
Quem vive e respira o esporte sabe que a sua magia reside em uma única pergunta silenciosa que fazemos diante da TV ou na arquibancada: “Como ele/ ela conseguiu fazer isso?”. Essa admiração quase infantil, mas profundamente humana, é o que move a indústria, atrai marcas e engaja multidões. Ela nasce do respeito pelo sacrifício, pelo entendimento da dificuldade de execução, pelo planejamento estratégico, pela resiliência mental e pela superação dos limites reais do corpo humano.
É por isso que a recente tentativa de emplacar os chamados Enhanced Games — uma espécie de Olimpíada sem exames antidoping, onde o uso de substâncias químicas para melhorar a performance é liberado e supervisionado — me causa um profundo incômodo, não apenas como profissional do mercado, mas como alguém apaixonado pelo esporte.
Eu vivi essa trincheira na pele e sei o peso de defender a integridade do esporte. Como presidente da Confederação Brasileira de Skateboarding (CBSk) durante a preparação e a consolidação do skate nas duas primeiras Olimpíadas da história, enfrentamos de perto o preconceito daqueles que olhavam para a nossa modalidade e o enxergavam apenas como um lifestyle descompromissado, duvidando da nossa capacidade de entregar alto rendimento com seriedade e ética. Foram anos de trabalho duro para blindar e preservar a imagem do skateboarding. Enfrentamos uma rotina implacável: mais de sete anos de testes antidoping intensos, numerosos e surpresa.
Um dos grandes feitos da nossa gestão foi entregar essa transição histórica, nos ciclos olímpicos, com absolutamente nenhum teste positivo entre os atletas brasileiros. Provamos ao mundo que a essência, a cultura e a pureza do esporte não são negociáveis e que é possível estar no topo do mundo de forma limpa.
Se a iniciativa dos Enhanced Games se limitasse a um estudo de laboratório fechado, um experimento científico para analisar os limites fisiológicos e os malefícios severos que essas substâncias causam ao organismo a médio e longo prazo, talvez houvesse algum valor acadêmico. Mas não é isso. Os organizadores, financiados por bilionários do setor de tecnologia sob a bandeira do transhumanismo, estão tentando vender um produto de entretenimento.
O discurso comercial é o de “celebrar a ciência e a superação extrema”. Na prática, é a espetacularização da autodestruição. É transformar o atleta em um tubo de ensaio humano para gerar cliques, recordes artificiais e lucro.
Essa glamourização do “atalho químico” encontra um paralelo trágico e muito real no que assistimos no fisiculturismo moderno. Recentemente, o Brasil e o mundo lamentaram a morte súbita do influenciador fitness e atleta Gabriel Gânley, de apenas 22 anos, que acumulava mais de 1,6 milhão de seguidores.

Um jovem saudável, com uma vida inteira pela frente, que teve uma parada cardíaca fatal. Gabriel sabia dos riscos, mas foi engolido pela cultura do “valetudo” pela fama e pela estética extrema que as redes sociais monetizam. Os Enhanced Games querem pegar essa mesma lógica destrutiva, colocá-la sob os refletores de uma transmissão global e chamá-la de “evolução”.
O lema olímpico que nos inspira há mais de um século é Citius, Altius, Fortius (Mais rápido, mais alto, mais forte). Não podemos correr o risco de ter que incluir um adendo triste: “e o mais aditivado”. Eu entendo o interesse da mídia em gerar debate sobre o tema, mas a indústria esportiva séria, as marcas patrocinadoras e os verdadeiros amantes do esporte precisam repudiar, agir e pressionar o mercado a isolar comercialmente os Enhanced Games.
Não é apenas uma questão de ética esportiva; é uma questão de preservação da vida e da integridade do que significa competir. O esporte de verdade vive do suor, do talento e da verdade, e isso nenhuma substância consegue replicar.





