

Em um ambiente de excesso, ganhar não é ser visto uma vez.

É ser lembrado, e escolhido, repetidamente.

Talentos constroem audiência. Propriedade Intelectual constrói valor.

Audiência isolada se tornou volátil. O que sustenta valor ao longo do tempo não é apenas quem fala, mas o que se constrói a partir dessa voz. É aqui que o esporte começa a operar não apenas como mídia, mas como Propriedade Intelectual cultural.

Talentos, formatos, quadros editoriais e narrativas recorrentes deixam de ser conteúdos pontuais e passam a funcionar como Propriedades Intelectuais vivas, capazes de atravessar plataformas, gerar reconhecimento, criar expectativa e sustentar projetos de longo prazo. Quando isso acontece, o esporte deixa de depender exclusivamente do evento ao vivo e passa a construir relevância contínua.

Mais do que alcance momentâneo, a Propriedade Intelectual gera familiaridade. Mais do que views, gera vínculo. E, para marcas, uma Propriedade Intelectual bem construída significa associação consistente, contexto previsível e valor cumulativo.

Atenção fragmentada, bolso concentrado: o paradoxo geracional

Os dados ajudam a entender um dos principais dilemas do momento. A WSC aponta que os Millennials seguem sendo o principal motor econômico do esporte: quase metade consome esporte diariamente, 85% se consideram fãs regulares ou die-hard, e 68% mantêm duas ou mais assinaturas de streaming esportivo. Ao mesmo tempo, essa geração demonstra menor tolerância a experiências genéricas e pouco cuidadas.

Já a Gen Z apresenta uma relação mais fluida com o conteúdo. 39% afirmam que highlights curtos já rivalizam com o jogo ao vivo, e 76% passaram a seguir um novo atleta, time ou esporte no último ano. O erro estratégico está em tratar essas gerações como concorrentes. A oportunidade está em reconhecer que elas exigem experiências diferentes dentro do mesmo ecossistema.

Marcas não entram no intervalo. Entram na experiência.

Em um mundo de atenção escassa, interromper deixou de ser eficiente. O valor está em agregar contexto, não em disputar espaço.

Quando marcas se associam a Propriedades Intelectuais bem construídas, deixam de comprar atenção pontual e passam a construir valor cultural ao longo do tempo. Projetos de branded content mais eficazes são aqueles em que a marca entende o território, respeita a linguagem do talento e contribui genuinamente para a experiência do fã.

Conteúdo, talento e marca deixam de atuar em silos e passam a funcionar como partes de um mesmo sistema orientado por relevância cultural e consistência narrativa.

O próximo ciclo do esporte já começou

Os próximos anos serão decisivos para o esporte como plataforma cultural. Grandes eventos globais funcionarão como catalisadores, mas o verdadeiro diferencial competitivo estará na capacidade de construir relevância contínua, antes, durante e depois desses momentos.

O esporte do futuro não será definido apenas por direitos de transmissão ou volume de conteúdo, mas pela capacidade de transformar talentos, formatos e narrativas em Propriedades Intelectuais culturais relevantes, capazes de gerar vínculos duradouros com o público.

No jogo atual, ganhar não é aparecer mais.

É ser escolhido de novo.

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