Ex-presidente da Confederação Brasileira de Skate, Eduardo Musa acompanha há décadas a evolução do esporte e seu crescimento dentro e fora das competições internacionais. Para ele, a entrada do skate e do surf no programa olímpico representou uma transformação estrutural no mercado esportivo nacional e global.
Em sua participação no Invite, programa oficial do MKTEsportivo, Musa destacou que a visibilidade conquistada desde Tóquio-2021 colocou o Brasil na liderança global do skate competitivo e ampliou o número de atletas que hoje conseguem viver exclusivamente da modalidade.
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A repercussão imediata dessa mudança foi expressiva. O impacto do skate e do surf ultrapassou os limites das arenas, alcançando públicos mais jovens e diversificados, e gerou um efeito de rejuvenescimento da audiência, algo raro em eventos tradicionais.
“A presença do skate e do surf representou um rejuvenescimento. Se você for pegar, em números, não é o que eu acho ou o que eu gosto, em Tóquio e em Paris, no canal oficial do Comitê Olímpico Internacional, os dois maiores números de transmissão são do skate. Então, a audiência rejuvenesceu bastante”, disse Eduardo.
O profissional ressalta que, ao contrário dos esportes tradicionais, a estrutura financeira dos skatistas não depende de salários fixos de clubes ou ligas. Ele destacou que essa diferença impacta diretamente a rotina e o desenvolvimento do atleta.
No skate e no surf, a lógica é distinta: o faturamento anual dos atletas depende de múltiplas fontes, e a premiação em competições é apenas uma fração do que eles precisam para se sustentar.
“Ao contrário do que a gente estava falando do jogador de futebol, de vôlei e de basquete, para ficar nos esportes mais tradicionais, o skatista precisa dessa relação com o patrocinador para viver, para ter estrutura de aprimoramento, de viagens e etc. Então, é uma relação diferente”, salientou.
Essa dependência financeira e de imagem também gera desafios práticos no dia a dia. Cada compromisso com a marca precisa ser negociado considerando o calendário de treinos, competições e o bem-estar do atleta.
“O skatista, o surfista ou esses esportes ‘novos’, vamos chamar assim, precisam ter uma relação importante com a marca que os patrocina por motivos óbvios: financeiros. E nem sempre o interesse da marca está alinhado com o interesse esportivo. Se a marca quer gravar alguma coisa na sexta-feira de madrugada porque é importante, o skatista vai ter que entender”, cravou Musa.
O salto após a Olimpíada
O cenário brasileiro, segundo Eduardo, mudou radicalmente após a estreia olímpica do skate. A visibilidade e o investimento geraram um efeito multiplicador que elevou o número de atletas profissionais e fortaleceu o mercado interno.
“Antes da Olimpíada, no skate, a gente tinha três, quatro, cinco skatistas vivendo da modalidade. Hoje você tem um número muito maior”, detalhou.
Essa expansão e valorização do skate profissional provoca orgulho em quem participou do processo de consolidação do esporte no Brasil.
“Hoje existe um mercado de skate que a Olimpíada trouxe, que tem mais gente vivendo daquilo. Isso é legal. Isso é uma coisa que me deixa muito feliz por ter participado desse processo em duas Olimpíadas” completou Musa.
Brasil supera EUA e lidera o skate mundial
O crescimento do skate no Brasil não se limita ao número de atletas. Musa explica que o país se tornou referência em estrutura e eventos, assumindo posição de destaque no cenário global.
“Historicamente, o maior mercado de skate sempre foi americano, por conta de marcas específicas. Mas hoje, o maior mercado de eventos e de profissionais de skate é o Brasil”, afirmou executivo.
Segundo ele, o circuito brasileiro se tornou o mais competitivo do mundo, superando não apenas os padrões internacionais, mas também se destacando em relação ao próprio ciclo olímpico, o que evidencia a evolução e a organização do skate no país.
Apesar de críticas à gestão internacional, o ambiente doméstico se fortaleceu e segue crescendo. Na visão dele, a Confederação Internacional não entende o skate, administra a modalidade de forma precária e se beneficiou de forma inesperada ao assumir a responsabilidade pelo esporte.
“O mercado brasileiro, no entanto, se organizou muito bem. Temos o melhor circuito das modalidades olímpicas; e os dois melhores eventos mundiais de modalidades não olímpicas serão no Brasil este ano.” exaltou.
Olimpíada de 2028: disputa acirrada, mas Brasil favorito
Com o crescimento do esporte em nível global, outros países passaram a estruturar programas competitivos de skate, tornando o cenário mais desafiador para o Brasil.
Na visão de Musa, o Japão se destacou em Tóquio mesmo sem tradição competitiva, apoiando-se apenas na cultura do skate, enquanto a China investe de forma intensa na modalidade, chegando ao ponto de contratar oito técnicos brasileiros para trabalhar no desenvolvimento de atletas.
Apesar da competição mais acirrada, o dirigente mantém otimismo quanto ao desempenho brasileiro nos próximos Jogos Olímpicos.
“Vai ter uma disputa muito grande, mas o Brasil ainda é favorito a medalhas em Los Angeles 2028. Fácil.” finalizou.





