Coluna

Filho da P…..Boa, Oscar!

Além de ser chamado de Mão Santa pelos fãs, esse apelido de “Filho da P....Boa” é mais restrito para quem jogou com ele, como meu pai. Já imagina o porquê?

29 de abril de 2026

10 minutos de Leitura

Felipe Joseph
Felipe Joseph
Felipe Joseph é Coordenador de Relações Esportivas da Penalty e possui mais de 19 anos de experiência em marketing, publicidade e promoção.

Neste mês de abril, decidi tirar uma licença poética. Em vez de escrever apenas um artigo sobre marketing esportivo ligado ao basquete, resolvi prestar uma homenagem à história dos Schmidt e a tudo o que o Oscar representou para o Brasil, para o basquete brasileiro e, de forma muito especial, para a minha família.

Tive o privilégio de nascer sócio do Esporte Clube Sírio. E como todo amante do basquete sabe, o Sírio é um clube extremamente tradicional na cidade de São Paulo, de origem árabe, que foi protagonista por muitos anos no cenário nacional e internacional da modalidade. Outro privilégio enorme da minha vida foi ter nascido em uma família de esportistas e ter meu pai como ídolo. Dodi, ex-jogador da Seleção Brasileira, sempre defendeu as cores do Sírio e foi campeão mundial ao lado do Oscar em 1979, sendo um dos atletas mais experientes daquele elenco e capitão da equipe.

Aquele título colocou o Sírio no mapa do basquete mundial. E, além do meu pai e do Oscar, é justo dizer que, enquanto o time adulto do Sírio existiu, praticamente todos os jogadores da Seleção Brasileira defenderam as cores do clube ao menos por uma temporada.

Como amante do esporte e, principalmente, do basquete, minha conexão com o Oscar seria natural. Mas ela foi muito além disso. Cresci próximo dele e da sua família. Meu pai é padrinho de casamento do Oscar e da Vitô, algo que sempre me encheu de orgulho. Cresci vendo aquele gigante destruir em quadra e pensando: “meus pais são padrinhos de casamento desse monstro sagrado do basquete”.

Além do que eu via nas transmissões esportivas e na mídia, eu também conhecia as histórias de bastidores, o lado humano, as questões pessoais. O Oscar sempre foi uma referência para mim. Uma coisa é ouvir alguém dizer que ele treinava muito. Outra, completamente diferente, é ouvir seu pai afirmar que ele foi o cara que mais treinou de todos. Essa mensagem chegava em mim com uma força e significado muito maior.

Também quero falar de outras frases que escutei do meu pai, ensinamentos que sei que ele aprendeu ao longo da vida e acabou transmitindo, em parte, ao Oscar. Coisas como: seja sempre o primeiro a chegar aos treinos; se o técnico pedir para buscar a bola, vá correndo; quando ele explicar um exercício, preste atenção e procure ser o primeiro da fila. E, talvez a mais importante: comece a se preocupar quando o técnico parar de te cobrar, porque enquanto ele cobra, é sinal de que ainda acredita em você. São lições que nascem do esporte, mas que, no fundo, valem para a vida.

Entre tantas histórias que voltaram muito vívidas em minha mente nesses últimos dias, começo por uma especialmente marcante. Certa ocasião, um dos meus melhores amigos me ligou desesperado porque o pai havia sofrido um acidente gravíssimo e estava em estado delicado no hospital. Em uma ideia brilhante, ele resolveu acionar sua rede de contatos para pedir vídeos motivacionais que pudessem ajudar na recuperação do pai. Sabendo do meu acesso ao Oscar, ele pediu também um vídeo dele. Assim que fez o pedido, procurei o Oscar e expliquei a situação. Em questão de minutos, ele me enviou um vídeo carinhoso, atencioso e extremamente positivo, daquele jeito inconfundível, com sorriso largo e palavras fortes. Tenho absoluta certeza de que aquele gesto fez diferença na recuperação do pai do meu amigo. E mais: tenho convicção de que ele faria o mesmo por qualquer pessoa que precisasse.

Minha maravilhosa mãe sempre gostou muito de viajar para os Estados Unidos e, sempre que possível, íamos para lá. Orlando era um destino frequente para a família do Oscar e, em algumas ocasiões, acabávamos nos encontrando por lá. Em uma dessas viagens, ele convidou minha família para passar um período em sua casa. Dá para imaginar a diversão. Eu ainda era criança, mas já entendia a dimensão do Oscar. Eu, meu irmão Vini e o filho dele, meu xará, brincávamos de basquete na piscina e, claro, na clássica tabela em frente à casa. E, entre uma brincadeira e outra, ficávamos assistindo a jogos e notícias de basquete na TV.

Em uma dessas viagens, o Oscar precisou vir ao Brasil e disse que voltaria logo. Quando retornou aos Estados Unidos, nos contou em primeira mão que voltaria a jogar no Brasil, pelo Corinthians, e nos mostrou a camisa do Timão. Sendo corinthiano, aquilo foi inesquecível pra mim. Provavelmente fui uma das primeiras pessoas a ver a camisa 14 do Oscar pelo Corinthians e curiosamente, a camisa era da Penalty, onde hoje trabalho na área de patrocínios esportivos. Falo aqui do Corinthians, mas todos nós sabemos que ele fez a diferença por onde passou, seja no Brasil ou na Europa, pela Itália e pela Espanha.

Outro acontecimento marcante foi em uma das finais do NBB, entre Flamengo e Paulistano. A decisão em jogo único aconteceu na antiga HSBC Arena, no Rio de Janeiro. Convidamos o Oscar para assistir à final e entregar o prêmio de cestinha que, inclusive, leva o nome dele, ao Shamell.

Como eu tinha essa proximidade com o Oscar, fiquei responsável por buscá-lo no estacionamento VIP e levá-lo até o camarote, para depois retornar aos meus afazeres. Um trajeto que normalmente não levaria mais do que cinco minutos acabou durando mais de trinta. Todas as pessoas que cruzávamos faziam questão de parar, tirar uma foto ou dizer palavras bonitas a ele.

Eu vivia um dilema: acelerar o passo para não levar bronca pelo atraso ou simplesmente assistir àquelas cenas com uma alegria difícil de descrever. Escolhi ficar. Preferi ver os fãs vivendo um momento especial ao lado do seu ídolo. E, ao olhar para o rosto do Oscar, percebi que ele também estava genuinamente feliz com aquilo. Então, de fato, não acelerei. Me permiti viver aquele momento, porque, no fim das contas, ele também é meu ídolo — e eu estava adorando presenciar tudo aquilo.

Quando a história pessoal vira legado coletivo

Meu pai me ensinou algo que carrego para a vida: “o esporte é o espelho do caráter”. No ambiente esportivo, não há como usar máscara por muito tempo. É sob pressão que as pessoas mostram quem realmente são. Em uma carreira tão longa quanto a do Oscar, ficou evidente que ele era autêntico, apaixonado pelo esporte, patriota, emotivo, líder nato, vibrava a cada cesta. Um gigante com mais de dois metros, forte demais, físico impressionante e um sorriso bonito e verdadeiro.

Não vou listar seus feitos esportivos, isso já foi feito de forma brilhante nas inúmeras homenagens recentes. Mas vale destacar um dado impressionante: na final do Mundial de Clubes de 1979, com cerca de 21 anos, Oscar fez 44 pontos. E detalhe, ainda não existia a linha de três. Um absurdo logo no início da carreira. A conquista do Pan de 1987 é o ápice, claro, mas foi aquele Mundial que o colocou definitivamente no mapa, mesmo sendo o caçula de um time recheado de tantas estrelas como Marcel, Marquinhos (in memoriam), Marcelo Vido, Agra e o Dodi, meu pai, capitão da equipe. Sendo muito bem guiados pelo eterno técnico Cláudio Mortari (in memoriam).

Outro aspecto que sempre admirei no Oscar é que ele nunca se acomodou no apelido de “Mão Santa”. Fazia questão de reforçar que aquilo era fruto de treino, esforço e dedicação. Ele entendia o peso das próprias palavras e usava isso para motivar outras pessoas. Se o maior cestinha da história dizia que tudo vinha do trabalho, como não se sentir impulsionado a se esforçar mais?

Sua confiança, claro, intimidava adversários. Quando ele emendava uma sequência de cestas, era melhor rezar. Ele só chutava as bolas que chegavam na mão dele. As que não chegavam, ele não chutava. E foi justamente daí que nasceu o apelido “Filho da P… Boa”. Meu pai conta que, quando ele arremessava, os companheiros começavam o xingamento, a bola caía, e a frase automaticamente se transformava em “boa, Oscar!”. Era brincadeira, carinho e reconhecimento em uma única frase.

Há muitas histórias divertidas. Em uma delas, o Oscar reclamava de dores no braço, e meu pai sugeriu: que tal passar a bola em vez de arremessar por um tempo? Talvez, de tanto treinar arremesso, ele quase tivesse esquecido como se passa uma bola. Brincadeiras à parte, tudo isso foi moldando na minha mente a imagem de um ser humano absolutamente obstinado pelo sucesso, pela evolução.

Na última vez em que estivemos com a família dele nos Estados Unidos, saímos para jantar. Na volta, ele perguntou se queríamos andar no carro dele. Quando entrei naquela ‘nave’, me senti uma criança (mesmo já sendo um adulto). Não era ostentação, era carinho. Era proporcionar um momento especial e guardo esse dia com enorme afeto.

Sempre admirei o quanto ele valorizava a família. Brincava dizendo que começou a namorar a Cris porque ela pegava seus rebotes, mas era evidente que foi amor à primeira vista. Ele foi parceiro dela por toda a vida, e ela foi fundamental para que ele pudesse se dedicar integralmente ao esporte. Ao entrar para o Hall da Fama, fez questão de dizer que só chegou ao topo por causa da Vitô. Isso é humildade verdadeira.

Como filho de um jogador da Seleção Brasileira, sei o peso das comparações. Por isso, o feito de Oscar jogando ao lado do Felipe é ainda mais extraordinário. Vi esse jogo pelo Flamengo e me emocionei. Felipe encarou o desafio, performou e mostrou força. Hoje, com a perda do pai, assume a linha de frente da família e essa força vem de berço, do DNA e do convívio com um guerreiro.

No campo dos negócios, trabalhei por mais de dez anos no marketing do NBB e pude acompanhar de perto a evolução institucional do basquete brasileiro. Antes disso, quem teve coragem de questionar o modelo vigente e pensar o basquete como produto foi o Oscar, ao lado de Hortência, Magic Paula e outros nomes importantes. Eles abriram caminho, expuseram problemas e ajudaram a construir a base que levou, indiretamente, à criação da Liga Nacional de Basquete em 2008.

Ayrton Vignola – 4.out.05/Folhapress

Após encerrar a carreira, Oscar seguiu impactando vidas por meio de palestras. Foram inúmeras, em mais de 600 empresas. Ele tinha o dom da narrativa e conseguia mostrar como esporte, ética e esforço transformam vidas. Também abriu caminho para que empresas se aproximassem mais do esporte como ferramenta de cultura, inspiração e investimento.

No marketing esportivo, foi também pioneiro. Garoto‑propaganda de grandes marcas, sempre entendeu o valor da própria imagem e a importância de entregar qualidade. Para mim, como publicitário de formação, era um prazer ver campanhas como as da margarina com sua família. Ele estava em todos os lugares, TV, rádio, entrevistas, desafios e sempre correspondia.

Agora, fica uma saudade que dói, mas também uma felicidade imensa por ter tido o privilégio de conviver com ele. Confesso que derramei muitas lágrimas nesses últimos dias. Mas a maioria delas não foram de tristeza. Foram de gratidão, de admiração e de orgulho por ter visto de perto quem ele realmente era.

Um abraço fraterno aos familiares e amigos do Oscar. À Vitô, ao Felipe, à Stephanie e a todos que carregam esse sobrenome com tanta dignidade. Um abraço também aos meus pais, irmãos e familiares que tiveram o privilégio de dividir momentos, risadas e aprendizados com esse gigante.

Os ensinamentos do Oscar não ficaram apenas nas quadras, nos números ou nos títulos. Eles ficaram nas pessoas. Eu levo esses valores comigo todos os dias, e hoje meu maior compromisso é transmiti‑los ao meu filho. Porque, no fim das contas, é isso que define um verdadeiro ídolo: não quantas cestas ele fez, mas quantas vidas ele tocou.

Obrigado, Oscar. O jogo segue. E o seu legado, também!

Compartilhe
ver modal

Assine a newsletter do MKT