Coluna

O esporte não pode pagar a conta da segurança pública

Redução prevista na PEC da Segurança Pública ameaça recursos que sustentam uma cadeia que começa nas escolas, passa pelos clubes e projetos de formação e chega ao alto rendimento brasileiro

Foto: Pedro Reis / SRI-PR

01 de setembro de 2026

4 minutos de Leitura

Fellipe Drommond
Fellipe Drommond
CEO do Grupo TFW, Owner do Magnus Futsal e Presidente da LNF - Liga Nacional de Futsal

Quero começar esse texto com uma cena simples: uma quadra de escola, bola batendo na parede, um professor de educação física apitando o fim do intervalo enquanto um bando de crianças não quer sair de quadra. Essa cena se repete todos os dias, em milhares de escolas Brasil afora, quase sempre com a mesma bola: a de futsal. Levantamentos e estudos apontam o futsal como a modalidade mais praticada e mais popular dentro das escolas brasileiras, simples de organizar, barata de manter, cabe em qualquer espaço. Para milhões de crianças, é a primeira porta de entrada para o esporte.

É dessa cena que nasce tudo o que depois vemos nos grandes palcos. Um Falcão, uma Amandinha, um Ricardinho não existiriam sem uma quadra de escola antes. O alto rendimento não existe sem a base. Ele é, na verdade, o espelho dela, o resultado visível de anos de investimento silencioso em quadra de escola, projeto social, categoria de base e seleção estadual. Quando comemoramos uma medalha olímpica ou um título mundial, estamos comemorando, sem perceber, o resultado de um sistema que começou décadas antes, com uma criança e uma bola.

E é exatamente esse sistema que está sob ameaça agora, no Senado.

A PEC da Segurança Pública, já aprovada na Câmara dos Deputados, tem votação marcada na CCJ do Senado para amanhã, quarta-feira, dia 2 de setembro. O texto propõe reduzir de 12% para 8,4% a fatia da arrecadação das apostas esportivas destinada ao esporte brasileiro. Uma redução de 30% que pode tirar cerca de R$ 500 milhões por ano do Conselho Nacional dos Comitês Esportivos (CNCE), que reúne COB, CBC – Comitê Brasileiro de Clubes, Comitê Paralímpico Brasileiro, Confederação Brasileira do Desporto Escolar e Confederação Brasileira do Desporto Universitário. Segundo o próprio COB, só a entidade pode perder algo entre R$ 30 e R$40 milhões por ano, o equivalente à soma dos orçamentos hoje destinados ao judô e ao vôlei, dois esportes que mais conquistaram medalhas olímpicas para o Brasil.

Como alguém que vive o  dia a dia do Futsal, obviamente retrato o cenário da nossa modalidade, mas o prejuízo será em toda a cadeia esportiva e hoje ainda é imensurável o impacto que poderá causar no futuro breve do esporte brasileiro e quanto jovens que não mais terão a oportunidade de ingressar em projetos esportivos e seguirão vulneráveis em periferias para serem integrados ao crime organizado.

O Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), parceiro da LNF desde 2024, investiu mais de R$ 8 milhões no futsal somente em 2025, neste ano os investimentos já passam de R$ 6 milhões em benefícios diretos aos clubes da LNF, boa parte disso viabilizando passagens aéreas para que times de estados como Maranhão, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Mato Grosso pudessem viajar, competir em condições iguais aos clubes do eixo Sudeste e Sul do país. Sem esse tipo de suporte, é o clube pequeno, do interior, que fica pelo caminho primeiro e é justamente esse clube que garante que o esporte mais praticado nas escolas do Brasil siga sendo, também, um caminho real de ascensão para quem nasce longe dos grandes centros.

E tem mais um elo nessa corrente: o próprio COB acaba de confirmar o retorno do futsal aos Jogos da Juventude Caixa 2026, em outubro, em Foz do Iguaçu. Competição que deve reunir cerca de 2 milhões de jovens em todo o país. É a ponta final de uma cadeia que começa na quadra da escola, passa pelo clube de formação, pelo apoio de entidades como o CBC, e termina no maior evento esportivo estudantil do Brasil. Cortar recursos do esporte é cortar essa cadeia em algum elo e nunca sabemos exatamente em qual criança, em qual cidade, o efeito vai aparecer primeiro.

Hoje, em Brasília, embaixadores como Lars Grael, Magic Paula, André Heller, Maurren Maggi e Emanuel Rego estão ao lado de dirigentes do COB e do CBC pedindo que os senadores repensem esse trecho da PEC. Marco La Porta, presidente do COB, resumiu bem: “O esporte não é contra a PEC da Segurança, só não faz sentido que a segurança pública do país seja financiada tirando dinheiro de quem forma os jovens brasileiros”.

Que a segurança pública seja financiada com toda a seriedade que o tema exige, mas sem tirar um centavo do que constrói todos os dias o futuro do nosso país, atuando como a principal ferramenta de transformação social do Brasil.

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