- Uefa, AFC e Concacaf formaram uma frente conjunta pela renúncia de Gianni Infantino após a crise envolvendo o projeto Football Forward Enterprise (FFE).
- As entidades contestam a atuação do presidente e a resposta dada pela Fifa ao episódio, além de cobrarem uma investigação independente sobre o caso.
- A disputa já alcança o calendário esportivo, com discussões preliminares sobre competições alternativas, enquanto Conmebol e CAF mantêm apoio à atual gestão.
Dirigentes das três confederações atribuem a ruptura ao episódio envolvendo a Football Forward Enterprise (FFE), projeto que previa a negociação de 21% dos direitos comerciais do futebol com investidores privados ligados ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A pressão sobre Infantino também recebeu apoio de Lise Klaveness, presidente da Federação Norueguesa de Futebol, e Javier Tebas, presidente da LaLiga, enquanto Conmebol e CAF permanecem ao lado do dirigente.
A crise política envolvendo a presidência da Fifa ganhou uma nova dimensão com a atuação conjunta de três das seis confederações continentais. Uefa, AFC e Concacaf passaram a pedir formalmente a renúncia imediata de Gianni Infantino.
A posição foi apresentada em carta aberta assinada por Aleksander Ceferin, presidente da Uefa, xeque Salman bin Ibrahim Al Khalifa, presidente da AFC, e Victor Montagliani, presidente da Concacaf.
No documento, os dirigentes afirmam que a relação de confiança com o presidente da Fifa foi rompida e questionam a maneira como a entidade conduziu o projeto Football Forward Enterprise.
A FFE previa a criação de uma estrutura responsável por ativos comerciais do futebol e incluía a possibilidade de venda de 21% dos direitos a investidores ligados ao presidente norte-americano Donald Trump.
Para as três confederações, o problema ultrapassa a condução administrativa da proposta. Os dirigentes sustentam que houve uma falha de julgamento na própria tentativa de abrir participação sobre ativos comerciais vinculados à Copa do Mundo.
“Liderança no futebol não é uma posse. Não se trata de deter – ou exigir – poder. É um dever de serviço à família do futebol que o confia”, afirmaram os presidentes na carta.
Na sequência, o documento relaciona diretamente a permanência em uma posição de liderança à confiança das instituições representadas.
“Quando a confiança é quebrada por meio do engano, quando um indivíduo se coloca acima do coletivo que lhe confiou autoridade, esse dever foi abandonado”, acrescentaram.
Resposta da Fifa é contestada
Outro ponto de conflito está na forma como a Fifa tratou internamente o episódio. A interpretação de que os problemas envolvendo a FFE decorreram de uma falha de comunicação foi rejeitada pelas três confederações.
Para Uefa, AFC e Concacaf, o caso precisa ser analisado sob a perspectiva das decisões tomadas durante o processo, e não somente pela maneira como a proposta foi apresentada às entidades do futebol.
“[A Fifa] trata isso como uma falha de comunicação, quando o que o futebol testemunhou foi uma falha de julgamento”, diz outro trecho da carta.
As confederações também solicitaram que qualquer investigação sobre o episódio seja conduzida por uma parte independente e sem vínculos com os envolvidos.
Ao mesmo tempo, a aliança afirmou que o conflito institucional não deverá interromper os repasses financeiros destinados às associações nacionais. Os dirigentes também defenderam a manutenção das decisões de calendário e expansão de competições que já tenham sido aprovadas coletivamente.
O movimento pode produzir consequências além da disputa política pela presidência da Fifa. As três confederações iniciaram conversas preliminares sobre a possibilidade de organizar novas competições caso seja mantido o boicote institucional aos torneios promovidos pela entidade internacional.
Entre os eventos potencialmente afetados está a Copa do Mundo Feminina Sub-20, prevista para setembro, na Polônia.
A discussão representa uma nova etapa da crise ao levar o impasse entre dirigentes para o calendário esportivo. Uefa, AFC e Concacaf representam conjuntamente uma parcela relevante das seleções, mercados e receitas do futebol internacional.
Pressão recebe novos apoios
O pedido pela saída de Infantino também passou a contar com manifestações individuais de dirigentes do futebol europeu.
Lise Klaveness, presidente da Federação Norueguesa de Futebol, defendeu publicamente a renúncia e afirmou que o dirigente já não reúne as condições institucionais necessárias para permanecer à frente da entidade.
“Ele não tem a confiança institucional necessária para governar a Fifa de forma estável nos tempos em que vivemos. Não há volta para Gianni Infantino”, afirmou.
Javier Tebas, presidente da LaLiga e crítico recorrente das políticas da Fifa, também se posicionou favoravelmente à saída.
Em entrevista ao jornal francês Le Monde, Tebas afirmou que suas divergências com a gestão de Infantino antecedem a crise atual e estão relacionadas, entre outros aspectos, aos impactos das decisões da Fifa sobre as competições nacionais.
“Para mim, o tempo de Gianni Infantino já passou há muito tempo. Não digo isso por causa dos acontecimentos recentes; venho observando esse estilo de gestão há muito tempo, embora pareça que todos só estejam se dando conta disso agora”, declarou.
Fifa reage às acusações
A Fifa, por sua vez, rejeitou as críticas e classificou os movimentos contra Infantino como parte de uma tentativa de enfraquecer a instituição e sua atual administração.
Em manifestações oficiais, a entidade afirmou que algumas das acusações divulgadas recentemente não possuem fundamento e disse que continuará respondendo a informações que considere incorretas ou enganosas.
“A Fifa acolhe com satisfação o escrutínio legítimo. Mas o escrutínio não é uma licença para distorcer os fatos, amplificar acusações sem fundamento ou criar distrações destinadas a minar o progresso. Quando as notícias forem imprecisas ou enganosas, a Fifa irá contestá-las direta e vigorosamente”, declarou.
A entidade também sustenta que as mudanças promovidas durante a atual administração podem contrariar interesses estabelecidos, mas defende a regularidade de seus procedimentos.
A articulação de Uefa, AFC e Concacaf evidencia a divisão entre as principais forças políticas do futebol mundial.
Do outro lado, Conmebol e CAF mantiveram apoio formal à permanência de Infantino. Com isso, cinco das seis confederações continentais já aparecem posicionadas em campos distintos diante da crise.
O confronto ocorre ainda às vésperas de um período importante para a política da entidade. A próxima eleição presidencial da Fifa está prevista para março de 2027.





