Coluna

Por que arenas modernas precisam funcionar 365 dias por ano?

Quando trabalhei com arenas e estádios, notei que a arquitetura precisa responder à operação muito antes do que se imagina

02 de setembro de 2026

7 minutos de Leitura

Luisa Rosa
Luisa Rosa
Arquiteta, gestora executiva e consultora de infraestrutura esportiva com 16 anos de experiência no esporte global. Primeira mulher Diretora de Infraestrutura da CBF e atualmente consultora da FIFA, já atuou em Rio 2016, Copa do Mundo Qatar 2022 e Los Angeles 2028.

Essa é uma pergunta que, para mim, está cada vez mais presente quando penso em infraestrutura esportiva. Durante décadas, a resposta era relativamente simples: o estádio ficava parado.

Fechado entre partidas, esperando o próximo jogo. Um ativo que custou centenas de milhões, ou até bilhões, funcionando apenas algumas dezenas de dias por ano.

Esse modelo funcionou durante muito tempo porque o esporte conseguia sustentar a operação. Os ingressos vendiam, as transmissões geravam receita e, de certa forma, ninguém questionava muito o que acontecia com o estádio nos outros dias do calendário. Mas essa conta está mudando.

E não é apenas porque os custos de construção aumentaram. É porque a própria lógica econômica de uma venue mudou. Quando falamos de arenas e estádios, a pergunta deixa de ser apenas “quantos jogos vamos receber aqui?” e passa a ser “o que acontece aqui nos outros 300 dias do ano?”.

O Intuit Dome, em Inglewood, casa do Los Angeles Clippers, custou cerca de US$ 2 bilhões e abriu em 2024. O primeiro evento da arena foi, inclusive, um show do Bruno Mars.

Desde sua abertura, a venue já recebeu mais de 100 eventos e mais de 1 milhão de fãs. Esse exemplo diz muito sobre como estamos pensando as arenas hoje. Não se trata de uma arena de basquete que também recebe shows. É uma venue de entretenimento que tem o basquete como um dos seus principais conteúdos, e essa diferença de conceito é importante.

Quando trabalhei com projetos de arenas e estádios, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi perceber que a arquitetura precisa responder à operação muito antes do que se imagina.

Não adianta pensar em um estádio multiuso apenas porque existe espaço para colocar um palco depois. Se a venue realmente quer funcionar o ano inteiro, essa possibilidade precisa estar presente desde o início: no desenho, na infraestrutura, nos acessos, nos back of house, na hospitalidade, na tecnologia e, principalmente, na logística de conversão.

É isso que vemos em alguns dos projetos mais interessantes do mundo.

O Tottenham Hotspur Stadium, em Londres, é um dos melhores exemplos. Inaugurado em 2019, o estádio foi concebido desde o início para receber diferentes tipos de eventos. O campo retrátil permite a transformação da configuração esportiva, e existe uma infraestrutura específica para receber partidas da NFL, além de shows, boxe, rugby e outros eventos.

A própria NFL participou financeiramente do desenvolvimento da infraestrutura, com uma contribuição de £ 10 milhões para o projeto, enquanto o acordo prevê jogos da liga no estádio. O resultado é uma venue que não depende exclusivamente do calendário do Tottenham.

Em 2024, o clube recebeu autorização para ampliar para até 30 o número de grandes eventos não relacionados ao futebol por ano. E o próprio Tottenham destaca, em seus resultados financeiros, o impacto das operações não relacionadas ao futebol na estratégia comercial do estádio.

Outro caso que gosto muito de observar é o Madison Square Garden. A MSG Entertainment registrou US$ 959,3 milhões de receita no ano fiscal de 2024, com aproximadamente 6,3 milhões de espectadores em mais de 960 eventos. Isso inclui jogos dos Knicks e dos Rangers, shows, eventos especiais e produções próprias.

E quando olhamos para a composição dessa receita, a lógica fica ainda mais clara: US$ 463,3 milhões vieram de ingressos e taxas de uso da venue, mas outros US$ 254,1 milhões vieram de patrocínio, sinalização, suítes e publicidade, enquanto alimentação, bebidas e merchandise representaram outros US$ 162,1 milhões. Ou seja, o evento é apenas o ponto de entrada. A experiência dentro da venue é onde várias outras oportunidades de receita acontecem.

E isso muda completamente a forma como pensamos o calendário.

Um show não é simplesmente mais uma data disponível. É uma nova audiência. Uma nova oportunidade para patrocinadores. Uma nova possibilidade de hospitalidade. Um novo comportamento de consumo.

O mesmo espaço físico pode receber um jogo de basquete na terça-feira, um show na sexta, uma conferência na semana seguinte e uma experiência de entretenimento no fim de semana. A infraestrutura é a mesma. O público, o conteúdo e o modelo de negócio mudam.

O Intuit Dome leva essa lógica ainda mais longe. A arena foi pensada para que a experiência possa ser transformada de acordo com o evento, com recursos tecnológicos, diferentes possibilidades de interação e uma infraestrutura que vai muito além da quadra.

É interessante observar como esse movimento já está deixando de ser uma característica exclusiva das grandes arenas americanas. Um relatório publicado em 2026 pela Addleshaw Goddard mostrou que clubes europeus de primeira divisão que possuem seus próprios estádios geraram, em 2025, 76% de sua receita comercial a partir de atividades não relacionadas ao matchday.

O mesmo relatório aponta o modelo de venue 365 dias como uma tendência cada vez mais presente nos novos projetos de infraestrutura esportiva. E não precisamos olhar apenas para os estádios bilionários.

No Brasil, o movimento também já é bastante claro. A Mercado Livre Arena Pacaembu é um bom exemplo de como uma venue pode ampliar sua operação para muito além do futebol. Em 2025, o complexo recebeu 146 eventos e 75,4% deles não tiveram relação com o esporte. Foram apenas nove partidas de futebol profissional durante o ano, enquanto o calendário foi preenchido por shows, eventos corporativos, cultura, lazer e outras experiências.

Outro exemplo é o Nubank Parque, em São Paulo. A arena foi concebida desde a sua inauguração, em 2014, como um espaço multiuso, combinando os jogos do Palmeiras com shows e uma programação que acontece também fora dos grandes eventos.

Hoje, além de futebol e shows, o complexo recebe lançamentos de produtos, palestras, festas, eventos corporativos, casamentos e experiências para o público. A própria operação mantém restaurantes, coworking, tour, loja, sala de troféus e outros espaços funcionando ao longo da semana.

É interessante perceber que os dois casos seguem caminhos diferentes, mas chegam a uma mesma conclusão: a sustentabilidade de uma arena não depende apenas de quantos jogos ela recebe. Depende da capacidade de transformar o espaço em um ativo que continue gerando movimento, receita e experiência mesmo quando não há uma partida acontecendo.

Esse é um dado que considero especialmente relevante, porque mostra que o conceito de 365 dias não é necessariamente sobre construir uma arena cada vez maior. É sobre entender melhor o ativo que você já tem.

Durante muito tempo, marcas compraram presença dentro do esporte principalmente pensando no jogo. Mas, se a venue funciona o ano inteiro, a marca pode estar presente em diferentes momentos, para diferentes públicos e com diferentes objetivos.

A mesma venue passa a concentrar comunidades diferentes. E isso cria uma oportunidade enorme para patrocinadores e agências. A arena deixa de ser apenas o lugar onde o esporte acontece e passa a ser um canal de comunicação, relacionamento e experiência.

Mas existe um detalhe importante nessa discussão. Não basta colocar mais eventos no calendário. Uma venue 365 dias exige uma operação 365 dias. Isso significa equipe, manutenção, segurança, limpeza, tecnologia, hospitalidade, alimentação, logística, mobilidade, gestão de resíduos e uma estrutura de back of house capaz de suportar diferentes tipos de evento com rapidez e eficiência.

É por isso que, para mim, a discussão sobre o futuro das arenas não é apenas uma discussão sobre arquitetura. É uma discussão sobre modelo de negócio.

As melhores venues do mundo entenderam isso e estão transformando seus calendários, seus espaços e seus modelos de receita para aproveitar melhor cada dia do ano.

No fim, talvez a pergunta mais importante não seja mais quantos jogos um estádio consegue receber. É quantas histórias diferentes ele consegue contar nos outros 300 dias.

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