Coluna

O limite da admiração: por que os Enhanced Games são uma aberração esportiva e humana

Competição com uso liberado de substâncias para melhora de desempenho reacende o debate sobre os limites éticos da alta performance no esporte

Foto: AFP

01 de junho de 2026

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Eduardo Musa
Eduardo Musa
Eduardo Musa é especialista em marketing e gestão esportiva. Com mais de 14 anos de experiência no mercado, já trabalhou em três Olimpíadas e uma Copa do Mundo.

Quem vive e respira o esporte sabe que a sua magia reside em uma única pergunta silenciosa que fazemos diante da TV ou na arquibancada: “Como ele/ ela conseguiu fazer isso?”. Essa admiração quase infantil, mas profundamente humana, é o que move a indústria, atrai marcas e engaja multidões. Ela nasce do respeito pelo sacrifício, pelo entendimento da dificuldade de execução, pelo planejamento estratégico, pela resiliência mental e pela superação dos limites reais do corpo humano.

É por isso que a recente tentativa de emplacar os chamados Enhanced Games — uma espécie de Olimpíada sem exames antidoping, onde o uso de substâncias químicas para melhorar a performance é liberado e supervisionado — me causa um profundo incômodo, não apenas como profissional do mercado, mas como alguém apaixonado pelo esporte.

Eu vivi essa trincheira na pele e sei o peso de defender a integridade do esporte. Como presidente da Confederação Brasileira de Skateboarding (CBSk) durante a preparação e a consolidação do skate nas duas primeiras Olimpíadas da história, enfrentamos de perto o preconceito daqueles que olhavam para a nossa modalidade e o enxergavam apenas como um lifestyle descompromissado, duvidando da nossa capacidade de entregar alto rendimento com seriedade e ética. Foram anos de trabalho duro para blindar e preservar a imagem do skateboarding. Enfrentamos uma rotina implacável: mais de sete anos de testes antidoping intensos, numerosos e surpresa.

Um dos grandes feitos da nossa gestão foi entregar essa transição histórica, nos ciclos olímpicos, com absolutamente nenhum teste positivo entre os atletas brasileiros. Provamos ao mundo que a essência, a cultura e a pureza do esporte não são negociáveis e que é possível estar no topo do mundo de forma limpa.

Se a iniciativa dos Enhanced Games se limitasse a um estudo de laboratório fechado, um experimento científico para analisar os limites fisiológicos e os malefícios severos que essas substâncias causam ao organismo a médio e longo prazo, talvez houvesse algum valor acadêmico. Mas não é isso. Os organizadores, financiados por bilionários do setor de tecnologia sob a bandeira do transhumanismo, estão tentando vender um produto de entretenimento.

O discurso comercial é o de “celebrar a ciência e a superação extrema”. Na prática, é a espetacularização da autodestruição. É transformar o atleta em um tubo de ensaio humano para gerar cliques, recordes artificiais e lucro.

Essa glamourização do “atalho químico” encontra um paralelo trágico e muito real no que assistimos no fisiculturismo moderno. Recentemente, o Brasil e o mundo lamentaram a morte súbita do influenciador fitness e atleta Gabriel Gânley, de apenas 22 anos, que acumulava mais de 1,6 milhão de seguidores.

Foto: Reprodução/Redes Sociais

Um jovem saudável, com uma vida inteira pela frente, que teve uma parada cardíaca fatal. Gabriel sabia dos riscos, mas foi engolido pela cultura do “valetudo” pela fama e pela estética extrema que as redes sociais monetizam. Os Enhanced Games querem pegar essa mesma lógica destrutiva, colocá-la sob os refletores de uma transmissão global e chamá-la de “evolução”.

O lema olímpico que nos inspira há mais de um século é Citius, Altius, Fortius (Mais rápido, mais alto, mais forte). Não podemos correr o risco de ter que incluir um adendo triste: “e o mais aditivado”. Eu entendo o interesse da mídia em gerar debate sobre o tema, mas a indústria esportiva séria, as marcas patrocinadoras e os verdadeiros amantes do esporte precisam repudiar, agir e pressionar o mercado a isolar comercialmente os Enhanced Games.

Não é apenas uma questão de ética esportiva; é uma questão de preservação da vida e da integridade do que significa competir. O esporte de verdade vive do suor, do talento e da verdade, e isso nenhuma substância consegue replicar.

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