Coluna

A economia da atenção mudou as regras do esporte 

O jogo não começa no apito inicial nem termina quando o cronômetro zera. No esporte contemporâneo, a disputa mais importante acontece fora das quadras, dos campos e das transmissões

Foto: Felipe Joseph

10 de julho de 2026

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Felipe Joseph
Felipe Joseph
Felipe Joseph é Coordenador de Relações Esportivas da Penalty e possui mais de 19 anos de experiência em marketing, publicidade e promoção.

Em 1971, o economista Herbert Simon escreveu uma frase que se tornaria fundamental para compreender o mundo atual: “uma riqueza de informação cria uma pobreza de atenção”. Décadas antes da internet, das redes sociais e dos smartphones, ele já identificava o recurso mais escasso da economia moderna: a atenção humana. Essa transformação impactou profundamente a indústria do esporte. 

Durante décadas, ligas, clubes, federações e patrocinadores mediram sucesso por audiência. Quanto mais pessoas assistiam a uma transmissão, maior era o valor gerado para emissoras, anunciantes e parceiros comerciais. O jogo era o centro absoluto da estratégia. 

Hoje, o cenário é outro. A concorrência de uma partida não é apenas outra partida. Ela está no TikTok, no YouTube, na Netflix, nos videogames, nos podcasts e em uma infinidade de experiências que disputam o tempo das pessoas. O esporte deixou de competir apenas por audiência e passou a competir por atenção.

A diferença parece pequena, mas muda completamente a forma como propriedades esportivas geram valor. Se antes vender direitos de transmissão significava comercializar algumas horas de programação, hoje significa oferecer um ecossistema capaz de manter o público conectado antes, durante e depois das competições.

O torcedor já não consome apenas o evento principal. Ele acompanha bastidores, entrevistas, rumores de transferências, documentários, podcasts, conteúdos produzidos por atletas, influenciadores e veículos especializados. O consumo deixou de ser concentrado em poucas horas e passou a acontecer ao longo de todo o dia. 

Essa mudança transformou organizações esportivas em produtoras de conteúdo. Clubes passaram a atuar como plataformas de mídia. Atletas se tornaram canais de comunicação próprios. E patrocinadores deixaram de buscar apenas exposição para construir conexões permanentes com comunidades e fãs. 

É por isso que métricas como engajamento, retenção, tempo de consumo e alcance orgânico ganharam protagonismo. Elas refletem uma nova lógica: vence quem consegue permanecer relevante por mais tempo na rotina das pessoas. Poucas organizações entenderam essa transformação tão rapidamente quanto a NBA. 

Embora o basquete continue sendo seu principal produto, a liga construiu um modelo capaz de gerar atenção durante os 365 dias do ano. Quando a temporada termina, começam os playoffs. Depois vêm o draft, a free agency, os eventos internacionais, os documentários, os podcasts, os conteúdos exclusivos e uma sequência contínua de histórias que mantém a liga presente na vida dos fãs. A bola para de quicar, mas a atenção não. 

Talvez a principal força da NBA seja ter compreendido que as pessoas se conectam mais facilmente com histórias do que com instituições. Por isso, a liga investe fortemente na construção de narrativas em torno de seus atletas. LeBron James, Stephen Curry, Luka Dončić ou Victor Wembanyama não são apenas jogadores. São marcas globais capazes de gerar conversas permanentes. Cada entrevista, publicação ou nova aparição pública cria pontos de contato com o público e amplia o alcance da liga. 

Esse entendimento também mudou a lógica das empresas de mídia. Hoje, elas não compram apenas partidas. Compram a capacidade de gerar atenção contínua. Para anunciantes e plataformas, pouco importa se a interação acontece durante um jogo, em um documentário, em um podcast ou em um vídeo curto nas redes sociais. Tudo faz parte do mesmo ecossistema de valor. 

Nos últimos anos, vimos surgir novos modelos de distribuição de conteúdo impulsionados por plataformas digitais e criadores. No Brasil, o sucesso da CazéTV mostrou que parte do público busca uma experiência mais próxima, espontânea e conectada à linguagem da internet. A transmissão deixou de ser um produto fechado e transformou-se em uma conversa. E cada vez mais, os direitos de transmissão e as cláusulas de uso das imagens se tornam ainda mais estratégicas. Quem detém o direito de gerar conteúdo exclusivos a partir dos jogos tem uma vantagem competitiva pela atenção. Inclusive, para alegria dos basqueteiros, a CazéTV está transmitindo todos os jogos da seleção brasileira da bola laranja.

Os cortes circulam em tempo real, influenciadores ampliam o alcance das histórias e os próprios torcedores produzem conteúdos que mantêm o tema vivo muito depois do apito final. Nesse contexto, a audiência continua relevante, mas não conta toda a história. O que realmente interessa é compreender por quanto tempo uma competição consegue permanecer presente na vida das pessoas. E esse talvez seja o principal desafio do esporte brasileiro. 

Temos grandes competições, atletas talentosos e torcidas apaixonadas. O que ainda exploramos pouco é o potencial das histórias que existem ao redor dessas modalidades. Bastidores, conteúdos produzidos pelos atletas, séries documentais, análises acessíveis ao grande público e ações com criadores podem ampliar significativamente o relacionamento com os fãs entre uma rodada e outra. Não se trata apenas de produzir mais conteúdo e sim construir continuidade e relevância. 

Durante muito tempo, enxergamos o conteúdo como apoio ao evento. Talvez seja hora de inverter essa lógica. O conteúdo passou a ser parte do próprio produto e com a IA, esse processo deve ser ainda mais acelerado, permitindo personalização, distribuição global, tradução automática e novos formatos de experiência para os fãs. 

Quando falamos das principais competições e futebol no Brasil, criamos uma realidade muito particular. É a modalidade que mais transita investimento. Ao assumir a posição de escrever sobre basquete, quero trazer alguns pontos que me alegram ao ver a evolução nas federações estaduais de basquete. Usarei exemplos da principal delas, mas percebo esse movimento chegando em todos os cantos do Brasil. Alguns mais intensos do que outros, mas todos se esforçando para evoluir nessa vertente também. Ao gerir a produção das transmissões e criar seus canais próprios (principalmente no Youtube) as entidades passam a ter mais controle sobre a distribuição de “cortes” em suas plataformas proprietárias e para os times que fazem parte da competição.  

O NBB faz isso desde 2017 e por um bom tempo, usufruiu de uma ferramenta que ao terminar o jogo, gerava uma infinidade de cortes previamente orientados e abastecia suas redes sociais, mas também, disponibilizava aos times jogadas de seus atletas. 

Diante desse cenário, a pergunta mais importante deixa de ser “quantas pessoas assistiram a uma partida! e sim “por quanto tempo conseguimos permanecer relevantes na vida do torcedor”?

Na era da economia da atenção, o consumidor não escolhe apenas o que assistir e sim a quem ele quer dedicar seu tempo.

E tempo, hoje, é o ativo mais valioso de qualquer negócio. Embora o jogo ainda continue sendo fundamental, ele é apenas o início da conversa. O verdadeiro desafio é criar motivos para que o torcedor queira voltar amanhã ou melhor, sequer queira ir embora.  

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