A proximidade da Copa do Mundo FIFA 2026, que será sediada simultaneamente nos Estados Unidos, México e Canadá, já movimenta uma cadeia econômica que transcende as quatro linhas do campo, impulsionada pela expansão do torneio para 48 seleções. O aumento no número de participantes impacta diretamente a cadeia de produtos licenciados, que movimenta bilhões de dólares.
Para o torcedor brasileiro, a participação no evento começa muito antes do apito inicial, como no consumo de itens colecionáveis e na interação com sites onde usuários fazem palpites em resultados. Tal dinâmica de consumo, tanto digital como física, cria um ecossistema de atenção constante, onde marcas buscam se posicionar para capturar o interesse do público.
Empresas de tecnologia e entretenimento, como a Stake Brasil, monitoram essa tendência de engajamento que precede o evento. De acordo com a presidente da G2 Capital Camila Farani e colunista da Forbes, o sucesso comercial nesse período depende da capacidade de uma marca se inserir no contexto cultural antes da saturação do mercado publicitário. Segundo Farani, “as maiores oportunidades não estão onde o público já está, mas onde ele ainda vai chegar”, o que justifica o lançamento antecipado de coleções e campanhas promocionais vinculadas ao torneio.
No Brasil, o álbum da Copa do Mundo permanece como o pilar central da economia do colecionismo e do engajamento afetivo. Mas a edição de 2026 impõe desafios financeiros recordes: com a expansão do torneio para 48 seleções, o volume de figurinhas saltou para o patamar de 980-988 cromos, o maior número desde o início da coleção em 1970. Além disso, as figurinhas estão na superfície de um ecossistema muito mais amplo e profissionalizado. A seguir, será explorado como esse fenômeno cultural se conecta a uma rede complexa de patrocínios, ativações de marcas e estratégias de licenciamento que transformam o entretenimento esportivo em um campo de batalha de alta rentabilidade.
Uma vitrine dos bilhões para produtos e marcas

Para a FIFA, o ciclo comercial de 2023-2026 representa um salto financeiro sem precedentes, com uma receita total projetada em impressionantes US$ 11 bilhões. Dentro desse montante, o braço de marketing e patrocínio deve responder por uma fatia de US$ 2,5 bilhões a US$ 3 bilhões, consolidando o torneio como o evento esportivo mais rentável da história. Essa força econômica é evidente numa prateleira de produtos licenciados que vai muito além dos tradicionais colecionáveis de papel, alcançando setores de tecnologia de ponta e bens de consumo de alto valor agregado.
A Motorola, como patrocinadora oficial, ilustra bem essa tendência ao lançar o Motorola Edge 70 Fusion – Fifa World Cup 26 Collection. Trata-se de uma edição limitada que busca materializar a emoção do futebol por meio de hardware e design exclusivos, transformando o smartphone em um item de coleção tecnológica. No segmento de higiene e cuidados pessoais, a Rexona reforça a conexão emocional com o público ao introduzir latas comemorativas estampadas com a imagem de ídolos como Vini Jr., fundindo a utilidade do produto cotidiano à mística dos atletas. Até o setor automotivo vive uma retomada: a Volkswagen anunciou seu retorno ao patrocínio das Seleções Brasileiras após 12 anos, vinculando sua marca diretamente aos ciclos dos Mundiais masculino (2026) e feminino (2027).
A diversificação estende-se ainda ao mercado de jogos de cartas com a coleção Adrenalyn XL da Panini, que oferece 630 cards focados em jogabilidade e raridade, um produto complementar e distinto das figurinhas autocolantes. Marcas globais como Budweiser, Candide e Guaraná também injetam bilhões no mercado publicitário para garantir relevância cultural antes mesmo do apito inicial. Esse fenômeno de “hiperlicenciamento” demonstra que a Copa do Mundo deixou de ser apenas um torneio assistido para se tornar um evento consumido em múltiplas dimensões, onde o torcedor veste a tecnologia, utiliza a parceria e coleciona o prestígio de marcas que competem por espaço na rotina de bilhões de pessoas.
A estratégia das marcas e as parcerias de licenciamento

A economia do colecionismo é alimentada por parcerias que facilitam o acesso aos produtos por meio do consumo cotidiano.
O McDonald’s Copa do Mundo anunciou uma parceria com a Panini para distribuir mais de 15 milhões de pacotes em 12 países da América Latina e Caribe. A mecânica envolve o “Combo Figurinha”, que inclui itens alimentares e um pacote com quatro figurinhas oficiais, uma figurinha com borda especial exclusiva e um código QR para experiências digitais.
David Grinberg, vice-presidente de Comunicações da Arcos Dorados (operadora da marca na região), afirma que a ação busca “proporcionar experiências que promovam diversão e união”. Além da rede de fast-food, a Coca-Cola também integra a rede de distribuição, inserindo cromos exclusivos atrás dos rótulos de mais de 1 bilhão de garrafas ao redor do mundo.
A lista de 12 jogadores exclusivos inclui nomes como o brasileiro Gabriel Magalhães e o inglês Harry Kane.
O mercado de alto valor da Lego

Outro setor que ganha tração é o de brinquedos. A coleção Lego Copa do Mundo para 2026 foca em ídolos globais como Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, Kylian Mbappé e Vinícius Júnior. O conjunto “Destaques do Futebol” traz minifiguras (os bonecos articulados de pequena escala) e placas colecionáveis.
Para colecionadores com maior poder aquisitivo, a réplica do troféu oficial da Copa do Mundo produzida pela marca é composta por 2.842 peças e mede cerca de 36 centímetros de altura. O item é comercializado por aproximadamente R$ 1.614,89 e inclui um easter egg: uma cena interna removível de um boneco segurando um mini-troféu.
Essa diversificação de produtos demonstra que a Copa do Mundo deixou de ser apenas um evento esportivo para se tornar um momento de “disputa por espaço mental”, conforme define Camila Farani.
A inflação do pacotinho e o impacto na renda do colecionador
Dados econômicos indicam uma pressão inflacionária acentuada sobre os itens de coleção. Para essa edição do campeonato, a expectativa é que cada pacote de figurinhas custe cerca de R$ 7,00, o que representa uma alta de 75% em relação aos R$ 4,00 cobrados no Mundial do Catar, em 2022. Embora o número de cromos por pacote deva subir de cinco para sete unidades, o custo proporcional para o brasileiro médio aumentou.
Um levantamento da consultoria 4intelligence aponta que o custo de completar a coleção cresceu sistematicamente em relação ao salário mínimo. Em 1998, a tarefa consumia cerca de 36,4% do salário vigente; em 2014, atingiu o menor nível histórico com 18,5%. Para 2026, as projeções indicam que o custo mínimo de R$ 1.004,90 (considerando um cenário hipotético sem figurinhas repetidas) consumirá cerca de 62% do salário mínimo atual.
Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, afirma que “o salto principal está ligado ao aumento do número de seleções, mas também aos custos de produção e ajustes de mercado”. Na prática, devido à inevitabilidade das repetições, o investimento real pode chegar a R$ 7.362,90 para quem não utiliza estratégias de troca. A probabilidade de completar o álbum sem obter cromos repetidos é estimada em 1 em 10 elevado a 423, um evento estatisticamente desprezível.
O Brasil no índice global de preços
Apesar do aumento nominal, um estudo do banco Santander revelou que as figurinhas vendidas no Brasil figuram historicamente como as mais baratas do mundo quando convertidas para o dólar americano. No topo da lista de acessibilidade, além do Brasil (onde o pacote custa aproximadamente US$ 1,43 na cotação atual de R$ 7,00), aparecem tradicionalmente outros países da América Latina, como o Peru, que apresenta ofertas de caixas fechadas com custo unitário estimado em US$ 1,30 por pacote, seguido por Equador, Argentina e México, onde os preços costumam orbitar entre US$ 1,40 e US$ 1,60 devido às políticas de preços regionais da Panini para mercados em desenvolvimento.
Por outro lado, o colecionador que vive na Europa ou na América do Norte enfrenta valores significativamente mais altos. A Suíça permanece isolada como o lugar mais caro do mundo para completar o álbum, com preços que podem ultrapassar os US$ 2,50 por envelope. Na sequência dos valores mais elevados, os Estados Unidos aparecem com pacotes comercializados a US$ 2,00, seguidos de perto por países da Zona do Euro (como Alemanha e França), onde o preço padrão é de € 1,50 (cerca de US$ 1,63), o Reino Unido, com o pacote a £ 1,25 (US$ 1,56), e as nações do Leste Europeu, como Hungria e Polônia, que historicamente apresentam desvios de preço superiores à média global.
Essa discrepância revela que, embora o Brasil enfrente uma inflação de 75% no valor nominal do pacote desde a última Copa, o mercado brasileiro ainda é subsidiado pela estratégia de distribuição global, custando menos da metade do que um colecionador suíço paga pelo mesmo produto.
Mudanças estruturais no licenciamento FIFA

Os bastidores da economia do colecionismo revelam uma mudança histórica na estrutura de licenciamento da FIFA. A partir de 2031, a empresa Fanatics, por meio da subsidiária Topps, assumirá a licença exclusiva para produzir figurinhas da Copa do Mundo, encerrando uma parceria de seis décadas com a Panini.
A transição para a Fanatics não será um evento isolado, mas um contrato de longo prazo que abrangerá múltiplos ciclos de Copas do Mundo, incluindo a produção de figurinhas, trading cards e jogos de cartas colecionáveis. Embora o acordo de exclusividade para esses produtos comece oficialmente apenas em 2031, a empresa já garantiu sua presença para o Mundial de 2026 como a licenciada oficial de varejo no local. Isso significa que a Fanatics será responsável pela gestão das operações de venda física em todos os estádios durante as 104 partidas do torneio na América do Norte.
Gianni Infantino, presidente da FIFA, declarou que a Fanatics está “impulsionando uma inovação massiva em colecionáveis que oferece aos fãs uma maneira nova e significativa de se envolverem com seus times e jogadores favoritos”. A decisão visa globalizar o engajamento dos torcedores e gerar fluxos de receita comercial que serão reinvestidos no futebol global.
A mudança ocorre em meio a uma intensa batalha judicial, na qual a Panini acusa a Fanatics de comportamento anticompetitivo e tentativa de monopolização da indústria de cards esportivos. O conflito escalou após a Fanatics garantir direitos exclusivos de ligas de peso como a NBA e a NFL(anteriormente sob domínio da editora italiana) somando-os a um portfólio que já conta com Premier League, MLB, F1 e Bundesliga.
A Panini, que registrou vendas líquidas de US$ 720 milhões com produtos da Copa de 2022 e projeta faturar US$ 1,48 bilhão em 2026, enfrenta agora um cenário de incertezas. A empresa contratou o CitiGroup como assessor financeiro para explorar opções estratégicas, incluindo uma possível venda total ou parcial ou listagem em bolsa de valores. A avaliação de mercado da Panini é estimada em US$ 5,8 bilhões.
O aspecto afetivo e cultural do colecionismo

Se nos bastidores de tribunais e das bolsas de valores a disputa é ditada por cifras bilionárias, na calçada das bancas de jornais a economia das figurinhas pulsa de forma puramente afetiva. A transição de corporações por trás dos álbuns, que também marca a transição para a era digital da Fanatics, acende um alerta para uma tradição que, no Brasil, moldou a memória de gerações.
O caso de Antônio Fiaschi, considerado um dos maiores colecionadores do Brasil, ilustra essa longevidade. Fiaschi preserva itens raros da Copa de 1938, época em que as figurinhas vinham como brindes em maços de cigarro. Contudo, essa memória materializada em papel e tinta enfrenta agora o seu maior teste de sobrevivência.
Enquanto os bastidores corporativos celebram a inovação e o engajamento digital, paira a incerteza sobre o futuro do lugar afetivo desses itens. A migração do objeto físico para experiências digitais, cujos contornos e capacidade de gerar conexão real ainda são pouco claros, coloca em xeque o ritual da troca e o prazer do colecionismo tangível. Resta saber se, em um mundo de ativos virtuais e plataformas de engajamento, o torcedor ainda encontrará o mesmo encanto que, por quase um século, transformou pequenos pedaços de papel em relíquias da identidade esportiva nacional.





