
Na última quarta-feira, as universidades de Virginia e NC State anunciaram o cancelamento de sua partida no Brasil, previamente marcada para ocorrer no Nilton Santos no final de agosto. A decisão, segundo comunicado oficial das duas universidades, foi tomada pela Athlete Advantage, empresa responsável pela organização do evento em parceria com a Brasil Sports Business, mas poucos detalhes foram fornecidos sobre os motivos. Desde então, tenho acompanhado algumas discussões sobre o assunto e considero que, como alguém que atua no mercado esportivo universitário há quatro anos, tenho alguns pontos a acrescentar.
Antes de mais nada, é importante reconhecer que, internacionalmente, futebol americano e NFL são tratados praticamente como sinônimos, mas essa definitivamente não é a realidade do mercado interno americano. Milhões de americanos – principalmente em estados do Sudeste e do Centro-Oeste do país – consideram o futebol americano universitário mais importante do que a liga profissional. Não à toa, todos os estádios do país com capacidade superior a 85 mil pessoas são utilizados para partidas universitárias – o maior estádio da NFL, nesse sentido, é apenas o décimo quinto maior estádio americano.
Ainda assim, dado que a projeção internacional do esporte ocorre por meio da NFL, é natural defender que uma partida universitária no Brasil faz pouco sentido. Não discordo da ideia de que, de fato, o futebol americano universitário tem muito menos projeção fora dos Estados Unidos, mas discordo de que um evento como esse não teria qualquer potencial comercial. A principal questão – e que não vi ninguém comentando, mesmo em perfis brasileiros focados no college football – é que me parece ter havido um erro fundamental na escolha do público-alvo dessa partida.
Para tentar provar meu ponto, preciso abrir um parêntese. Em 2024, minha universidade iniciou sua temporada com uma partida na Irlanda, que reuniu quase 50 mil pessoas. A disputa entre Florida State e Georgia Tech, na ocasião, marcou a quarta edição do chamado Aer Lingus College Football Classic, que teve sua edição inaugural em 2016 e ocorre sem interrupções desde 2022. Esse evento, imagino eu, deve ter servido de inspiração para o evento brasileiro, mas há um diferencial em sua organização que me parece ter sido ignorado (ou negligenciado) nessa tentativa frustrada de trazer o futebol americano universitário ao Brasil – diferencial esse apresentado já no nome do evento.
Isso porque a Aer Lingus, principal companhia aérea irlandesa, é a principal patrocinadora das partidas ocorrendo em solo irlandês. E esse patrocínio não é aleatório: o racional por trás do evento é que este sirva de gatilho para o turismo no país europeu. Durante a temporada de 2023, quando trabalhei diretamente com patrocínios na Florida State, atuei em uma série de ativações de patrocínio da Aer Lingus, que visavam apresentar aos torcedores opções de viagem e hospedagem na Irlanda. As ações foram um sucesso e, segundo os relatos de amigos e colegas que viajaram para a partida (nunca encontrei dados oficiais sobre isso), cerca de 80 a 90% do estádio estava ocupado por torcedores de Florida State, com a imensa maioria vinda da Flórida ou de outras regiões dos Estados Unidos. A própria universidade, nesse sentido, orientou professores a abonarem as faltas de alunos que comprovassem viagem à Irlanda naquela semana.
Foi pensando nisso que, no momento da divulgação do evento, considerei um enorme acerto da organização a escolha do Rio de Janeiro como sede. Não publiquei nada por aqui na época, mas lembro de ter discutido isso com profissionais brasileiros que me questionaram a escolha do Rio de Janeiro em vez de São Paulo. Na minha visão na época, as chances de sucesso do evento seriam consideravelmente maiores se o foco da organização estivesse no turismo, e o Rio de Janeiro é certamente um destino muito mais atrativo do que São Paulo nesse sentido.
Durante meus quatro anos morando nos Estados Unidos, perdi as contas de quantas vezes, ao dizer que era brasileiro, ouvi algo como: “Nossa, eu adoro o Brasil; está nos meus planos de viagem para o futuro!” Curiosamente, praticamente nenhuma dessas pessoas havia, de fato, viajado ao Brasil em algum momento. O Brasil me parece ser um país que todos pretendem visitar, mas que pouquíssimos de fato visitam. Eu poderia discutir questões de segurança pública e barreiras linguísticas, entre outros desafios que o turismo brasileiro enfrenta, mas, neste momento, gostaria de manter o foco no esporte.
Nos últimos anos, o turismo esportivo tem se desenvolvido bastante nos Estados Unidos, com cidades como Cary, na Carolina do Norte, e Clearwater, na Flórida, virando verdadeiros polos turísticos esportivos no país. Com esses esforços, o americano – tradicionalmente acostumado a viajar bastante no país – tem usado cada vez mais o esporte como gatilho para viagens. Essa era a oportunidade que, na minha opinião, deveria ter sido explorada – e, se tivesse sido, poderia ter viabilizado o evento e o tornado um sucesso em termos de público e de receita.
Pensando nisso, acho que um erro importante foi ter firmado a parceria com a ACC, uma das quatro principais conferências do esporte universitário americano. Isso porque me parecem existir apenas duas torcidas na conferência capazes de sustentar uma estratégia focada no turismo internacional: Florida State e Clemson. Historicamente, esses são, com folga, os dois programas de maior sucesso na conferência (Miami também teve bastante sucesso no passado, porém antes de se unir à ACC), liderando as listas de audiência no futebol americano entre os times da ACC. As duas representam, no entanto, ilhas de sucesso em uma conferência que vem sofrendo recentemente. Não coincidentemente, ambas têm buscado ativamente deixar a conferência no passado recente.
Quem acompanha o futebol americano universitário sabe que existem duas conferências concentrando os principais programas do país: a SEC, historicamente a maior conferência nacional, e a Big Ten, que concentra os últimos três campeões nacionais no esporte (Michigan, Ohio State e Indiana). Além do sucesso dentro de campo, essas também são as conferências cujas torcidas possuem maior cultura de viagens ligadas ao esporte. Uma estratégia relacionada ao turismo, dessa forma, teria que necessariamente englobar, ao menos em certa medida, universidades dessas conferências para ser viável no médio e longo prazo.
No instante em que o cancelamento da partida foi confirmado, vi diversos comentários tratando a organização do evento como fadada ao fracasso desde o princípio. Discordo veementemente dessa ideia: para mim, o futebol americano universitário tem um potencial enorme no país. Ainda assim, me parece claro que esse potencial ainda não se transformou em realidade, e a organização de partidas em território brasileiro poderia ser parte fundamental dessa estratégia. Ainda assim, esses passos iniciais não deveriam buscar ser viabilizados pelo público brasileiro, mas pelo próprio público americano, acostumado a viajar atrás de seus times favoritos.
Vendo de fora, me parece que a organização confiou demais no potencial do público brasileiro, cada vez mais interessado na NFL. É importante entender, no entanto, que NFL e futebol americano são fenômenos diferentes, e que o interesse do público brasileiro, ao menos por enquanto, parece estar somente voltado à NFL. Prova disso é que a própria liga brasileira atrai pouquíssimo interesse. E a estratégia se torna ainda mais complicada quando pensamos que a própria NFL tinha uma partida agendada na cidade semanas depois, quase monopolizando a atenção dos públicos carioca e brasileiro.
Continuo acreditando no (e torcendo pelo) crescimento do esporte universitário no Brasil. As arquibancadas universitárias se aproximam muito mais do que o brasileiro conhece e gosta, e as universidades americanas (como sempre defendo por aqui) oferecem referências muito melhores ao esporte brasileiro do que as ligas profissionais americanas ou os campeonatos europeus de futebol. Fico na expectativa, nesses dias após o cancelamento do evento, de que a ideia de trazer partidas universitárias ao país – seja através de partidas inaugurais, como a que estava prevista, ou até mesmo bowls – não seja definitivamente descartada, mas que mudanças aconteçam para que a ideia, que é bastante interessante, seja também viável.





