- Maurício Maruca mira na profissionalização e no maior potencial comercial do Santos
- Candidato à presidência do clube considera o Alvinegro a equipe com maior potencial de crescimento em marketing e defende avanços no saneamento financeiro
- Maruca cita Neymar como patrimônio do clube ainda pouco explorado
O mandato de Marcelo Teixeira como presidente do Santos termina no fim de dezembro de 2026, encerrando o triênio para o qual foi eleito (2024–2026). As próximas eleições presidenciais do clube estão previstas para dezembro, e o empresário Maurício Maruca aparece novamente como candidato de oposição, repetindo a participação no pleito anterior.
Em entrevista exclusiva ao MKTEsportivo, Maruca explicou os motivos que o levaram a colocar novamente seu nome na disputa e apresentou algumas das prioridades para uma eventual gestão. Entre os pontos abordados estão o saneamento financeiro, a profissionalização dos processos internos, uma possível Sociedade Anônima do Futebol (SAF), a ampliação das receitas comerciais e a utilização do potencial internacional da marca Santos.
“O que me levou a entrar nessa disputa, desde a eleição passada, foi a indignação com o que fizeram no clube nos últimos anos. Você passa uma vida trabalhando, fazendo o possível para ser profissional, montando uma equipe profissional, e vê o clube do coração, que você cresceu acompanhando, passar por uma série de problemas. Falei: eu tenho que tentar. Minha vida de empresário praticamente já terminou, estou apenas encerrando essa trajetória. Então pensei: por que não colocar o que aprendi a serviço do clube? Quero levar para dentro do Santos o profissionalismo que, na minha visão, não existe hoje”, afirmou Maruca.
Candidato defende SAF com processo de concorrência
A proposta de profissionalização defendida pelo candidato também se relaciona à sua posição sobre uma eventual SAF. Maruca afirmou ser favorável ao modelo, mas fez ressalvas à operação apresentada pela SDC Sports. A estrutura discutida prevê que o grupo norte-americano fique com 80% da futura SAF, enquanto o clube associativo manteria os outros 20%. O investimento para a aquisição da participação majoritária pode chegar a R$ 1 bilhão, enquanto a nova empresa também assumiria aproximadamente R$ 1 bilhão em dívidas atualmente vinculadas ao Santos.
Para que esse modelo seja viabilizado, entretanto, seria necessária uma alteração no estatuto do clube, que atualmente estabelece limites para a participação de investidores privados. A mudança precisaria passar pelas instâncias internas e, posteriormente, pelos associados.
Maruca afirmou que sua principal ressalva está relacionada ao processo de escolha do investidor. Para ele, o Santos deveria primeiro estruturar sua própria SAF e, somente depois, abrir uma concorrência internacional para receber propostas de diferentes grupos.
“Primeiro, eu não conheço a SDC Sports, porque acho que quase ninguém conhece. É uma empresa formada recentemente, o que não significa, por si só, que haja algum problema. Mas isso vai totalmente contra o que acredito ser uma SAF séria para um clube. Eu defendo a SAF desde que ela surgiu e acredito que ela precisa ser feita com muito critério e profissionalismo”, disse.
Na visão do candidato, a condução deveria partir do próprio Santos, mantendo inicialmente o controle integral da estrutura e avaliando posteriormente a entrada de investidores.
“Você cria uma SAF, faz um novo CNPJ e estrutura essa empresa dentro da legislação. Paralelamente, equilibra o clube e corrige seus problemas. Quando a SAF estiver pronta, ela pertence 100% ao Santos. Depois, com a estrutura organizada, sócios, torcedores e Conselho podem decidir se vale a pena buscar investidores. A partir daí, abre-se uma concorrência internacional para que as empresas apresentem propostas. O Santos precisa ter o controle desse processo sempre”, completou.
A defesa de um processo mais estruturado para uma eventual SAF está diretamente ligada à proposta de Maruca para a gestão financeira da agremiação. O candidato afirma que pretende estabelecer métodos permanentes de administração e colocar profissionais especializados à frente de áreas estratégicas.
Braço-direito de Paulo Nobre e expansão comercial
Entre os nomes que podem integrar sua equipe está Luciano Paciello, diretor financeiro do Palmeiras entre 2013 e 2018 e profissional que participou da reestruturação financeira do clube durante a gestão de Paulo Nobre. Maruca afirma que o executivo seria responsável por ajudar a implementar uma nova estrutura de gestão financeira no Santos.
Para o candidato, a reorganização interna deve servir de base para uma estratégia de crescimento comercial e de marketing, especialmente diante do potencial que atribui à marca Santos fora do Brasil.
“Eu considero o Santos o clube com maior potencial de crescimento em termos de marketing, principalmente fora do Brasil. Você pergunta para qualquer pessoa no exterior quais clubes brasileiros conhece e, invariavelmente, o Santos aparece. Um dia falam Corinthians, outro Palmeiras, mas o Santos está sempre entre os nomes. E isso nunca foi aproveitado”, afirmou.
Maruca defende que a mudança passe pela contratação de profissionais especializados e pela criação de métodos que permaneçam no clube independentemente da troca de dirigentes.
“É preciso profissionalizar o clube, trazer dirigentes de ponta, contratados, e ter uma equipe de marketing de alto nível, começando pelo saneamento. Também é necessária uma mudança de postura e, principalmente, de métodos de gestão. É preciso instalar processos que se tornem permanentes, independentemente de quem esteja na presidência”, explicou.
Dentro dessa proposta, o candidato citou Paciello como um dos profissionais que podem participar da transformação da estrutura financeira do Santos. Segundo Maruca, o executivo possui experiência na implantação de processos de gestão no Palmeiras.
“Além de ser um grande amigo, ele é, na minha opinião, um dos profissionais mais respeitados no futebol brasileiro na área financeira. Foi o braço direito de Paulo Nobre no Palmeiras e instalou métodos que permanecem até hoje. É um profissional de alto gabarito e afastado de discussões políticas”, afirmou.
“Foi um dos principais motivos para eu pedir que ele me acompanhasse. Ele entendeu que o Santos é um projeto que precisa ter sucesso, e, para um profissional desse nível, buscar o sucesso é uma constante. A equipe dele também segue esse mesmo nível”, completou.
Neymar: a necessidade de transformar ativos em oportunidades comerciais
A discussão sobre crescimento comercial também levou Maruca a falar sobre Neymar, que possui contrato com o Santos até o fim de 2026. O candidato considera o atacante um dos patrimônios do clube, mas entende que a instituição não conseguiu explorar adequadamente a presença do jogador desde seu retorno.
Para Maruca, o planejamento sobre Neymar precisa considerar tanto a relação do atleta com o Santos quanto os interesses da própria instituição.
“O Neymar é um dos maiores patrimônios do clube. Tem uma carreira de extremo sucesso e voltou porque gosta do Santos, dando ao clube a oportunidade de aproveitar muito a presença dele, mas isso não foi feito da maneira correta. O clube poderia ter colhido muitos frutos com a permanência do Neymar. Isso também é consequência do amadorismo que mencionei no começo”, disse.
O candidato comparou a situação à utilização de um ingrediente sem a estrutura necessária para aproveitá-lo.
“Se você tem um ingrediente para fazer um bolo maravilhoso, mas não sabe usar a batedeira, não vai fazer o bolo da maneira certa. O Neymar é isso. Precisamos sentar com ele e entender o que pode ser feito, mas sempre colocando o Santos em primeiro lugar. Sou santista demais para não pensar assim, embora também seja fã dele”, acrescentou.
A estratégia de recuperar a capacidade comercial do clube também aparece diante da saída recente de cinco parceiros – Pley by Ney, EQR, Nissei, Álamo e Corpx. Para Maruca, a perda de patrocinadores e parceiros está relacionada à necessidade de reconstruir a credibilidade do Santos no mercado.
Foco na recuperação da imagem do Santos
O candidato afirma que o primeiro passo de uma eventual gestão seria organizar as finanças e recuperar a percepção do clube perante empresas e investidores. Segundo ele, a relação comercial precisa ser sustentada por uma instituição capaz de cumprir seus compromissos.
“Primeiro, é preciso iniciar imediatamente o saneamento do clube. Depois, fazer um trabalho forte de recuperação da imagem no mercado. Hoje, o Santos tem uma imagem extremamente desgastada. Quando você vai ao mercado de futebol ou financeiro, ouve que o clube tem um grande nome e um grande passado, mas que atualmente enfrenta dificuldades até para cumprir seus compromissos”, afirmou.
Para Maruca, a recuperação da credibilidade é condição para que o Santos volte a ampliar sua capacidade de geração de receitas e atração de parceiros.
“Esse trabalho de recuperação da credibilidade será muito forte. No fim, isso significa honrar os compromissos. Se você não recupera a credibilidade do clube, não consegue fazer todo o resto”, pontuou.
A mesma lógica de planejamento defendida pelo candidato aparece quando o assunto é a Vila Belmiro. Maruca afirma que pretende manter o estádio como parte da estrutura do Santos, defendendo uma modernização sem a demolição do local, ao mesmo tempo em que propõe ampliar a presença do clube em partidas realizadas na capital paulista.
A nova Vila Belmiro
Antes de definir qualquer posição sobre os termos discutidos com a WTorre para a nova Vila Belmiro, Maruca afirma que pretende conhecer integralmente o contrato existente. Para ele, a transparência sobre os acordos do clube deve ser uma premissa de gestão.
“Quem conhece o contrato da WTorre? Garanto que ninguém da imprensa conhece, e eu também não. Ele é fechado a sete chaves, e não sei por quê. Sempre falo que o Santos precisa ter transparência, mas isso nunca existiu de maneira suficiente. Primeiro, quero saber o que está nesse contrato e o que está amarrando o Santos. Não estou dizendo que vou rompê-lo, quero apenas conhecer o que está ali”, disse.
Maruca também defendeu a preservação da Vila Belmiro, que considera parte da história do futebol e da identidade do Santos. Ao mesmo tempo, entende que o clube pode utilizar estádios da capital paulista com maior frequência para ampliar receitas.
“A Vila Belmiro é um monumento ao futebol e precisa ser respeitada. Ela deve ser modernizada na medida do possível, mas eu não demoliria a Vila por motivo nenhum. Ela faz parte da história do clube. Ao mesmo tempo, o Santos precisa jogar mais vezes em São Paulo. Com planejamento, acordos e vontade, é possível fazer isso e aumentar o faturamento”, acrescentou.
A proposta, segundo o candidato, não representa uma substituição da Vila Belmiro, mas uma estratégia para ampliar a presença do Santos em outros mercados. Maruca afirma que o planejamento deve começar antes da temporada, com negociações e definição antecipada do calendário.
“Se entrarmos no clube, vamos jogar muito mais em São Paulo e continuar jogando na Vila. O Santos não é apenas de Santos. Essa foi uma das maiores limitações que criaram. O Santos é do mundo e não pode ser limitado por interesses políticos”, concluiu o empresário.





