Aposta Esportiva

Cuiabá nunca fechou com bets, mas proibição também pode impactar receitas do clube

MP assinada por Lula atinge uma cadeia que inclui clubes, competições e empresas de mídia

28 de setembro de 2026

5 minutos de Leitura

A medida provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira (25) colocou os clubes brasileiros diante da perspectiva de perder uma das principais fontes de investimento privado dos últimos anos. No caso do Cuiabá, porém, a relação com esse mercado tem uma característica particular. Segundo o presidente Cristiano Dresch, o clube nunca fechou um contrato de patrocínio com uma empresa de apostas.

Isso não significa que o Cuiabá esteja isolado dos efeitos econômicos provocados pela saída das bets do mercado brasileiro.

Apesar do clube não possuir um contrato próprio com uma casa de apostas a ser encerrado, ele participa de competições, negociações comerciais e contratos de mídia inseridos em uma cadeia que recebeu investimentos relevantes dessas empresas nos últimos anos.

A MP nº 1.394 proíbe a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa em território nacional, incluindo apostas esportivas e jogos on-line. As empresas têm até 5 de outubro para retirar materiais publicitários e de patrocínio, enquanto sites e aplicativos deverão sair do ar a partir do dia seguinte.

Cuiabá nunca teve patrocínio de uma bet

A posição do clube antecede a decisão do governo federal. Em agosto deste ano, Dresch afirmou que o Cuiabá nunca havia firmado um acordo comercial com empresas do segmento e relatou que patrocinadores do clube já haviam estabelecido, anteriormente, restrições à associação com casas de apostas.

A política foi mantida durante a expansão das bets no futebol brasileiro, inclusive nos anos em que o Cuiabá disputou a Série A e esteve inserido no mesmo ambiente comercial dos clubes que passaram a destinar algumas de suas propriedades mais valiosas às empresas do setor.

O Cuiabá está há quase dois anos sem um patrocinador máster fixo na parte frontal da camisa. No segundo turno da Série B, o clube passou a utilizar o espaço para a marca “Movido a Etanol”, em uma iniciativa relacionada ao biocombustível produzido em Mato Grosso e à aproximação com o agronegócio.

Dresch afirmou ao ge que o modelo financeiro do clube está sustentado por receitas de televisão, outros contratos de patrocínio e negociações de jogadores. Para 2026, o presidente projetou R$ 30 milhões em caixa provenientes da venda de atletas.

Posição já havia colocado Cuiabá em direção diferente de outros clubes

Quatro dias antes da publicação da MP, o Cuiabá havia reafirmado publicamente sua posição em meio à mobilização de parte do futebol brasileiro contra possíveis restrições às bets.

Flamengo, Palmeiras, São Paulo, Santos, Botafogo, Fluminense, Vasco e Cruzeiro, além das federações Paulista e do Rio de Janeiro, haviam divulgado um manifesto defendendo a manutenção do mercado regulamentado. Os signatários argumentavam que os recursos das empresas de apostas alcançavam clubes de diferentes tamanhos, divisões inferiores e competições com menor exposição comercial. Globo Esporte

Na ocasião, o Cuiabá não acompanhou o movimento. Procurado pelo ge, Dresch reafirmou a decisão de não trabalhar comercialmente com o segmento e apresentou as receitas de televisão, patrocínios e transferências de jogadores como bases do orçamento do clube. O debate naquele momento ainda tratava de uma possível restrição concentrada nos jogos on-line. O texto efetivamente publicado pelo governo foi mais amplo e incluiu também as apostas sobre eventos esportivos reais.

Impacto vai além das camisas dos clubes

A consequência financeira para o futebol não se limita aos contratos de patrocínio máster. Antes da publicação da MP, clubes e federações argumentavam que os investimentos das operadoras estavam distribuídos por diferentes níveis da indústria esportiva.

As empresas de apostas também se transformaram em grandes anunciantes dos veículos responsáveis pelas transmissões esportivas. O setor investiu cerca de R$ 1,4 bilhão em publicidade em 2025. Já TVs e plataformas de streaming recebiam até R$ 2,3 bilhões anuais em publicidade de apostas.

Esse fluxo torna mais ampla a discussão sobre os efeitos da proibição. Direitos de transmissão, distribuição de receitas de competições e premiações fazem parte de um ecossistema comercial que envolve emissoras, plataformas, patrocinadores, federações e organizadores de campeonatos. A ausência de um contrato direto com uma bet não permite concluir que um clube ficará imune às consequências econômicas da saída dessas empresas.

No caso do Cuiabá, a diferença objetiva está na exposição direta. Não há uma receita de patrocínio de bet em seu orçamento nem uma marca do segmento em sua camisa que precise ser substituída. Os eventuais efeitos indiretos dependerão de como a retirada desse capital afetará contratos de mídia, competições e outras fontes de recursos compartilhadas pelo futebol brasileiro.

MP determina retirada dos patrocínios

O texto assinado por Lula produz efeitos imediatos e estabelece um cronograma para o encerramento das operações. Desde a última sexta-feira (25), as plataformas estão impedidas de receber novos aportes.

Os apostadores poderão solicitar a retirada voluntária dos saldos até 5 de outubro, e os sites e aplicativos deverão sair do ar em 6 de outubro.

Até a edição da MP, o governo havia concedido 85 outorgas para exploração de apostas de quota fixa, cada uma no valor de R$ 30 milhões, totalizando R$ 2,55 bilhões. A medida provisória precisa ser analisada pelo Congresso Nacional e pode vigorar por até 120 dias enquanto tramita no Legislativo.

Paralelamente, o governo encaminhará um projeto de lei para criar crimes específicos relacionados à exploração e divulgação das apostas de quota fixa.

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