
Se engana quem acredita que a eliminação para a Noruega foi só mais uma na (cada vez mais longa) lista de decepções brasileiras em Copas do Mundo. Pela primeira vez desde que se consolidou entre as maiores potências do futebol mundial, a Seleção chega completamente desacreditada a uma Copa e perde. E essa derrota muda tudo – ou deveria mudar – no planejamento da CBF para os próximos anos. Andrey Raychtock, pouco depois do apito final, resumiu a situação perfeitamente em um tweet: “A seleção brasileira encerra esse ciclo no patamar mais baixo que já esteve desde que começou a ganhar copas. O mercado publicitário vai ter que suar sangue pra próxima.” O problema é gigantesco e, para explicá-lo, preciso discutir os dois principais pilares da marca canarinho: a identificação com o país e os resultados dentro de campo.
De nossos cinco títulos, absolutamente nenhum veio com a maioria do elenco atuando no futebol estrangeiro. Até 1994, enquanto construía e consolidava sua reputação, a Seleção sempre teve maioria atuando no futebol nacional. A realidade mudou pela primeira vez em 1998, quando perdemos a final para a França, mas teve um novo respiro em 2002, ano em que fomos campeões com nosso último elenco “doméstico” em Copas. De 2006 para cá, somos sempre representados por uma maioria de “estrangeiros.”
Muito se fala sobre como clubes como Santos e Botafogo construíram suas marcas através da associação com a seleção brasileira. Menos é discutido, no entanto, sobre como a própria seleção brasileira construiu sua reputação – principalmente no mercado nacional – através de sua ligação com clubes como Santos e Botafogo. Se Santos e Botafogo não seriam o que são hoje sem a Seleção, a Seleção também não seria o que é sem Santos e Botafogo. A explicação é muito simples: o brasileiro, por décadas, “se viu” em campo ao assistir aos jogos da Seleção. O processo de identificação entre a Canarinho e a população brasileira ocorreu de forma absolutamente natural em uma época em que, de fato, os jogadores convocados representavam o que havia de melhor no futebol nacional.
Por questões econômicas, essa realidade mudou de forma praticamente irreversível, primeiro com o fortalecimento da Série A italiana, e então com a consolidação da Premier League e, principalmente, da Champions League. Se em décadas passadas ainda vimos jogadores como Riquelme e Neymar figurando entre os melhores do mundo atuando por Boca Juniors e Santos, essa realidade é cada vez mais impensável; estar entre os melhores do mundo implica, necessariamente, atuar na Europa, e uma seleção de ponta na Copa não pode simplesmente ignorar essa realidade.
Essa mudança de cenário não significou, no entanto, um enfraquecimento da marca da Seleção. Pelo contrário, a histórica campanha “Joga Bonito”, lançada pela Nike em 2006, ajudou a estabelecer e consolidar a identidade do futebol brasileiro, dessa vez explorando jogadores assistidos semanalmente por um público global. Internacionalmente, craques como Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno e Roberto Carlos simbolizavam o futebol nacional para fãs em todos os continentes. E mesmo no mercado local, a ausência nas convocações de jogadores dos principais clubes do país era facilmente compensada pela extensa lista de grandes estrelas globais. Afinal, quem ousaria questionar, em 2006, a ausência de jogadores do Flamengo, do Palmeiras ou do Vasco, por exemplo, quando o ataque era formado por Kaká, Ronaldinho Gaúcho, Adriano e Ronaldo?
O grande problema, desde então, é que a Seleção passou por significativas pioras nesses dois pilares. Por um lado, os principais jogadores do país não apenas não vivem seu auge no futebol nacional, mas saem do país cada vez mais novos – muitas vezes sem criar qualquer conexão. O próprio Raphinha discutiu esse assunto durante a competição, assumindo que, apesar de sua passagem pelo Avaí, não conseguiu fomentar qualquer identificação com algum clube brasileiro. Até mesmo nomes como Vinicius Jr., Endrick e Rayan – que chegaram a criar tal identificação – não atuaram por mais do que duas ou três temporadas no futebol nacional, de forma que as conexões geradas pouco se parecem com a relação estabelecida entre Neymar e Santos.
Além disso, por mais que ainda vejamos um grande número de brasileiros nos principais clubes do futebol europeu, a sensação geral é de uma queda de qualidade. Em um intervalo de 15 anos, começando em 1993 e terminando em 2007, o Brasil teve o melhor jogador do mundo em oito ocasiões e só não teve um representante entre os três finalistas em 1995 e 2001. Desde então, Messi e Cristiano Ronaldo monopolizaram o prêmio por muito tempo, e aparições de brasileiros entre os finalistas se tornaram cada vez mais raras. Para gerações mais novas (seja no país ou internacionalmente), o país deixou de ocupar o espaço de principal potência do futebol mundial – abrindo mão também da identificação com o público brasileiro.
O desafio é claríssimo: em 2026, mesmo com nomes importantes atuando no futebol europeu, a torcida brasileira chegou à Copa sem enxergar a Seleção entre as favoritas. Não só isso, a torcida passou a ver nos convocados um grupo de “estrangeiros” sem condições – seja moral ou técnica – de representar o futebol nacional. Em um cenário como esse, como engajar uma população acostumada com o protagonismo? A cartada da superação foi surpreendentemente bem usada esse ano em diversas peças de comunicação, mas essa é uma carta com prazo de validade. Quando se vende a ideia de que o Brasil se supera ao chegar como azarão, é importante que, de fato, exista uma superação. A derrota para a Noruega, que resultou na pior campanha brasileira em 36 anos, torna esse discurso menos razoável em futuras edições para uma população machucada tantas vezes.
Esse cenário representa uma bomba no colo da CBF pelos próximos quatro anos. Pela primeira vez em muito tempo, a entidade máxima do futebol brasileiro vai precisar rever sua estratégia; o produto que ela tem para explorar se torna cada dia pior – repito, tanto para o mercado local quanto para o internacional – e uma estratégia de reconstrução (ou restabelecimento) de marca passa a ser necessária.
Pelos próximos quatro anos, todas as decisões em torno da Canarinho deverão ter como prioridade restabelecer a conexão com a população brasileira e reforçar a identidade do futebol nacional. Se, num passado recente, a CBF buscou ativamente agendar amistosos na Europa e no Oriente Médio, essa estratégia deveria ser revista com urgência, com prioridade ao agendamento de partidas com ingressos mais populares em todo o território – o que eu duvido que aconteça, honestamente. De forma semelhante, a convocação de atletas com baixa identificação com torcidas locais e fora da elite europeia (ou do futebol brasileiro), como vimos nessa Copa, deveria ser praticamente extinta, priorizando jovens promessas e referências do futebol local.
As soluções não são fáceis nem óbvias, e não existe um único caminho viável para retomar a legitimidade que a Seleção sempre teve enquanto representante do país. Vi diversas opiniões, por exemplo, apontando para uma maior restrição a jogadores estrangeiros no Brasileirão – ideia que considero péssima, e que pretendo abordar em um texto por aqui no mês que vem. Ainda assim, é importante que essas discussões aconteçam. Afinal, a CBF tem quatro anos para fazer o brasileiro voltar a se importar e, usando as palavras do Andrey, evitar que publicitários precisem “suar sangue” em 2030. Tarefa bastante ingrata.





