Coluna

Quando os bilionários passaram a financiar elencos

O dinheiro sempre esteve no esporte universitário americano. A diferença é que agora ele influencia diretamente a competitividade dentro de quadra.

02 de junho de 2026

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Felipe Joseph
Felipe Joseph
Felipe Joseph é Coordenador de Relações Esportivas da Penalty e possui mais de 19 anos de experiência em marketing, publicidade e promoção.

O fim de maio trouxe duas imagens fortes para o basquete. O Esporte Clube Pinheiros garantiu vaga nas finais do NBB e reforçou o peso de projetos bem estruturados, que amadurecem com o tempo e entregam resultado. Do outro lado, o New York Knicks voltou a disputar o título após 27 anos, no Madison Square Garden (NYC). Já tive a chance de assistir a uma partida da NBA nessa arena e a experiência impressiona. Em comum, esses exemplos mostram como tradição, investimento e visão de longo prazo seguem moldando o jogo.

No esporte universitário americano, essa lógica existe há décadas. Ex-alunos milionários ajudaram a financiar arenas, centros de treinamento, bolsas acadêmicas e até departamentos inteiros de atletismo. O dinheiro privado sempre fez parte da engrenagem, mas o que muda agora é  o lugar que ele passou a ocupar dentro dela.

Na prática, o sistema produzia atletas de alto nível, grandes atuações e audiências recordes. A bolsa universitária tinha valor real, dentro e fora de quadra. Mesmo assim, estudantes e jogadores continuavam sem acesso a qualquer receita gerada pelo próprio desempenho esportivo. E vale reforçar que as receitas provenientes de ingressos e venda de roupas das universidades é impressionante.

Esse modelo já operava sob pressão. Nos últimos anos, parte das universidades americanas passou a enfrentar queda de demanda, custo elevado e risco real de fechamento ou fusão. Em muitas instituições privadas, as mensalidades seguiram altas e a dívida estudantil virou parte do pacote. Ao mesmo tempo, surgiram caminhos alternativos de formação, o que aumentou a disputa por alunos e colocou ainda mais pressão sobre o sistema.

Foi nesse ambiente mais pressionado que o dinheiro ganhou outra função. Ele continuou relevante para sustentar a estrutura, mas passou a pesar também na montagem dos elencos e na disputa por talentos.

Com a explosão do NIL (Name, Image and Likeness), o avanço dos coletivos financeiros e os novos modelos de compartilhamento de receita, o capital deixou de atuar apenas na infraestrutura institucional e passou a influenciar diretamente a construção de elenco, o recrutamento e a retenção de atletas. E isso está transformando o basquete universitário americano em um dos ambientes esportivos mais agressivos financeiramente do planeta.

Os grandes programas da NCAA sempre foram abastecidos, em partes, por doações privadas. A cultura do alumni donor faz parte da estrutura universitária americana há décadas. A diferença é que, historicamente, esse dinheiro era direcionado principalmente para infraestrutura acadêmica e de arenas esportivas, manutenção do patrimônio, bolsas, centros acadêmicos e fortalecimento institucional. Mas alguns desses investimentos tem começo, meio e fim. E tudo isso se encaixa dentro da tradição histórica do college sports americano.

Entretanto, em 2021 a NCAA autorizou oficialmente os acordos de NIL. A partir dali, atletas universitários passaram a poder monetizar sua imagem, redes sociais e contratos publicitários. Assim, muitos destes financiadores bilionários podem aportar também no NIL. E é aqui que o sistema muda completamente. Porque o dinheiro deixa de financiar apenas a universidade. Agora ele também tem a possibilidade de financiar atletas.

Segundo análises do mercado americano, cerca de 80% do financiamento do ecossistema NIL passou a vir justamente desses coletivos organizados por doadores. A disputa entre as universidades para conseguir recrutar os melhores prospectos é acirradíssima. Uma boa parte da estratégia era ter um programa sólido de treinamentos, histórico de participações no March Madness e o posicionamento de branding da universidade.

Embora o NIL tenha surgido como um mecanismo de exploração comercial de imagem, o mercado rapidamente passou a usá-lo como ferramenta para atrair e reter talentos. Nos últimos anos, as doações cresceram de forma relevante e muitas universidades bateram recordes de captação. Ao mesmo tempo, os valores envolvidos nos contratos com atletas também dispararam.

Os números ajudam a dimensionar essa mudança. Há doações de centenas de milhões de dólares a programas tradicionais, departamentos esportivos que arrecadaram mais de US$ 250 milhões em poucos anos e atletas universitários com ganhos anuais na casa dos milhões. O resultado é um ambiente cada vez mais competitivo, em que estrutura, marca e poder de captação passaram a influenciar diretamente a disputa por talento.

Esse novo cenário pode retardar a vontade de atletas universitários em se inscreverem no Draft antes de concluir a graduação, permitindo mais tempo acadêmico para a formação do jovem.

Com essa recente mudança de modelo, alguns pilares da estrutura começam a perder estabilidade: inflação entre recebimento dos atletas, desequilíbrio competitivo para recrutamento de atletas (apesar de que isso já ocorre), dependência extrema e cada vez maior de doadores e uma lógica quase profissional dentro do esporte universitário.

A própria NCAA e os novos órgãos reguladores já discutem limitar coletivos cuja única função seja “pagar atletas”. As equipes de recrutadores sempre foram muito organizadas por parte das universidades. Mas nesse caso eles prospectam atletas “amadores”, porém, o trabalho de trazer atletas está ficando parecido com mercado de recrutamento do profissional.

Talvez o aspecto mais simbólico dessa transformação seja perceber que o college basketball não perdeu o dinheiro dos bilionários. Ele aumentou e mudou a direção de onde investir.

Durante décadas, os grandes doadores ajudavam universidades a construir arenas. Agora passam a poder ajudar programas a construir elencos.

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