Notícias

Multiclubes avançam no futebol mundial, mas caso do Crystal Palace acende alerta na Europa

Exclusão do Crystal Palace da Europa League amplia discussão sobre modelo multiclubes

Foto: Getty Images

23 de fevereiro de 2026

4 minutos de Leitura

O modelo de multiclubes tem se tornado cada vez mais comum no futebol mundial. A estratégia consiste quando um mesmo grupo empresarial passa a controlar dois ou mais clubes, geralmente em países diferentes, criando uma rede internacional de ativos esportivos sob uma única gestão.

Grupos já consolidados nesse formato, como o City Football Group (controlador do Manchester City, além de Girona, Bahia e New York City) e a BlueCo, responsável pelo Chelsea e pelo RC Strasbourg, são exemplos claros da expansão desse modelo.

Apesar dos investimentos e da modernização administrativa proporcionados por esses conglomerados, o sistema também tem gerado controvérsias. Um dos casos mais emblemáticos ocorreu com o Crystal Palace.

Na última temporada, o tradicional clube inglês viveu um dos momentos mais marcantes de seus 120 anos de história ao conquistar a FA Cup, derrotando o Manchester City na final e levantando o primeiro grande troféu nacional de sua trajetória. O título garantiu vaga na UEFA Europa League, o que representaria a estreia do Palace em competições continentais.

No entanto, a equipe acabou impedida de disputar o torneio. O motivo foi a ligação societária com o empresário americano John Textor (proprietário da SAF do Botafogo) que igualmente detém participação no Olympique Lyonnais, também classificado para a competição. Pelas regras da UEFA, dois clubes sob o mesmo controle não podem disputar simultaneamente o mesmo torneio continental. Como o Lyon obteve melhor desempenho em sua liga nacional, ficou com a vaga na Europa League, enquanto ao Palace restou a UEFA Europa Conference League.

A decisão gerou forte frustração entre os torcedores ingleses e trouxe à tona um debate cada vez mais frequente no futebol europeu: até que ponto o modelo multiclubes preserva a essência das instituições?

De acordo com o portal The Athletic, o crescimento desse formato tem sido acelerado, mas enfrenta resistência significativa das torcidas. A principal crítica gira em torno da possível perda de identidade. Muitos clubes europeus nasceram de bairros operários, fábricas e associações comunitárias, carregando uma história construída por gerações. Ao integrarem conglomerados globais, parte da torcida teme que essas instituições deixem de ser símbolos locais para se tornarem apenas ativos estratégicos dentro de um portfólio internacional.

Exemplos como o próprio City Football Group e a Red Bull GmbH (que administra o RB Leipzig) ilustram essa dualidade. Se por um lado trouxeram investimentos robustos, infraestrutura moderna e crescimento esportivo, por outro despertaram críticas relacionadas à padronização de marca, mudanças culturais e possível descaracterização histórica.

Outro ponto sensível envolve a hierarquização interna das redes. Há o receio de que determinados clubes se tornem meros “satélites”, funcionando como plataformas de desenvolvimento e negociação de atletas para fortalecer a equipe principal do grupo. Isso gera questionamentos sobre equilíbrio competitivo e autonomia esportiva.

Além disso, persistem dúvidas sobre conflitos de interesse em competições organizadas pela UEFA. Mesmo com regulamentações específicas para mitigar riscos, parte da opinião pública teme que a integridade esportiva possa ser afetada quando clubes do mesmo conglomerado disputam vagas ou torneios continentais.

No fundo, a resistência ao modelo multiclubes ultrapassa questões administrativas ou financeiras ela é, sobretudo, cultural. Para muitos europeus, o futebol representa pertencimento, tradição e identidade local. O sistema pode se mostrar eficiente sob a ótica empresarial, mas ainda enfrenta o desafio de conquistar o elemento mais essencial do esporte: o torcedor.

Compartilhe
ver modal

Assine a newsletter do MKT