Indústria

FFU mira próximo ciclo de valorização e vê espaço para acelerar receitas do futebol brasileiro

Gabriel Lima analisa os resultados da comercialização coletiva, o papel dos investidores estratégicos e o potencial ainda inexplorado do futebol brasileiro

Gabriel Lima, administrador do Condomínio Forte União (CFU)

16 de junho de 2026

8 minutos de Leitura

⚡ Jogo Rápido
  • Gabriel Lima afirma que a venda dos direitos para 2025-2029 comprovou o potencial de valorização do futebol brasileiro quando sustentado por governança e estratégia comercial.
  • A FFU reduziu a diferença de receitas entre os clubes, fortaleceu a negociação coletiva na Série B e consolidou o CFU como estrutura de gestão dos ativos.
  • Para o executivo, o mercado brasileiro ainda opera abaixo de seu potencial e deve atrair ainda mais concorrência no próximo ciclo de direitos.

A venda dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro para o ciclo 2025-2029 representou uma mudança importante na forma como os clubes passaram a gerir seus ativos de mídia. Os contratos assinados pela FFU (Forte Futebol União) ampliaram receitas, diversificaram a distribuição dos jogos e colocaram em evidência temas que vão além da comercialização dos direitos, como governança, equilíbrio financeiro entre os clubes, profissionalização da gestão e atração de capital para o futebol brasileiro.

Depois de superar as dúvidas que cercaram a criação do bloco e concluir um processo que movimentou bilhões de reais, a discussão passou a girar em torno dos impactos estruturais deixados por essa transformação. Para Gabriel Lima, administrador do Condomínio Forte União (CFU), o resultado alcançado vai além dos números registrados nos contratos assinados com os grupos de mídia.

“Foi um marco importante para o mercado esportivo brasileiro. Os acordos do ciclo de 2025 a 2029 entregarão um crescimento de 110% em relação ao contrato anterior. Mais do que o valor absoluto, isso mostra que o futebol brasileiro ainda possui enorme potencial de valorização quando existe organização, governança e estratégia comercial. Tudo isso aconteceu graças à iniciativa e ao entendimento de necessidade de mudança por parte dos clubes, que são os verdadeiros protagonistas dessa transformação”, disse em entrevista ao MKTEsportivo.

O crescimento das receitas acabou sendo acompanhado por outra discussão considerada central pelos dirigentes envolvidos no projeto: a forma como esses recursos seriam distribuídos entre os participantes. Historicamente, o futebol brasileiro conviveu com grandes diferenças entre os valores recebidos pelos clubes, cenário que contribuiu para ampliar desigualdades esportivas e financeiras ao longo dos anos.

A experiência da FFU buscou atacar diretamente esse problema. O entendimento do bloco foi de que a valorização dos direitos precisaria caminhar ao lado de mecanismos capazes de tornar a competição mais equilibrada. Na avaliação de Gabriel Lima, o fortalecimento do produto passa necessariamente pela construção de um ambiente mais competitivo entre os clubes.

“O equilíbrio competitivo fortalece o produto. Não fazia sentido pensar apenas em maximizar receita sem discutir distribuição. Conseguimos reduzir drasticamente a diferença entre o clube que mais recebe e o que menos recebe dentro da FFU. Isso melhora capacidade de investimento, competitividade e sustentabilidade dos clubes. Em 2025, o clube da FFU na Série A com maior valor recebido pela negociação ganhou 1,97 vez mais do que quem faturou menos. Em 2024, com a comercialização individual, essa diferença foi de mais de seis vezes maior”, detalhou.

A redução da disparidade

A redução dessa disparidade se tornou um dos principais argumentos utilizados pela entidade para defender o modelo coletivo. O tema, inclusive, está no centro dos debates internacionais sobre ligas esportivas, especialmente em mercados que buscam equilibrar competitividade e geração de receitas. Em diferentes países, a discussão sobre distribuição de recursos tem sido tratada como elemento fundamental para preservar o interesse do público e fortalecer o valor comercial das competições no longo prazo.

Para sustentar essa nova estrutura, os clubes entenderam que seria necessário criar um ambiente institucional capaz de administrar contratos complexos, organizar receitas, garantir segurança jurídica e oferecer previsibilidade aos participantes. Foi nesse contexto que surgiu o Condomínio Forte União (CFU), que passou a funcionar como a base operacional que sustenta a gestão dos ativos comerciais dos clubes integrantes do bloco.

“O CFU é o instrumento de sustentação do projeto, que traz segurança jurídica, governança e eficiência operacional ao modelo. Era necessário criar uma estrutura profissionalizada para administrar os ativos, organizar questões financeiras e garantir previsibilidade para todos os envolvidos”, detalhou.

A profissionalização da gestão também foi determinante para viabilizar a entrada de investidores externos no projeto. Um dos movimentos mais relevantes nesse processo foi a chegada da Sports Media Entertainment (SME), grupo que adquiriu participação nos direitos futuros dos clubes e se tornou sócio estratégico da operação.

A presença de investidores em ligas e competições esportivas tem se tornado cada vez mais comum no cenário internacional. Casos como os acordos firmados pela CVC com LaLiga e Ligue 1, além da crescente participação de fundos de investimento em propriedades esportivas norte-americanas, mostram que a aproximação entre capital privado e esporte deixou de ser uma exceção para se tornar parte do desenvolvimento da indústria.

Gabriel Lima entende que o debate sobre a SME costuma ficar excessivamente concentrado no aporte financeiro realizado pela empresa, quando os efeitos da parceria são mais amplos.

“Acredito que é importante falarmos mais profundamente sobre os benefícios de ter um sócio estratégico nesse processo. O aporte financeiro é um dos fatores que, por óbvio, foi extremamente importante. Capitalizou os clubes no curto prazo, deu tranquilidade para que as negociações fossem conduzidas sem pressão no caixa e permitiu que muitos desses clubes fizessem boas escolhas e investimentos de longo prazo. Porém, para mim, o mais importante foi o alinhamento de interesses que foi criado. É uma sociedade de longo prazo onde não existe benefício para a SME se não houver benefício aos clubes”, salientou.

“Esse movimento de ter sócios estratégicos não é uma exclusividade da FFU, está acontecendo no mundo todo, como no caso da La Liga e Ligue 1 com a CVC e também a abertura massiva das ligas americanas a investimentos de fundos de private equity. Deveríamos celebrar e abraçar a entrada de capital e sócios qualificados no Brasil como parte de um processo de acelerar o crescimento e desenvolvimento do nosso mercado esportivo”, completou.

Série B

O modelo coletivo também passou a ser aplicado na Série B. Embora a segunda divisão possua uma realidade comercial diferente da elite nacional, os clubes optaram por seguir o mesmo caminho de centralização das negociações, apostando na construção de valor ao longo dos próximos anos.

Segundo Gabriel Lima, o principal desafio não está apenas na venda dos direitos, mas no reposicionamento da própria competição diante do mercado.

“A Série B ainda passa por um processo de reposicionamento de mercado. Existe um trabalho importante de valorização do produto, fortalecimento comercial e construção de uma percepção mais alinhada ao tamanho e à competitividade da competição. Esse é um processo gradual, mas fundamental para ampliar o potencial de receitas no médio e longo prazo. Mesmo assim, a negociação coletiva já gerou resultados imediatos relevantes, com aumento da receita bruta distribuída aos clubes da FFU em 2025 e 2026 na comparação com os ciclos anteriores”, comentou.

O próximo ciclo de negociação

Com os contratos atuais já definidos, as atenções começam a se voltar para o próximo ciclo de negociação. Embora ainda faltem alguns anos para o início das discussões formais, o administrador da FFU acredita que o ambiente competitivo tende a ser ainda mais intenso do que aquele observado durante a venda do pacote atual.

A expansão das plataformas digitais, a entrada de novos operadores de mídia e o interesse demonstrado por empresas que ficaram fora da atual divisão de direitos aparecem como fatores que podem ampliar a disputa pelos ativos do Campeonato Brasileiro.

“A tendência é de um ambiente ainda mais competitivo. Tivemos muitos grupos interessados que ficaram fora do ciclo atual e já demonstraram interesse nas próximas negociações. Além disso, a entrada de novos clubes no bloco deve ampliar o inventário de jogos disponíveis e aumentar ainda mais o potencial de valorização”, cravou Gabriel.

Essa percepção está diretamente ligada a uma convicção compartilhada por diversos agentes da indústria esportiva: a de que o futebol brasileiro ainda não explora plenamente seu potencial econômico. Mesmo sendo um dos mercados mais relevantes do planeta em audiência, engajamento e consumo de conteúdo esportivo, o país ainda apresenta espaço para crescimento em diversas frentes de negócio.

Para Gabriel Lima, o desafio dos próximos anos passa pela capacidade de transformar esse alcance em receitas mais robustas e diversificadas.

“O Brasil possui um dos maiores ativos esportivos do mundo em audiência, engajamento e paixão popular. Ainda existe muito espaço para crescimento em mídia, internacionalização, digital e exploração comercial integrada”, finalizou.

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