
As bets se tornaram uma das principais fontes de financiamento do futebol brasileiro. Em 2025, 18 dos 20 clubes da Série A tinham uma casa de apostas como patrocinador máster, movimentando cerca de R$ 1,1 bilhão por temporada. Em 2026 houve uma redução, mas o setor continua ocupando espaço central no financiamento dos clubes. Só Corinthians, Palmeiras e São Paulo recebem aproximadamente R$ 350 milhões por ano em seus patrocínios máster ligados às bets.
Portanto, quando discutimos proibir sua publicidade e seus patrocínios, não estamos falando apenas de apostas. Estamos falando também de futebol. O problema das apostas existe e precisa ser enfrentado. Crianças e adolescentes devem ser protegidos. Educação e informação são fundamentais. Propaganda enganosa precisa ser combatida, limites precisam existir e pessoas que desenvolvem comportamento compulsivo precisam encontrar mecanismos de proteção e tratamento. A indústria também tem responsabilidade nisso. Mas proteger crianças e informar adultos é muito diferente de decidir por adultos e pelos pais dessas crianças.
O indivíduo é dono de si mesmo e deve ser livre para tomar suas decisões, desde que não viole o direito de terceiros. Inclusive decisões das quais nós discordamos. Um adulto pode gastar R$ 100 num jantar, numa camisa do seu clube, numa garrafa de vinho ou numa aposta. Podemos achar algumas dessas escolhas boas e outras péssimas. Mas quem deve decidir o que ele faz com seu dinheiro?
Essa discussão ganha outra dimensão quando chega ao futebol. Patrocínio é publicidade. Quando uma bet coloca sua marca numa camisa, numa placa, numa transmissão ou numa competição, existe uma relação comercial voluntária que financia toda uma indústria. Proibir essa exposição significa retirar uma fonte relevante de recursos do esporte. Hoje existem propostas do estado brasileiro que vão justamente nessa direção, proibindo patrocínios de bets a clubes, federações, ligas, competições e transmissões.
Antes de simplesmente acabar com tudo isso, precisamos discutir quem substituirá esse dinheiro. E não são apenas os grandes clubes. Existe uma cadeia inteira formada por clubes menores, competições, federações, emissoras, plataformas, profissionais e milhares de empregos que dependem, direta ou indiretamente, da capacidade do futebol de gerar receita comercial.
Por isso, acredito que o caminho deveria ser outro: regulamentar, fiscalizar, educar e proteger principalmente crianças e vulneráveis. Exigir comunicação responsável. Punir abusos. Combater manipulação de resultados com absoluto rigor. Ensinar desde cedo que aposta é entretenimento, não investimento nem forma de enriquecimento. Mas simplesmente proibir não resolve a questão. O futebol brasileiro precisa discutir seriamente os excessos das bets e sua responsabilidade social.
O que não deveria fazer é aceitar que a solução para todo problema seja eliminar aquilo que pode ser regulado, fiscalizado e utilizado de maneira responsável. Proteger crianças é obrigação de todos nós e de seus pais. Educar e informar também. Adultos, porém, precisam continuar responsáveis pelas próprias escolhas. Porque uma sociedade responsável não é aquela em que alguém decide tudo por você. É aquela que lhe dá informação, estabelece regras claras, pune quem as viola e permite que você arque com as consequências das suas próprias decisões.





