- A Fifa desistiu da proposta de vender até 20% de seus direitos comerciais após enfrentar forte resistência de confederações como Uefa, Concacaf e AFC.
- Apesar do recuo, a crise política se intensificou, e a Uefa já articula um voto de desconfiança para tentar retirar Gianni Infantino da presidência antes da eleição de 2027.
- Enquanto a Fifa promete retomar o diálogo com as federações, a Uefa defende financiar o desenvolvimento do futebol utilizando as reservas da entidade.
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, oficializou a retirada da proposta que previa a venda de até 20% dos direitos comerciais das principais competições organizadas pela entidade, entre elas as Copas do Mundo Masculina e Feminina e a Copa do Mundo de Clubes. A decisão representa um recuo diante da resistência de parte significativa do futebol internacional, especialmente da Uefa, da Concacaf e da Confederação Asiática de Futebol (AFC).
Embora o projeto tenha sido encerrado, a controvérsia provocada pela iniciativa abriu uma crise política dentro da entidade. A possibilidade de comercializar ativos estratégicos da Fifa para investidores privados, incluindo grupos ligados à família do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, levou federações europeias a unificarem posições e iniciarem um movimento para retirar Infantino do comando da instituição antes da eleição presidencial prevista para 2027.
A proposta era conduzida por meio da Fifa Forward Enterprise (FFE), subsidiária criada para administrar ativos comerciais da entidade. O plano previa levantar bilhões de dólares com a venda de participações a fundos de investimento e prometia redistribuir até US$ 10 bilhões às 211 federações filiadas, incluindo um pagamento inicial de US$ 20 milhões para cada associação participante.
Sem apoio suficiente entre as confederações continentais, no entanto, o projeto perdeu viabilidade política e acabou sendo abandonado.
Em comunicado, Infantino reconheceu que a iniciativa deixou de cumprir seu propósito inicial ao provocar divisões entre os membros da entidade.
“Após ouvir atentamente todas as opiniões, ficou claro que o projeto criou divisões de uma natureza que, independentemente do nível de apoio, já não servem ao objetivo inicialmente proposto”, destacou.
O dirigente afirmou ainda que a missão da Fifa permanece inalterada.
“O nosso propósito sempre foi – e sempre será – unir e melhorar. Consequentemente, esta proposta não prosseguir”, completou.
Como próximo passo, Infantino informou que pretende promover reuniões com representantes do futebol mundial “nos próximos dias e semanas”, buscando reconstruir o diálogo.
A repercussão do caso também provocou mudanças internas na administração da entidade. Carlos Cordeiro, assessor especial da presidência, deixou o cargo em protesto contra a proposta. Já Kevin Lamour, diretor de operações da Fifa, criticou publicamente a condução do processo, afirmando que o projeto avançou sem consultas adequadas a funcionários e parceiros relevantes da organização.
Na Oceania, a Federação Australiana de Futebol (FA) avaliou que o episódio reforça a importância dos mecanismos institucionais de governança. O presidente da entidade, Anter Isaac, afirmou que decisões dessa dimensão precisam ser construídas coletivamente.
“As discussões dos últimos dias reforçaram um princípio importante da boa governança: propostas de relevância global devem ser desenvolvidas por meio de consultas robustas, processos de governança adequados e um engajamento significativo com as associações”, comentou Isaac.
Segundo Isaac, princípios como independência, transparência e respeito aos processos institucionais são indispensáveis para a sustentabilidade do esporte.
“Esses não são entraves ao progresso. São eles que tornam possível o progresso duradouro. Em última análise, a força das instituições do futebol depende da confiança da família global do futebol”, acrescentou.
O dirigente acrescentou que essa confiança é resultado tanto das decisões tomadas quanto da forma como elas são construídas.
Posicionamento semelhante foi adotado pelo presidente da Confederação Asiática de Futebol, xeque Salman bin Ebrahim Al-Khalifa, que reforçou a necessidade de respeitar os mecanismos institucionais antes de mudanças estruturais.
“O futuro do futebol mundial deve sempre ser moldado por meio de consultas adequadas, diálogo coletivo e respeito pelas estruturas de governança estabelecidas em nosso esporte”, enfatizou Salman bin Ebrahim Al-Khalifa.
Apesar da retirada definitiva da proposta, a Uefa considera que a crise não está encerrada. A entidade e suas 55 associações filiadas iniciaram articulações para apresentar um voto formal de desconfiança contra Infantino.
Pelas regras internas da Fifa, o procedimento pode ser convocado mediante o apoio de 43 associações nacionais. Entre os apoiadores está a Federação Inglesa de Futebol (FA), que defendeu uma ampla revisão na estrutura de liderança da entidade.
Em outro comunicado, a Uefa afirmou que a atual gestão se distanciou dos compromissos assumidos por Infantino quando assumiu a presidência da Fifa, em 2016, especialmente no que diz respeito à transparência e ao uso dos recursos em benefício do desenvolvimento do futebol.
A entidade europeia também anunciou que utilizará os “próximos dias e semanas” para desenvolver propostas alternativas de financiamento ao programa Fifa Forward, utilizando as reservas financeiras já existentes da Fifa, sem recorrer à venda de ativos comerciais.
A proposta da Uefa é utilizar parte dos recursos acumulados pela Fifa para ampliar os investimentos no futebol de base e nas associações nacionais, preservando o controle dos ativos comerciais da entidade.
A confederação também criticou diretamente a ideia de vender participações em ativos considerados estratégicos para o futebol mundial.
Ao encerrar sua manifestação, a entidade classificou o recuo da Fifa como apenas o primeiro passo para uma mudança mais ampla na governança da organização.





