Coluna

Um atalho para lugar nenhum

Declarações de Bap, presidente do Flamengo, são sintoma das más decisões tomadas pelo futebol feminino brasileiro no passado

Foto: Mariana Sá/Flamengo

07 de janeiro de 2026

8 minutos de Leitura

Marcelo Loureiro
Marcelo Loureiro
Doutorando e professor de Marketing Esportivo na Florida State University

Em março do ano passado, na ocasião do mês das mulheres, publiquei no MKTEsportivo um texto discutindo as políticas adotadas pela CBF em relação ao futebol feminino no Brasil. Desde então, debati o assunto com uma série de profissionais envolvidos nesse mercado, de atletas a dirigentes, e conduzi um projeto para desenvolver o planejamento de marketing do esporte feminino junto a um dos principais clubes do país, o que tornou o tópico uma das minhas principais áreas de interesse. Não à toa, tenho atualmente dois projetos de pesquisa em andamento sobre o tema, analisando o mercado de futebol feminino brasileiro sob diferentes perspectivas.

A princípio, eu planejava retomar o assunto em março deste ano, apresentando um panorama mais atualizado do Brasileirão Feminino, mas eventos recentes – como a discussão pública entre Luiz Eduardo Baptista e Renata Mendonça, o encerramento das atividades do time feminino do Fortaleza e o desenvolvimento do novo CT da Ferroviária – me levaram a adiantar a discussão. Minhas experiências ao longo desses últimos dez meses me tornaram ainda mais convicto das ideias que apresentei em meu primeiro texto sobre o assunto, e acredito piamente que o sucesso da modalidade no país depende de uma mudança radical de estratégia por parte da CBF.

Para contextualizar o problema, a partir de 2019, clubes da elite do futebol brasileiro passaram a ser obrigados a manter equipes de futebol feminino, tanto no profissional quanto nas categorias de base. A medida, aprovada em 2017 e que replicava uma estratégia adotada pela CONMEBOL meses antes, visava o desenvolvimento da modalidade no país através da entrada das principais marcas do futebol brasileiro nesse mercado. E, de fato, ao analisarmos a tabela da mais recente edição do Brasileirão Feminino, a estratégia parece ter dado certo: enquanto, em sua primeira edição, em 2013, a primeira divisão feminina teve a participação de uma única equipe de elite masculina, doze (dos dezesseis) participantes da última edição também competiam na elite entre os homens.

A elite feminina passou a contar com muitos dos principais clubes do futebol nacional, criando as bases para que uma parcela maior da população se interessasse pelo campeonato. A medida era um atalho: ao invés de construir por conta própria uma fundação sólida para seu desenvolvimento, o futebol feminino emprestou do futebol masculino a fundação sobre a qual busca, atualmente, construir sua reputação. O problema é que, por mais que eu não seja necessariamente contra buscar atalhos, esse atalho encontrado claramente não leva o esporte a lugar algum. Uma visão inocente do assunto leva a acreditar que a participação dos grandes clubes do país confere legitimidade ao esporte feminino; uma perspectiva mais ancorada na realidade, no entanto, entende que essa participação institucionaliza a modalidade como subproduto.

Foto: Staff Images Woman

Pense da seguinte forma: atuando sob o mesmo guarda-chuva, equipes masculinas e femininas devem necessariamente ser avaliadas em conjunto. O presidente do Corinthians masculino é o mesmo do feminino, por exemplo, e é absolutamente irrealista supor que qualquer pessoa nessa posição consideraria os dois projetos numa mesma escala hierárquica. Isso porque, apesar da equipe feminina ter muito mais sucesso dentro de campo, o futebol masculino atrai quase sete vezes mais torcedores para as arquibancadas e oito vezes mais seguidores no Instagram. Considerando equipes com menor sucesso no feminino, a diferença é ainda mais gritante. O Palmeiras, por exemplo, vende quase 120 vezes mais ingressos para os jogos do seu time masculino, enquanto o São Paulo leva mais de 150 vezes mais torcedores às arquibancadas para assistir ao seu principal produto (os ingressos do feminino são normalmente gratuitos).

Essa conclusão já deveria ser óbvia por si só, e a realidade mostra isso com clareza a qualquer um que se recuse a aceitar que, hoje, o futebol feminino brasileiro se encontra submisso ao masculino. Basta ver as recentes declarações de Luiz Eduardo Baptista, presidente do Flamengo, que deixam claro que o futebol feminino é um pária no clube e que as operações só são mantidas porque o clube não tem alternativa. Caso tivesse a opção – como tiveram Athletico, Ceará e Fortaleza ao serem rebaixados recentemente –, o Flamengo certamente seguiria o exemplo dos clubes mencionados e abandonaria o projeto feminino sem grande peso na consciência. Para quem tem qualquer dúvida, basta ver como o próprio Flamengo recém-encerrou suas operações de canoagem e de esporte paralímpico, também subprodutos de um clube que, apesar do nome, é completamente voltado ao futebol masculino.

Enquanto a mídia se escandaliza com o presidente de um dos maiores clubes do país chamando uma jornalista de nariguda e reiterando o seu óbvio desinteresse pelo futebol feminino, o que mais me surpreende é o futebol feminino aceitar ser colocado nessa posição. Os comentários de Bap não são a doença, mas um sintoma de uma decisão equivocada por parte da CBF (e aplaudida por defensores desinformados do futebol feminino) de colocar o esporte feminino em uma clara posição de submissão. Em vez de gastarem energia com a infrutífera ideia de convencer dirigentes como Bap da importância de se investir no futebol feminino, defensores da modalidade deveriam focar seus esforços em torná-la viável sem qualquer participação desses dirigentes.

E, para que fique claro, em momento algum defendo que clubes da elite masculina sejam proibidos de manter equipes femininas. Um clube como o Corinthians, no Brasil, tem muito a oferecer ao esporte, da mesma forma que o Barcelona, na Espanha. A questão mais importante, no entanto, é entender que clubes como o Flamengo, liderados por quem não vê valor na modalidade, mais atrapalham do que ajudam e deveriam ser dispensados de fazer algo que claramente não lhes interessa. Importante: aqui, não faço qualquer juízo de valor sobre as ideias do Bap (ou de qualquer outro dirigente brasileiro). Meu papel aqui não é dizer se o desinteresse pelo futebol feminino está certo ou errado, mas apenas ressaltar a óbvia constatação de que o esporte feminino não pode ser ajudado por quem não quer ajudar.

E qual seria, então, a solução? Como sempre digo por aqui, o futebol brasileiro possui uma limitação geográfica que não se encontra em praticamente nenhum outro país com características semelhantes. O futebol brasileiro, ainda que em um país com cerca de cem cidades com mais de 300 mil habitantes, encontra-se absolutamente concentrado em um punhado de grandes metrópoles. Existe um potencial gigantesco inexplorado ao redor do território, com dezenas de milhões de pessoas sem acesso a competições esportivas de alto nível. A CBF, em vez de forçar dirigentes desinteressados a investir suas moedas no futebol feminino, deveria desenvolver projetos para viabilizar a distribuição da elite feminina por todo o território.

Como mencionei anteriormente, na cabeça de fãs e dirigentes, a versão feminina de um produto que já existe na versão masculina será, naturalmente, considerada um subproduto. E aqui, novamente, não faço qualquer juízo de valor, apenas me permito entender o que os números dizem muito claramente. Basta ver que, apesar de contar com dez clubes de massa em sua última edição, o Brasileirão Feminino teve apenas o Corinthians registrando uma média de público superior a mil torcedores por jogo.

E nesse mar de públicos irrisórios, a resposta talvez se encontre na quarta maior média de público da competição: a Ferroviária, um dos times de menor expressão no masculino competindo na elite feminina, carregou mais gente às arquibancadas do que clubes como Flamengo, Fluminense, Grêmio, Inter, Palmeiras, São Paulo e Sport. Ferroviária essa que, apesar de não ter qualquer obrigação regulamentar, escolhe ano após ano apoiar o futebol feminino, e que nos últimos dias anunciou o investimento de mais de 30 milhões em um CT exclusivamente dedicado às mulheres.

Quando publiquei o meu primeiro texto sobre o assunto, há quase um ano, a Ana Thaís Matos debochou das ideias que defendi na época, como se eu fosse ignorante demais para entender como os grandes clubes poderiam impulsionar o futebol feminino. Passada mais uma edição do Brasileirão Feminino, a realidade responde, e é preciso que jornalistas e influenciadores ligados ao futebol feminino entendam: os grandes clubes, desinteressados, têm muito pouco a agregar.

O futebol brasileiro, como um todo, teria muito mais a ganhar com o feminino buscando áreas e públicos não atingidos pela elite do futebol masculino do que brigando em mercados redundantes e saturados.

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