Coluna

A mente antes da Copa do Mundo: pressão, identidade e saúde mental no futebol agora

Mundial é um dos maiores experimentos de pressão psicológica que um ser humano pode enfrentar

Foto: Rafael Ribeiro/CBF

09 de junho de 2026

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Dalila Ayala
Dalila Ayala
Psicóloga Clínica e Esportiva. Mais de 25 anos formando a mente de atletas e pessoas de alto rendimento. Terapia com estrutura, método e profundidade, para qualquer pessoa que quer mais da vida, do trabalho e de si mesma.

É com muita honra que estreio minha coluna aqui no MKTEsportivo. Poder conectar saúde mental ao universo dos negócios e da indústria esportiva é exatamente o tipo de conversa que acredito ser urgente.

No momento que essa coluna vai ao ar, a Copa do Mundo de 2026 está próxima de iniciar. E enquanto o mundo se prepara para o maior evento do futebol, algo importante já acontece dentro da cabeça de cada atleta que estará no torneio.

Trabalho com psicologia do esporte há mais de 25 anos, já acompanhei atletas em preparações para Paraolimpíadas, Jogos Parapanamericanos e Campeonatos Mundiais.

Com isso, posso afirmar: a Copa do Mundo não é só o maior evento esportivo do planeta.

É um dos maiores experimentos de pressão psicológica que um ser humano pode enfrentar. E que muitas vezes, carrega um peso que ninguém vê.

Quando um jogador é convocado, algo muda internamente de imediato. Antes de qualquer treino ou jogo, ele passa a carregar um peso que vai além da responsabilidade técnica. Sua identidade passa a estar ligada ao desempenho de um país inteiro.

Esse fenômeno, que vale a atenção, tem nome na psicologia: fusão de identidade.

O atleta deixa de ser apenas um profissional em campo e passa a ser símbolo de algo maior. Sem suporte adequado, a pressão deixa de ser motivadora e se torna paralisante.

O caso do Neymar, convocado para a Copa de 2026 em meio a lesões e a um histórico recente de instabilidade, é um exemplo vivo disso. Do ponto de vista psicológico, o que está em jogo não é só o físico. É a identidade de um atleta que construiu toda a sua narrativa em torno de ser campeão do mundo.

Quando a Copa representa a última chance de completar esse ciclo, o peso simbólico pode ser tão alto quanto a pressão competitiva, às vezes maior. E é exatamente aí que atletas tecnicamente capazes podem travar.

Já vi atletas que chegaram a competições travados, ansiosos, distantes de si mesmos, não por falta de talento, mas por falta de estrutura psicológica para sustentar o que carregavam.

E quando se fala em Copa do Mundo, existe algo que acontece mentalmente nos meses que a antecedem.

A preparação ativa dois processos que podem entrar em conflito: o estado de alerta elevado para manter alta performance, e o medo de falhar em público com consequências reais para carreira e imagem.

Quando não gerenciados, criam um ciclo de autocobrança que consome energia mental, compromete o sono e reduz a capacidade de decisão em campo.

Pesquisa da FIFPRO aponta que um terço dos jogadores sofreram depressão em algum momento da carreira, e 18% manifestaram sinais de estresse. Números que o ambiente esportivo ainda prefere ignorar.

No mercado esportivo, o impacto é direto. Atletas em colapso perdem valor de mercado, relevância de mídia e atratividade para patrocinadores. E clubes sem estrutura de suporte psicológico pagam esse preço sem entender por quê.

Por outro lado, atletas de elite que chegam bem em Copas compartilham um padrão: sabem quem são fora do campo. Com clareza de identidade e propósito além do esporte, conseguem suportar a pressão externa sem perder o fio de si mesmos.

O trabalho psicológico nessa fase não é de motivação. É de ponto de referência interno: reconhecer padrões mentais automáticos sob pressão e desenvolver respostas mais funcionais. É treino, como qualquer outra capacidade que o alto rendimento exige.

E por que essa conversa importa agora?

A Copa de 2026 terá 48 seleções e exposição midiática sem precedentes. Para marcas, clubes e profissionais de marketing esportivo, o evento representa uma oportunidade enorme. Mas os atletas em campo são, antes de tudo, seres humanos carregando uma pressão que a maioria das pessoas jamais vai experimentar.

Entender o que acontece na mente deles e como isso se conecta à performance e ao valor de mercado é uma vantagem competitiva real para qualquer profissional do setor.

Saúde mental não é tema paralelo ao negócio do esporte. É parte central dele.

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