- A Copa do Mundo de 2026 levou veículos de diferentes segmentos editoriais a ampliar a cobertura esportiva.
- A Politico transformou o futebol em pauta permanente e já soma mais de 100 publicações sobre o torneio.
- O crescimento do esporte nas redações ocorre em meio à queda de audiência de sites de notícias e à pressão causada pela inteligência artificial sobre o tráfego dos portais.
A Copa do Mundo de 2026 acelerou uma mudança na estratégia editorial de veículos que tradicionalmente não tinham o esporte como prioridade. Publicações voltadas à política, cultura, comportamento e atualidades passaram a dedicar equipes e espaço ao noticiário esportivo, de olho no aumento do interesse do público e na capacidade desses conteúdos de gerar audiência.
Um dos exemplos é a Politico. Desde junho, a publicação mantém um blog dedicado exclusivamente ao Mundial, que já ultrapassou a marca de 100 textos publicados e acumula cerca de 2,5 milhões de visualizações.
A iniciativa faz parte de uma estratégia iniciada cerca de um ano antes da competição. A redação passou a tratar a Fifa e seu presidente, Gianni Infantino, como personagens relevantes no cenário geopolítico, aproximando a cobertura esportiva de temas ligados à política internacional.
Para sustentar essa expansão, a Politico desenvolveu novas fontes e montou uma equipe especializada. A correspondente da Casa Branca, Sophia Cai, foi a primeira jornalista da redação a assumir a cobertura do futebol. Atualmente, seis profissionais credenciados acompanham a competição.
Entre os conteúdos de maior repercussão está uma cronologia publicada por Cai sobre a pressão exercida por Donald Trump para tentar reverter o cartão vermelho recebido por Folarin Balogun, permitindo que o atacante atuasse pelos Estados Unidos diante da Bélgica.
O movimento também alcançou outras editoras. A Vanity Fair lançou sua primeira edição global dedicada ao esporte, reunindo atletas na capa e reportagens sobre diferentes modalidades. Com a realização da Copa nos Estados Unidos, o tema ganhou espaço permanente na revista. Segundo a editora-adjunta Claire Howorth, a receptividade do público reforçou a percepção de que esse investimento poderia ter sido feito anteriormente.
Outros grupos de mídia seguiram caminho semelhante. A CNN reforçou sua equipe com jornalistas especializados em esporte, enquanto a revista New York destacou o armador Jalen Brunson, campeão da NBA pelo New York Knicks, em sua capa. Já a The Atlantic passou a financiar apostas esportivas como ferramenta para determinadas reportagens.
A Time criou uma categoria voltada ao reconhecimento de personalidades influentes do esporte, enquanto a The New Yorker publicou duas capas dedicadas ao New York Knicks durante as finais da NBA, edições que rapidamente passaram a ser tratadas como itens de coleção.
O fortalecimento da cobertura esportiva acontece em um momento de transformação no mercado editorial. Com a redução de audiência dos portais de notícias e o impacto dos resumos produzidos por inteligência artificial nos mecanismos de busca, empresas de mídia passaram a enxergar o esporte como uma das áreas com maior potencial de retenção de leitores.
Dados da Similarweb mostram que, nos últimos 12 meses, sites especializados em esporte registraram queda de apenas 2,8% nas visitas, enquanto os portais de notícias em geral recuaram 16,7%. Para analistas do setor, o fluxo constante de eventos, competições e notícias faz do esporte um segmento menos suscetível à perda de tráfego provocada pelas novas ferramentas de IA.
A tendência deve continuar nos próximos anos. A Politico já contratou um jornalista baseado em Los Angeles para acompanhar a preparação para os Jogos Olímpicos de 2028, enquanto a Copa do Mundo Feminina de 2031, que será disputada nos Estados Unidos e no México, também é vista como oportunidade para ampliar investimentos editoriais.
Apesar desse movimento, nem todas as empresas seguem a mesma direção. O Washington Post reduziu sua cobertura esportiva, e a revista GQ extinguiu a função de editor dedicado ao segmento, demonstrando que as estratégias continuam variando entre as publicações.





