- Atlético-MG, Botafogo e Corinthians concentram 43% das dívidas do futebol brasileiro
- Relatório Convocados 2026 aponta que o passivo dos clubes brasileiros chegou a R$ 17,3 bilhões em 2025
- Valores pendentes com federações, clubes e fornecedores estão entre os fatores que elevaram o endividamento
O Relatório Convocados 2026, estudo anual sobre a indústria do futebol produzido por Convocados e OutField, com patrocínio da Galapagos Capital, apontou que as dívidas acumuladas pelos clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro chegaram a R$ 17,3 bilhões em 2025.
O levantamento indica que o valor representa um crescimento de 15% em relação ao ano anterior, evidenciando o avanço do endividamento entre as principais equipes do país. Os dados apontam que, apesar do aumento das receitas observado em parte dos times, o ritmo de expansão das obrigações financeiras seguiu superior ao da capacidade de equilíbrio das contas.
Entre os componentes que mais contribuíram para esse cenário estão os valores pendentes junto a federações e outros clubes, além de compromissos com agentes, fornecedores, adiantamentos de contratos de televisão e publicidade, salários e direitos de imagem. Esses itens foram apontados como os principais responsáveis pelo avanço das dívidas operacionais no período analisado.
Os gastos relacionados à contratação de atletas tiveram papel relevante nesse movimento. Segundo o levantamento, esse tipo de investimento contribuiu para que as dívidas operacionais saltassem de R$ 6,9 bilhões em 2024 para R$ 8,5 bilhões em 2025. Em contrapartida, os débitos classificados como onerosos, que incluem obrigações junto a instituições financeiras, apresentaram leve redução, passando de R$ 3,6 bilhões para R$ 3,5 bilhões.
Os clubes brasileiros mais endividados
Atlético-MG, Botafogo e Corinthians concentraram os maiores volumes de dívida entre os clubes analisados no relatório. Juntos, os três respondem por 43% do endividamento total identificado no estudo, com passivos de R$ 2,63 bilhões, R$ 2,52 bilhões e R$ 2,46 bilhões, respectivamente.
Em entrevista à Folhapress, o economista Cesar Grafietti apontou Atlético-MG, Botafogo, Corinthians e Vasco como alguns dos exemplos mais preocupantes sob a ótica da gestão financeira no futebol brasileiro. Segundo ele, o Corinthians enfrenta dificuldades para avançar estruturalmente, enquanto o Atlético iniciou recentemente um processo de recuperação.
Grafietti destaca ainda que, entre os passivos de Corinthians e Atlético-MG, existe um elemento que amplia a complexidade do cenário: os financiamentos relacionados à construção de suas arenas, que representam parcela significativa do endividamento das duas instituições.
Além disso, há uma fatia dos débitos associada a desequilíbrios operacionais recorrentes observados em outros clubes brasileiros.
“Gastos acima da capacidade real de geração de caixa, inflação salarial de elencos e contratações de atletas sem o devido lastro financeiro. A combinação entre investimentos pesados em infraestrutura imobilizada e descontrole nos custos operacionais do futebol cria esse cenário de asfixia”, declarou Grafietti.
Para o economista, a situação financeira do Corinthians não difere de forma significativa de outros clubes quando analisada a relação entre despesas com o elenco e as receitas da instituição. Na avaliação dele, o principal desafio está ligado ao acúmulo de compromissos financeiros ao longo dos anos.
“O problema reside no estoque acumulado de dívidas passadas e nos juros que essa estrutura consome mensalmente”, completou.
Já em relação a Atlético-MG e Botafogo, Grafietti entende que os modelos de investimento adotados nos últimos anos envolveram um grau de exposição maior, especialmente pela relação entre os custos dos elencos e a capacidade de geração de receitas dos clubes.
“O problema é que um título ou uma temporada de sucesso (como o Galo em 2021 ou Botafogo em 2024) não dobra a receita estrutural de um clube de forma permanente. O endividamento sem lastro cobra o seu preço em seguida. É o resultado prático de gestões que operaram no limite do risco fiscal”, concluiu.
O relatório também trouxe reflexões sobre o desenvolvimento das SAFs no futebol brasileiro. Pedro Oliveira, cofundador da OutField e integrante das gestões de Coritiba e Le Mans, da França, utilizou o caso do Botafogo para abordar desafios observados em alguns processos de transformação societária dos clubes.
Na avaliação de Oliveira, determinadas decisões tomadas durante a implementação de algumas SAFs acabaram gerando consequências que se refletem atualmente na saúde financeira das instituições.
“O exemplo do Botafogo mostra uma série de situações que fomos postergando no processo das SAFs: feito às pressas, com decisões questionáveis que se empilharam até estourar essa bomba de agora”, finalizou.





