
A recente polêmica com Robinho Jr. é só mais uma de uma longa lista de controvérsias que cercam a volta de Neymar ao futebol brasileiro. De comentários polêmicos em entrevistas pós- jogo e discussões com torcedores a insinuações de traição, o maior nome do futebol brasileiro nos últimos quinze anos tem sido foco do escrutínio público dentro e fora de campo. E a cada nova polêmica, o debate público se volta para suas chances de convocação para a Copa do Mundo.
O debate é válido, mas ofusca uma questão muito mais interessante, na minha visão: o fracasso que se tornou a volta de Neymar ao Santos coloca em risco a relevância daquela que já foi uma das maiores marcas do futebol mundial. E antes de explicar exatamente por que o conjunto de polêmicas representa um problema tão grande, preciso contextualizar o cenário que cerca o Alvinegro Praiano. Em 2022, uma pesquisa conduzida pelo Ipec, em parceria com O Globo, colocou em números o panorama absolutamente desafiador que envolve o clube. O Peixe, na ocasião, registrou 2,2% da torcida nacional – suficiente para colocá-lo na nona posição, empatado com o Internacional e acima de outros grandes, como Atlético/MG, Bahia, Botafogo e Fluminense.
No entanto, ainda que o tamanho de sua torcida como um todo não seja um problema, a divisão etária de seus torcedores impõe ao clube um desafio único no futebol nacional. Enquanto o clube do litoral paulista conta com o apoio de 4,3% da torcida nacional acima de 60 anos e de 3,4% da faixa etária de 16 a 24 anos, em todas as demais faixas etárias, o percentual de santistas variou entre 1,0% e 1,8% da população. Uma matéria do O Globo, na ocasião, trouxe a explicação para a disparidade nos números: enquanto a geração de Pelé ajudou a posicionar o clube como a sexta maior torcida entre baby boomers e a geração X, o time liderado por Neymar, há cerca de quinze anos, impulsionou a torcida de uma parcela mais jovem da população.
Entre Pelé e Neymar, nem mesmo os títulos brasileiros de 2002 e 2004 serviram de gatilho para converter um número maior de torcedores. O desafio do clube, como disse, é absolutamente único no país. Enquanto Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Vasco possuem torcidas de baixa concentração geográfica, o tamanho de suas bases de torcedores é suficiente para sustentar equipes competitivas no longo prazo. Grêmio, Internacional, Galo, Cruzeiro, Botafogo e Fluminense, apesar de seu alcance nacional, apresentam concentração geográfica relativamente maior, o que facilita qualquer tentativa de exploração comercial desse mercado.

Por fim, ao menos uma dezena de outros clubes – como Bahia, Sport e Athletico – possuem torcidas de tamanho significativo e altíssima concentração geográfica, o que constitui uma vantagem competitiva absolutamente relevante. O Santos, nesse sentido, enfrenta grande distribuição territorial de seus torcedores, porém com números totais significativamente menores do que os cinco clubes de maior torcida no país.
Devido ao tamanho das gerações de torcedores criadas pelos times de Pelé e Neymar, o alvinegro ainda consegue se manter competitivo; isso porque, ainda que espalhados, cinco milhões de torcedores representam um enorme mercado. O problema é que, conforme a demografia da torcida santista deixa tão claro, o clube sempre precisou de um bom produto dentro de campo para ser relevante fora dele – o que não é o caso de outros gigantes brasileiros, como Flamengo e Corinthians.
Nos períodos em que foi menos competitivo nas quatro linhas, as arquibancadas sofreram consideravelmente. E, nesse sentido, se alguns milhões de torcedores altamente concentrados em uma grande metrópole podem ser suficientes para que clubes como Bahia e Athletico se mantenham competitivos, o cenário para o Santos é muito mais complicado. O clube está localizado em uma região significativamente menos populosa e tem como vizinhos os donos de três das cinco maiores torcidas do país.
A volta de Neymar ao clube, no ano passado, representou a esperança de um novo cenário de relevância esportiva e comercial. A ideia de que o clube pudesse ter em seu elenco o líder da Seleção em uma Copa do Mundo, além de uma volta às grandes campanhas após uma amarga queda à Série B, poderia ser o gatilho necessário para que o clube fomentasse uma nova geração de torcedores, de forma semelhante ao que ocorreu entre 2009 e 2013.
Esse cenário, hoje parece claro, não deve se concretizar. Pela segunda vez desde que voltou à primeira divisão, o clube deve brigar contra o rebaixamento, e Neymar corre sério risco de nem sequer ser convocado para a Copa do Mundo.
De forma ainda mais relevante, a proporção das polêmicas desses últimos meses mostra que a imagem de Neymar diante da mídia (e, em boa medida, do público brasileiro) não é mais a mesma. Se o Menino Ney deixou o país em 2013 sendo aplaudido de pé por estádios rivais, o adulto Neymar que voltou ao país em 2025 não é, de forma alguma, unânime. Essa observação é importante, em primeiro lugar, porque esse retorno frustrado representa uma oportunidade desperdiçada de criar uma nova leva de torcedores, semelhante ao que ocorreu nos anos 60 e nas duas últimas décadas. Pior do que isso; o clube vê suas duas ondas de torcedores em risco. Como perspectiva histórica, é interessante notar que a primeira pesquisa de torcidas do país, conduzida em 1969, apontava o Santos como o clube mais popular do Brasil.

Passados mais de cinquenta anos, o Santos apresentava apenas a sexta maior torcida entre a população acima de 60 anos, provando que a manutenção de torcedores ao longo das décadas não é uma garantia – não sem um trabalho ativo nesse sentido. Além disso, por óbvio, a geração de santistas criada por Pelé não estará aqui para sempre e passará a ser substituída por gerações que carregam uma admiração muito menor pelo clube. De forma semelhante, a geração formada por Neymar e Ganso não necessariamente carregará o carinho pelo clube para sempre, como a formada por Pelé também não o fez. O meu ponto aqui é bastante simples: o Santos parece ter assumido, ao longo de sua história, que o status conquistado nos anos 60 era seu de direito, o que definitivamente não é o caso.
Não me parece haver um grande foco na preservação do legado de Pelé, e o clube corre o risco de perder relevância nas próximas décadas. Pode parecer alarmista, mas reforço: de 1969 a 2022, o clube passou de ser o mais popular do país a ter apenas 2,2% da torcida nacional. Ainda mais preocupante, o clube enfrenta sérios desafios geográficos e não pode confiar nisso para manter sua identidade e relevância. O Santos ainda é relevante porque já foi o maior clube do país e as gerações que viram Pelé ao vivo ainda estão vivas.
Em poucas décadas, o grupo de pessoas com mais de 60 anos já não terá as mesmas memórias dos tempos áureos do clube, e as novas gerações terão uma percepção completamente diferente da importância do alvinegro para o futebol brasileiro. Além disso, de forma ainda mais alarmante, o clube tende a se tornar simplesmente o representante de uma região não grande o suficiente, afastando-o cada vez mais do topo da tabela. A distância do clube para rivais como Flamengo, Corinthians e Palmeiras tende a aumentar cada vez mais nas próximas décadas, de forma praticamente irreversível.
Com isso em mente, reforço: as polêmicas das últimas semanas indicam que a imagem de Neymar já não é a mesma, e essa mudança de percepção pode ser uma bomba-relógio prestes a inviabilizar o futuro santista entre a elite do futebol nacional. Para um clube que construiu toda a sua relevância por meio de seus grandes ídolos, o envelhecimento da geração de Pelé e a mancha na geração de Neymar colocam em sério risco a relevância do clube no futebol brasileiro.
Até mais do que com suas finanças, a direção do clube deveria demonstrar grande preocupação com a percepção de sua marca, sem a qual é praticamente impossível preservar sua relevância nas próximas décadas.





