
A pior campanha brasileira em Copas desde 1990 trouxe a formação de atletas no nosso futebol novamente ao centro do debate público. Nesse contexto, dentre as dezenas de soluções fáceis apresentadas por torcedores e jornalistas, uma das que mais vi sendo debatida foi a redução do número de atletas estrangeiros permitidos por equipe em torneios nacionais. Se o limite de estrangeiros relacionados por partida até 2022 era de cinco atletas, os clubes da elite aprovaram aumentos em 2023 e 2024 que praticamente dobraram esse número – atualmente, nove estrangeiros podem ser relacionados em partidas do Brasileirão.
O fracasso na primeira Copa nesse recente cenário de domínio estrangeiro nos gramados brasileiros, então, passa a impressão de que a decisão foi errada. Não foi, por uma série de motivos.
Antes de entrar, de fato, na discussão acerca desse limite, preciso fazer duas ponderações. Em primeiro lugar, é importante entender que uma decisão aprovada há dois anos dificilmente mudaria de forma radical o destino da Seleção na maior competição do futebol mundial. A imensa maioria dos atletas convocados concluiu sua formação muito antes dessa mudança, de forma que a decisão tomada em 2024 impacta muito pouco o cenário atual da Canarinho. Além disso, é importante enfatizar que qualquer análise sobre o processo de formação no futebol nacional baseada no resultado de uma Copa não se justifica. Ganhar a competição, ao contrário do que o mal-acostumado torcedor brasileiro acredita, é muito difícil – de 82 pra cá, nenhum país ganhou mais do que duas edições.
Voltando à questão do limite de estrangeiros, eu entendo que a defesa de um domínio brasileiro na composição dos elencos da elite nacional passa por um entendimento correto de como funciona o processo de formação de atletas. Os vinte e seis convocados, segundo esse argumento, são o resultado final de um longo funil que começa na introdução recreativa de milhões de crianças ao esporte e passa, em determinado momento, pela elite do futebol brasileiro. Já discuti essa lógica, no passado, ao discutir por que o futebol feminino nos Estados Unidos é muito mais competitivo do que o masculino. Na ocasião, expliquei que a diferença passa por uma legislação que incentiva meninas a continuarem no esporte ao longo da adolescência, visando bolsas universitárias, e desincentiva os meninos, uma vez que as bolsas para homens se concentram em outros esportes.
Em outras palavras, uma legislação que “engorda” o funil para as mulheres, mas não para os homens, resulta em títulos no feminino e irrelevância no masculino.
A lógica, assim, está correta; de fato, é importante que o funil de captação de atletas seja o mais largo possível em diversas etapas para que, em sua etapa final – os vinte e seis convocados para uma Copa – o resultado seja o mais competitivo possível. O erro fundamental na ideia de restringir a quantidade de estrangeiros por equipe, no entanto, está em não posicionar o Brasileirão na fase final desse funil de formação; pelo contrário, os defensores de uma maior restrição parecem acreditar que a elite do futebol nacional faz parte dos primeiros passos de um atleta de elite. A ideia é que, ao diminuir oportunidades na Série A, esses atletas possuem muito menos chances de chegar à elite do esporte, como se a própria Série A já não fizesse parte de uma pequena elite.
Essa diferença talvez pareça pequena, mas é fundamental que esse assunto seja discutido em profundidade nas mais diversas esferas do futebol brasileiro. As discussões (cada vez mais frequentes) sobre o fim dos estaduais, por exemplo, só existem por esse equívoco: se entende que a Série A é o meio do funil do futebol brasileiro, quando, na verdade, é o final. O futebol no Brasil cresceu e se consolidou através de uma rede de centenas de clubes locais que alimentava os clubes de elite – e, em determinado momento, clubes internacionais também. Essa rede representa (ou deveria representar) o grosso do funil do futebol brasileiro.
Nesse contexto, os recentes problemas de formação no futebol brasileiro são explicados por dois fatores principais: (i) essa rede de formação, com centenas de clubes ao redor do país, tem sido enfraquecida ano após ano; e (ii) a elite do futebol brasileiro tem encontrado dificuldade em justificar a permanência das principais revelações por mais tempo no país. Note como a restrição de estrangeiros na primeira divisão não resolve nenhum desses problemas. Pelo contrário, diminuiria ainda mais o nível do Brasileirão frente às principais ligas europeias, tornando ainda mais injustificada a permanência de qualquer atleta que desponte na adolescência.
Considerando a atual distribuição de forças do futebol mundial, o lugar do Brasil me parece claro. Devemos buscar, cada vez mais, nos consolidarmos como a principal força de clubes fora da Europa, buscando atingir um nível que justifique a permanência de atletas de elite ao longo de todo o seu processo de formação – o que não se encerra aos 18 anos. Os atletas de ponta, que normalmente chegam à Seleção, continuarão encontrando oportunidades entre os times de elite independentemente da quantidade de estrangeiros permitida. Mais importante do que garantir esse acesso, então, é garantir que o nível seja o mais alto possível ao longo desse processo de formação.
Estamos vendo avanços claros nesse sentido ao longo dos últimos anos, e vimos isso claramente nos jogos das oitavas da Libertadores e da Sul-Americana. Mirassol e Botafogo foram os únicos brasileiros eliminados por estrangeiros e, como vem se tornando rotina, o Brasil novamente registra a maior participação de um país nas quartas – serão quatro brasileiros tanto na Libertadores quanto na Sul-Americana. A discussão acerca da restrição a jogadores estrangeiros não só não resolve os problemas da Seleção, como também cria novos (ou antigos), limitando o desenvolvimento e a dominância estabelecida pelos clubes do país nos últimos anos.
Há alguns meses, discuti por aqui a ideia de diminuir a quantidade de clubes na primeira divisão, de vinte para dezoito. Na ocasião, diversos comentários me chamaram de elitista. Esse talvez seja um bom momento para endereçar essa crítica, já que a ideia é tudo menos elitista. Pelo contrário, a ideia seria uma tentativa de dar maior relevância às divisões inferiores e aos estaduais, buscando fomentar um modelo que historicamente deu muito certo no Brasil. O problema das categorias de base no país, me parece claro, está justamente em focar cada vez mais em atletas vindos das categorias de base dos principais clubes do país e cada vez menos em toda essa rede.
Atualmente, se um menino não tem seu potencial identificado aos 14 anos, rumando à base de um clube de elite, suas chances de alcançar o topo da pirâmide são muito menores do que há trinta anos.
O Roberto Carlos mesmo endereçou esse problema em declarações recentes, ao ser ligado a um investimento na Inter de Limeira. Formado no União São João, o ex-lateral reforçou justamente a importância de voltar a fomentar um ambiente em que clubes do interior paulista (e de outras regiões do país) sejam viáveis e relevantes o suficiente para alimentar a elite do futebol nacional. Atualmente, a discussão parece focar em garantir que um novo Roberto Carlos tenha espaço na elite – como se atletas de altíssimo nível não encontrassem mais espaço na Série A.
Em vez disso, o foco dessa conversa deveria ser em garantir que clubes como o União São João consigam contribuir para a formação desses atletas e que, quando – e não se – atingirem a elite, esses atletas encontrem o nível mais alto possível para concluir sua formação antes de partirem rumo ao futebol europeu.





