- A FFU fechou a maior venda de direitos de TV da história do futebol brasileiro: R$ 8,5 bilhões entre 2025 e 2029, com crescimento de 110% sobre o ciclo anterior.
- O modelo fragmentado atraiu Globo, Record, YouTube, Amazon, Sportv e Premiere, além de dobrar os jogos gratuitos por rodada.
- A nova estrutura reduziu a diferença de receitas entre os clubes e recebeu investimento recorde de R$ 2,2 bilhões da SportsMedia Entertainment.
A venda dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro para o ciclo de 2025 a 2029 marcou uma mudança histórica no mercado esportivo nacional. O processo liderado pelos clubes da FFU (Futebol Forte União) não apenas resultou na maior negociação de direitos de TV da história do futebol brasileiro, como também consolidou um novo modelo de organização coletiva entre os clubes do bloco.
Os acordos firmados para o período chegarão a R$ 8,5 bilhões, número que representa crescimento de 110% em relação ao ciclo anterior. Mais do que o valor percentual, o movimento chamou atenção pela estratégia adotada para estimular a concorrência e ampliar a participação de diferentes grupos de mídia no futebol brasileiro. Esta iniciativa recebeu elogios até mesmo do Presidente do Flamengo, um clube da Libra, Luiz Eduardo Baptista, que classificou os resultados do modelo econômico de vendas da FFU como “um trabalho excepcional”.
O processo de venda dos direitos por parte dos clubes da FFU foi cercado por desconfiança pela maioria do mercado. A Libra tomou a decisão de fazer uma rápida venda para a Globo por cerca de R$1,3 bilhão por temporada, enquanto parte relevante desse mesmo mercado acreditava que dificilmente outro bloco conseguiria atingir cifras tão relevantes.
As projeções mais conservadoras apontavam que a então LFU (Liga Forte União) teria apenas uma fatia do que a Libra havia conseguido.
Outro ponto era que esses R$1,3 bilhão anuais obtidos pela Libra consideravam o Corinthians no pacote comercial. Com a saída posterior do clube paulista, houve uma queda para R$1,1 bilhão anuais divididos entre nove clubes da Série A. Em 2026, com o acesso do Remo, o número de times da Libra cresceu, mas o contrato não prevê aumento do valor com o crescimento de clubes, ou seja, os mesmos R$1,1 bi agora são distribuídos para 10 agremiações, e não mais nove, como no ano passado.
O resultado final da FFU contrariou as previsões e os valores chegaram a R$1,7 bilhão por temporada, além de outros benefícios e reajustes previstos, caso aumente o número de times na Série A.

A estratégia construída pela FFU em conjunto com a LiveMode apostou na fragmentação dos pacotes comerciais para atrair diferentes plataformas e aumentar a disputa entre os players interessados.
“Entendemos desde o início que o mercado precisava voltar a disputar o futebol brasileiro. A fragmentação dos pacotes permitiu abrir portas para novos grupos de mídia, aumentar a concorrência e construir um produto mais atrativo para clubes, plataformas e torcedores”, afirma Gabriel Lima, administrador do Condomínio Forte União (CFU).
Ao final da concorrência, Globo e Record ficaram com os pacotes de TV aberta e o YouTube, com os jogos nas plataformas abertas no digital. A Amazon Prime Video assumiu o streaming, o Sportv, a TV paga/streaming e o Premiere, o pay per view.
A flexibilidade comercial se tornou um dos pilares da operação. Ao longo das negociações, os pacotes foram adaptados para atender demandas específicas de cada parceiro, ampliando o potencial de monetização e distribuição do campeonato.
O novo modelo também trouxe impacto direto para os torcedores. No ciclo atual, a quantidade de transmissões exibidas gratuitamente ao vivo dobrou, passando de dois para quatro jogos por rodada.
Outro objetivo estratégico da FFU era reduzir a diferença financeira entre os clubes. O modelo conseguiu diminuir significativamente a disparidade de receitas de direitos de TV: em 2025, a distância entre a agremiação com maior receita e a com menor faturamento dentro do bloco ficou em apenas 1,97 vez. Antes, essa diferença ultrapassava seis vezes. A distribuição de valores acabou ficando mais equilibrada, sem que isso sacrificasse a receita de qualquer clube. Pelo contrário, todos ganharam mais.
Como comparação, a Premier League, considerada referência global em distribuição de receitas, opera com diferença próxima de 1,7 vez entre seus clubes.
“Não fazia sentido discutir fortalecimento do campeonato sem falar sobre equilíbrio competitivo. A distribuição mais racional das receitas era essencial para criar um produto mais forte no longo prazo”, diz Gabriel Lima.
Um fator importante a ser destacado foi a parceria entre os clubes da FFU e a SportsMedia Entertainment. A SME se tornou sócia estratégica dos clubes do bloco, sendo a maior transação individual já feita no futebol brasileiro. O grupo investiu cerca de R$2,2 bilhões nos times da FFU, adquirindo participações minoritárias nos direitos de arena das agremiações por 50 anos. O investimento ajudou a dar estabilidade financeira, fortalecer a governança e acelerar a profissionalização da estrutura criada pela FFU.
Segundo Gabriel Lima, a criação desse modelo de governança foi determinante para consolidar o projeto.
“O futebol brasileiro historicamente trabalhou de forma muito descentralizada. Construir alinhamento entre clubes, estruturar governança e executar negociações complexas exige muita confiança e visão de futuro. Essa transformação positiva só foi possível graças à iniciativa e ao entendimento de necessidade de mudança por parte dos clubes, que são os protagonistas desse processo”, afirma.
“Desde o início, enxergamos na FFU a oportunidade de ajudar a construir um modelo mais sustentável, profissional e equilibrado para o futebol brasileiro. O investimento da SME foi feito com visão de longo prazo, acreditando no potencial de valorização dos clubes e na força do Campeonato Brasileiro como produto de mídia”, explicou Bruno Pimenta, CEO da SportsMedia.
A centralização das negociações também avançou para a Série B. Hoje, 18 clubes comercializam coletivamente seus direitos por meio da FFU. No primeiro ano do novo modelo, os valores distribuídos passaram de R$9 milhões para R$14 milhões para cada clube. Em 2026, o valor subiu para R$15,5 milhões.
A expectativa é de crescimento ainda maior a partir de 2027, quando todas as receitas entre Séries A e B serão combinadas e distribuídas na proporção de 85% e 15%, respectivamente.
Além dos resultados financeiros, a FFU também consolidou estabilidade comercial. Inicialmente fechados por três temporadas, os acordos com Record e YouTube foram ampliados para cinco anos após os resultados positivos de audiência e desempenho comercial das transmissões.
Hoje, 33 clubes negociam coletivamente seus direitos de TV através da FFU, envolvendo equipes das Séries A, B, C e D do futebol brasileiro.
Para o próximo ciclo, cuja comercialização deve começar em 2029, a expectativa é de valorização ainda maior. Além do interesse demonstrado por novos players de mídia, Atlético-MG e Vitória devem passar a integrar o bloco, aumentando a quantidade de partidas disponíveis para negociação.
“Mais do que o valor absoluto, esse processo mostra que o futebol brasileiro ainda possui enorme potencial de crescimento quando existe organização, governança e estratégia comercial”, conclui Gabriel Lima.





