Copa do Mundo 2026

Foto da seleção da Noruega como vikings gera debate nacional às vésperas da Copa do Mundo

Campanha assinada por David Yarrow une retorno ao Mundial, arrecadação milionária para causas sociais e discussões sobre identidade cultural no país

09 de junho de 2026

4 minutos de Leitura

⚡ Jogo Rápido
  • A seleção da Noruega lançou uma campanha fotográfica inspirada na cultura viking para celebrar sua volta à Copa do Mundo após 28 anos.
  • As imagens terão 250 cópias comercializadas e podem gerar até 39 milhões de coroas norueguesas (R$ 21,32 milhões), com parte da receita destinada ao combate ao câncer infantil.
  • Enquanto apoiadores enxergam valorização da identidade nacional, críticos questionam associação do futebol norueguês a símbolos considerados incompatíveis com os valores do país.

O retorno da Noruega à Copa do Mundo de 2026 ganhou um elemento inesperado fora das quatro linhas. Uma fotografia oficial da seleção, produzida pelo renomado fotógrafo David Yarrow, colocou os jogadores vestidos como guerreiros vikings diante de um fiorde e rapidamente se transformou em uma das imagens mais comentadas do período pré-Mundial.

A iniciativa faz parte de uma ação especial que prevê a venda de 250 cópias limitadas do registro. Dependendo do tamanho da impressão, os exemplares custarão entre 100 mil e 250 mil coroas norueguesas. Caso toda a tiragem seja comercializada, a arrecadação poderá alcançar 39 milhões de coroas norueguesas, o equivalente a aproximadamente R$ 21,32 milhões. Parte dos recursos será destinada à Associação de Combate ao Câncer Infantil.

Apesar da repercussão internacional positiva, a campanha desencadeou um intenso debate dentro da própria Noruega sobre qual imagem o país deseja projetar ao mundo durante a Copa do Mundo.

Para uma parcela da população, a representação dos atletas como guerreiros vikings reforça estereótipos ligados à agressividade e não reflete a visão moderna de uma sociedade frequentemente associada à diplomacia, à mediação de conflitos e a valores pacifistas.

As críticas ganharam espaço nos principais veículos de comunicação do país. Janne Stigen Drangsholt, colunista do jornal Aftenposten, questionou a estética adotada pela campanha.

“Há uma espécie de estética masculina e uma vibração um tanto tóxica e infantil. Eles poderiam ter pensado em algo melhor”, criticou.

O posicionamento encontrou respaldo em Hans Petter Sjøli, colunista político do Verdens Gang, que considera a utilização da temática viking um recurso desgastado para representar a identidade nacional.

“Está ficando um pouco exagerado e com cara de Disney para nós, noruegueses”, reclamou, em entrevista à emissora NRK.

“Acho que a imagem do futebol deveria ser realista, como os noruegueses são: pessoas um pouco cautelosas e decentes que se vestem com elegância quando estão prestes a vivenciar grandes momentos”, definiu o jornalista, que também é formado em história.

As discussões também chegaram ao ambiente acadêmico. Em artigo publicado pelo jornal Klassekampen, a pesquisadora Jane Haug Skjoldli alertou para os riscos de associar símbolos nacionais a idealizações masculinas do passado, destacando possíveis conexões com narrativas utilizadas por grupos extremistas.

Por outro lado, a campanha encontrou forte respaldo entre políticos, especialistas em arqueologia e defensores da valorização da herança cultural escandinava.

O deputado Mímir Kristjánsson, integrante do Partido Vermelho, classificou as críticas como exageradas e argumentou que eventos globais como a Copa do Mundo representam uma oportunidade para que cada país apresente elementos de sua própria identidade.

“É uma Copa do Mundo de futebol onde culturas de todo o mundo se encontrarão. A Noruega precisa trazer sua própria cultura para que a diversidade funcione”, afirmou Kristjánsson à NRK.

O parlamentar também rejeitou a ideia de que símbolos históricos da cultura nórdica devam ser associados exclusivamente a grupos radicais.

“Os nazistas não são donos de Thor, Odin, da escrita rúnica ou de Valhalla. Temos que retomar isso deles. Acho que a seleção nacional está dando um ótimo exemplo”, acrescentou Kristjánsson, que atua em um partido de esquerda.

A Federação Norueguesa de Futebol (FNF) também saiu em defesa da iniciativa e afirmou que a campanha não busca glorificar a violência associada ao imaginário viking. Segundo a entidade, o conceito está relacionado aos valores coletivos que cercam a atual geração da seleção.

“Usamos a história como uma imagem de algo que ainda hoje é forte no futebol norueguês: comunidade, voluntariado, coragem e a capacidade de se manter unido quando é preciso”, destaca Ragnhild Ask Connell, diretora de comunicação da FNF.

Enquanto o debate segue dividindo opiniões nos jornais, na política e nas redes sociais, os torcedores parecem ter adotado a narrativa apresentada pela seleção. Durante a vitória por 3 a 1 sobre a Suécia em amistoso preparatório para a Copa do Mundo, milhares de noruegueses reproduziram movimentos de remada nas arquibancadas enquanto entoavam em coro “Ro! Ro!” (“Remem!”), transformando a simbologia viking em parte da atmosfera que acompanhará a equipe no torneio.

Compartilhe
ver modal

Assine a newsletter do MKT