A discussão em torno da criação de uma liga independente no futebol brasileiro voltou ao centro do debate nos últimos anos, especialmente após a formação de blocos como Libra e LFU e a profissionalização acelerada do setor com a chegada das SAFs. Em meio a um cenário de receitas crescentes, impulsionadas sobretudo por direitos de transmissão e patrocínios do segmento de apostas, mas ainda marcado por desequilíbrios estruturais, o tema segue em pauta nos bastidores dos clubes.
Durante participação no Invite, programa oficial do MKTEsportivo, André Rocha, CEO do Red Bull Bragantino, afirmou que, apesar das dificuldades e das mudanças frequentes de liderança, houve progresso nas tratativas para a consolidação de uma liga nacional.
“Sinto que há avanços nos bastidores. Já estivemos muito próximos. Muito próximos mesmo. Ficamos praticamente a um documento de distância para ter pelo menos um MOU [Memorando de Entendimento] de liga. Hoje estamos, obviamente, bem mais perto do que há três anos, quando comecei a me envolver no assunto”, disse o executivo.
A tentativa de formalização de um memorando de entendimento (MOU) foi, segundo relatos de dirigentes nos últimos ciclos, um dos momentos mais avançados das negociações. Ainda assim, divergências sobre modelo de governança, divisão de receitas e critérios esportivos impediram a conclusão do acordo. Para o executivo, parte desse processo é impactado por mudanças frequentes na condução dos clubes.
“Não quero colocar peso na discussão sobre modelo associativo ou não dos clubes, mas o fato é que existe uma transição significativa de profissionais e líderes nesse cenário. E toda vez que há alternância, é preciso ajustar discursos, alinhar estratégias, porque nem todo mundo tem a mesma mentalidade do antecessor. Você retoma negociações internas antes de avançar para as externas”, afirmou André.
A alternância política, típica do modelo associativo predominante no país, é vista por analistas como um dos principais entraves para projetos de longo prazo. Mandatos de três anos, muitas vezes sem continuidade administrativa, acabam impactando negociações estruturais que exigem estabilidade e alinhamento estratégico.
Mesmo diante desse cenário, o profissional ressaltou que há disposição para avançar entre os diferentes blocos que hoje representam os clubes nas discussões.
“Posso dizer que vontade, na grande maioria dos casos, não falta. Todos os líderes com quem converso são unânimes nesse ponto. E não falo apenas da Libra, mas também da FFU. Tenho grandes amigos do outro lado, e as conversas são agradáveis, pautadas pelo bom senso e com um norte comum. O ponto é que precisamos construir mais consenso, entender como essas alternâncias, normais no modelo associativo, impactaram o processo e de que forma podemos reenquadrar os interesses de todos em favor do bem comum”, comentou.
Libra x FFU
A formação de blocos distintos para negociação dos direitos comerciais do Campeonato Brasileiro evidenciou diferenças de visão sobre modelo de distribuição de receitas e governança. Ao mesmo tempo, a consolidação de uma liga poderia aumentar o poder de negociação coletiva e criar novas fontes de receita, à semelhança do que ocorre em mercados europeus.
Ao abordar sua própria motivação no debate, o CEO destacou a perspectiva de longo prazo e a influência de uma mentalidade corporativa aplicada ao ambiente esportivo.
“Eu não desisto. Sou um pouco teimoso nesse tema. Vim para o futebol porque quem vem do mundo corporativo ama esse ambiente como torcedor e quer canalizar essa paixão para o bem do próprio futebol, para que ele se fortaleça e se perpetue”, declarou.
O pano de fundo econômico também aparece como elemento central na defesa da liga. Nos últimos anos, o futebol brasileiro registrou crescimento relevante em receitas comerciais, especialmente com a entrada massiva das casas de apostas como patrocinadoras máster. Ainda assim, o endividamento dos clubes permanece elevado e a inflação de custos, sobretudo com folha salarial e direitos de atletas, pressiona a sustentabilidade financeira do sistema.
“A liga, para mim, é inevitável. Considerando a discussão que tivemos sobre receitas e a dinâmica de entradas e saídas de recursos no futebol, estamos provavelmente nos aproximando do fim da última grande onda de crescimento, que foram as apostas esportivas. O futebol brasileiro, dentro de uma economia hoje bastante deficitária e que opera com valores de compra muitas vezes insustentáveis, precisará buscar uma nova fonte de receita. E não vejo, neste momento, alternativa mais madura do que a própria liga”, analisou.
Na avaliação do executivo, a reorganização estrutural é uma necessidade imposta pelo contexto econômico.
“Acredito que teremos a liga pelo amor ou pela dor”, concluiu.





