Coluna

Quando o custo da dívida mata a capacidade de vencer

Entre ajustes financeiros e crises estruturais, clubes brasileiros expõem um cenário em que gestão e governança definem quem cresce e quem apenas sobrevive

Foto: Junior Souza/CBF

27 de abril de 2026

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Eduardo Musa
Eduardo Musa
Eduardo Musa é especialista em marketing e gestão esportiva. Com mais de 14 anos de experiência no mercado, já trabalhou em três Olimpíadas e uma Copa do Mundo.

Estamos no período em que os clubes começam, ou deveriam começar, a publicar seus balanços financeiros. Essa divulgação costuma ser um “choque de realidade” que evidencia uma divisão de grupos bem distintos e cada vez mais distantes entre si. De um lado, temos clubes consolidando o sucesso dentro e fora de campo, como Flamengo e Palmeiras.

No meio, um grupo organizado que diminui passivos e faz a roda girar de forma orgânica, exemplificado por Bahia e Red Bull Bragantino e Atlético-MG. Na outra ponta, casos preocupantes de gigantes históricos como Santos, Botafogo, Corinthians e São Paulo. No entanto, para quem analisa o esporte como negócio, o problema nem sempre é o montante da dívida em si, mas como ela é formada e o custo de carregá-la.

Aqui no Brasil, a discussão ainda é sobre sobrevivência. Um exemplo técnico dessa asfixia financeira foi detalhado pelo CFO do Atlético-MG, Thiago Maia, no podcast Sport Market Makers. Com uma dívida total próxima de R$ 1,7 bi, o maior vilão é o bilhão devido majoritariamente a bancos. O aporte de R$ 500 milhões anunciado pelos sócios da SAF é uma saída momentânea crucial para amortizar esse passivo e aliviar juros que chegam a 25% ao ano, o que representa uma pressão de cerca de R$ 250 milhões anuais no fluxo de caixa.

O clube também aposta no crescimento das receitas, especialmente da Arena MRV, para equilibrar as contas, mas uma grande questão de gestão que fica para o “Galo” é como a governança rígida manterá o controle sobre os gastos e iniciar uma fase onde o CFO mesmo cita, que o “negócio pare de pé”.

Na contramão de quem busca sanear as contas, temos o caso alarmante do Botafogo. Em pouquíssimo tempo de SAF, o clube acumulou uma dívida de R$ 1,3 bi e já ingressou com pedido de Recuperação Judicial (RJ). O sintoma de que o problema é sistêmico e de curto prazo é o fato de o relacionamento entre os sócios já estar sendo discutido na justiça. Quando a governança não foi discutida nos mínimos detalhes durante a implementação da SAF e a dívida escala nessa velocidade, o projeto esportivo fica refém do ruído jurídico sendo que na última quina feira, por decisão preliminar do Tribunal Arbitral da Fundação Getúlio Vargas (FGV), John Textor deixou o comando da SAF. É nesse ponto que o papel do gestor se torna crítico.

Foto: Thiago Ribeiro/AGIF

No Brasil, poucos conseguem executar o que planejam, mas os que o fazem provam que gestão não é sobre investir mais, é sobre investir melhor. Tem sido comum que clubes com orçamentos modestos estejam fazendo frente aos grandes e mostram que a eficiência financeira é a base da eficiência esportiva.

Para balizar essa discussão, vale olhar para a NBA. Lá, o “debate” da semana passada foi sobre o Portland Trail Blazers adotar cortes agressivos em logística é sobre eficiência marginal — o limite entre economizar e manter a performance. Mesmo em ligas ultraprofissionais, erros ocorrem, em decisões técnicas que afetaram por exemplo: a cultura de “time grande” do New York Knicks e recentemente a desastrosa troca entre Dallas Mavericks e Los Angeles Lakers que envolveu Luka Doncic. Mas a diferença fundamental é que o formato de liga da NBA, com seu rigoroso Financial Fair Play e teto salarial, protege as franquias, como negócio, de si mesmas.

É por isso que sou defensor da criação de uma liga forte no Brasil; não apenas para organizar o calendário, mas para cuidar melhor e valorizar o produto e protejam o patrimônio do nosso futebol. O mercado exige profissionais que entendam do jogo: quando a gestão é guiada pela sobrevivência e não pela estratégia, o clube para de competir e passa apenas a existir.

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