
Federer venceu quase 80% das partidas da carreira. Mas ganhou só 54% dos pontos que jogou. Jordan errou mais de nove mil arremessos. Perdeu quase trezentos jogos. Vinte e seis vezes pegou a bola para decidir e errou. Venceu por isso, não apesar disso.
Fomos ensinados a ler o sucesso como ausência de erro. É a leitura errada. O que ninguém vê é o denominador. Vemos o pódio, o troféu, o gol. Não vemos os anos de derrota que sustentam um único momento de glória. O vencedor não acertou mais. Ele tentou mais, e continuou tentando depois de errar. No futebol isso tem preço, prazo e dono. E mesmo o dinheiro não compra o atalho.
O Abu Dhabi Group comprou o City em setembro de 2008. Bilhões, compraram os melhores do mundo, e a promessa de dominar a Inglaterra. O primeiro título da Premier League veio em maio de 2012, quatro anos depois da compra, vários técnicos demitidos, temporadas frustrantes, um projeto que parecia caro demais para o que entregava. O dinheiro comprou a possibilidade. O erro corrigido comprou o título.
No Liverpool foi mais duro ainda. O FSG assumiu em outubro de 2010, com discurso de dados e disciplina. A primeira Champions só veio em 2019, nove anos após a compra. A Premier, em 2020, encerrou trinta anos de jejum. No meio, um vice da Premier League por dois pontos, uma final de Champions perdida, técnico demitido e apostas erradas no mercado. Os próprios donos após quinze anos reconheceram os erros. Nove anos de erro assumido antes da glória. Duas potências. Capital de sobra. Anos de fracasso antes do primeiro grande título. Se dinheiro comprasse sucesso à vista, esses prazos não existiriam.
O erro não é o fim do processo. O erro é o processo. Há clube que perde uma temporada e aprende. Há clube que perde e só se vitimiza. A diferença quase nunca está no talento, nem no caixa. Está na leitura que se faz do próprio fracasso. Por isso insisto em gestão, e não em salvação. A SAF não é milagre. Reconstruir um clube não é uma contratação genial nem uma tacada de marketing. É refazer. Errar planejamento, corrigir, errar de novo um pouco menos, corrigir outra vez, e sustentar o ciclo enquanto todo mundo à volta quer resultado imediato.
Se City e Liverpool precisaram de anos, quem tem menos precisa de mais método e mais paciência. E aqui a parte desconfortável, diretoria erra. O investidor erra. Eu erro. O que separa quem constrói de quem só passa pelo clube não é a quantidade de acertos. É olhar o próprio erro sem terceirizar a culpa, tirar dali a informação, e voltar ao trabalho no dia seguinte.
É o que Federer ensina com os seus 54%. Você vai perder quase metade dos pontos. Vai perder contratações, campanhas, temporadas, apostas. O jogo não é sobre não perder o gol. É sobre não levar o gol perdido para o próximo chute. Vence quem transforma erro em processo. Vence quem aceita o fracasso como parte do preço e recusa a única decisão que torna a derrota permanente, que é desistir.
O talento distribui os pontos. A persistência decide o jogo.





