
Dois dos maiores casos de SAF do Brasil viraram cautelares e dívida bilionária. O modelo não é o réu. O dono é. Quando o Botafogo de John Textor passou a brigar na Justiça pelo próprio controle, e quando o Vasco precisou de uma liminar para tirar a 777 Partners do comando, a leitura fácil apareceu rápido. Está aí a prova de que SAF não funciona no Brasil. É a conclusão errada lida a partir dos fatos certos.Os fatos são duros.
O Botafogo carrega uma dívida que se aproxima de R$3 bilhões e viu seu controlador ser afastado por um tribunal arbitral depois de operar caixa único entre o clube e o Lyon. O Vasco viu a 777 aportar cerca de R$310 milhões e, no processo, gerar uma dívida ainda maior, antes de ser afastada por descumprir o que prometeu. São dois clubes gigantes, com torcida imensa, parados num atoleiro que eles mesmos não criaram sozinhos. Mas repare no que de fato quebrou nos dois casos. Não foi o CNPJ. Não foi a lei. Foi o capital que entrou e a cabeça que decidiu.
Uma SAF é um veículo. Como qualquer veículo, ela vai aonde o motorista leva. A Lei 14.193 não obriga ninguém a usar caixa único, a alavancar o clube para tapar buraco em outro continente, a prometer aporte que não existe. Isso são escolhas de gestão. Quando o dono trata o clube como peça de um quebra-cabeça financeiro maior, ou apenas como uma ficha numa mesa global de apostas, o desastre não é defeito do modelo. É o modelo funcionando exatamente como foi operado.
A pergunta certa nunca foi “SAF ou associação”. Foi sempre quem está por trás, com que dinheiro, e com que horizonte. Então o que separa uma SAF que vai dar certo, não é o tamanho do cheque nem a fama do investidor, porque os dois maiores cheques e os dois nomes mais barulhentos estão justamente nos dois maiores tombos.
É outra coisa, mais chata e menos vendável.É capital que entra para ficar, não para alavancar. Dinheiro com paciência de maturação longa não exige que o clube vire caixa de operação alheia. É decisão tomada perto do clube, por quem responde pelo resultado ali. Barriga no balcão e não a partir de uma planilha consolidada do outro lado do Atlântico. É meta que cabe no caixa real, não no caixa imaginado de um plano no Powerpoint. E é a disciplina de crescer devagar e de forma mensurável, sustentável e porque acesso comprado no susto e estrutura improvisada são exatamente o tipo de atalho que vira dívida quando o vento muda.
Nada disso é glamouroso. Nenhuma dessas escolhas rende manchete no dia em que é tomada. Rende sobrevivência no dia em que as outras quebram. Não escrevo isso para comemorar a crise alheia. Botafogo e Vasco são patrimônio do futebol brasileiro e o país perde quando eles sofrem. Escrevo porque a lição deles é cara demais para ser mal lida.
A SAF não é uma garantia nem uma maldição. Ela amplifica. Boa gestão com capital paciente vira aceleração. Má gestão com capital alavancado vira cratera, e o tamanho da SAF só determina o tamanho do buraco.
Na minha última coluna escrevi que SAF não é solução, gestão é. Botafogo e Vasco acabaram de escrever a nota de rodapé.





